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Grécia enfrenta dificuldades para contornar crise econômica

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De acordo com um porta-voz do presidente grego Karolos Papoulias, a Grécia irá realizar novas eleições após líderes políticos não conseguirem entrar em acordo para um governo de coalizão. A instabilidade política, entretanto, reflete problemas de outra natureza: a Grécia, hoje, enfrenta com dificuldade uma crise econômica que afeta todos os países europeus e movimenta investimentos do próprio  Fundo Monetário Internacional (FMI). No entanto, líderes europeus disseram que vão cortar os financiamentos à Grécia se o país recuar das promessas feitas.

A Grécia é considerada, na Europa, o “primo pobre” dos países europeus, segundo a economista e professora da ESPM-SP Cristina Pinto de Melo, que a considera uma nação fraca nas questões de diversidade, produtividade e estrutura.

Segundo Cristina, durante muitos anos, a estratégia do país girava em torno da desvalorização do dracma, para uma possível tentativa de exportação; dessa forma, conseguiam competitividade pelo fato de o preço da moeda ser considerado baixo. Outro fator foi a entrada da nação na União Europeia (UE), que melhorou seu perfil de renda, permitiu a adoção de tarifas aduaneiras comuns e criou uma rede de parceiros financeiros – junto aos demais países europeus –, compensando as perdas da desvalorização do dracma. A economista ressalta, ainda, que a entrada do país na UE trouxe-lhe estabilidade de preços, mas o mercado nacional não podia mais financiar o seu padrão por ter abolido a sua moeda. No momento em que o país abriu mão da emissão monetária, o Estado passou a contrair dívidas. Na opinião da economista, a entrada grega no bloco não ocorreu da maneira adequada: a inflação e os gastos públicos deveriam estar sob controle.

Para que fosse possível a entrada do país na zona do euro, era necessário que houvesse números para comprovar sua viabilidade. No entanto, descobriu-se que os dados não refletiam o grau de endividamento da Grécia. A partir de então, o parlamento europeu solicitou que fosse feito um levantamento para apurar em que circunstâncias esses números foram coletados, avaliando, também, qual teria sido a possibilidade de o Eurostat (órgão semelhante ao IBGE brasileiro) não ter percebido que os dados não estavam corretos. Nesse levantamento, foi identificado que a Grécia contava com um instituto de dados estatísticos que não tinha uma orientação correta, uma infraestrutura adequada e um treinamento necessário para a produção de informações financeiras confiáveis.

Cristina Pinto de Melo, economista e professora da ESPM-SP

Segundo a professora da ESPM,  após a apuração a pesquisa foi levada ao parlamento europeu. “Foi constatado que não houve má fé dos gregos, o que ocorreu foi um problema na produção dos dados”, diz.

“Hoje, o Eurostat ganhou poderes de intervenção na produção dos números. Ele vai ao país e não somente colhe os dados, mas também faz a investigação desses dados”, explica a economista, que reforça o motivo da situação crítica de endividamento grego dizendo que a nação apresenta uma estrutura produtiva muito limitada, fazendo com que a carga tributária possível de arrecadar se torne pequena.

O principal fator, na opinião da economista, entretanto, está relacionado ao “Estado de Bem-estar grego”, que garante a todos os cidadãos aposentadoria, salários altos, assistência médica e educativa sem a contrapartida tributária. Com isso, a alternativa encontrada pelo país é a de se endividar para que possa garantir esses benefícios.

“Para se obter uma justificativa para o endividamento, é necessário fazer um estudo abordando a natureza da crise atual, pois essa realidade é uma sequência da crise de 2008”, afirma a economista. A crise norte-americana deixou a maioria da população, dentro e fora dos EUA, com temor do sistema bancário, medo de que eles  quebrassem e com a insegurança de um possível crescimento de arquivos tóxicos, que consistem em financiamentos que não serão recebidos pelos seus devedores, em outras instituições bancárias.

Esse medo fez com que boa parte dos europeus sacasse seus recursos nos bancos e passasse a guardá-los em espécie, fazendo com que os bancos ficassem sem recursos, limitando, então, seus investimentos em instituições privadas. Cristina explica que, de fato,  o que foi observado no continente foi uma escassez de crédito que compromete a atividade produtiva e a capacidade de os Estados tomarem recursos emprestados.

Atividade produtiva

A Alemanha tem atividade produtiva densa e estruturada, o que garante ao Estado arrecadação; já o contexto de Portugal é marcado por uma base produtiva sem diversificação e limitada, semelhante à da Espanha, que tem problemas principalmente na relação com o mercado de trabalho, à competitividade e à capacidade de exportação. Os países com maior debilidade do ponto de vista produtivo estão mais expostos à atual crise financeira.

A União Europeia espera que a Grécia declare falência; espera-se que o país assuma a postura “não vou pagar, não tenho como pagar”. No momento em que fizer isso, o restante do bloco tende a oferecer auxílio à economia quebrada. “Se a Grécia perder os financiamentos dos líderes europeus, não terá recursos para bancar os seus investimentos e a sua estrutura. Se os governos europeus vedarem os investimentos, o país deve ou declarar falência ou entrar em uma situação de caos”, explica Cristina.

Na visão da economista, a saída da Grécia da União Europeia é improvável porque ela teve mais ganhos que perdas ao entrar no grupo. Hoje, o país tem fontes de financiamento da UE e tarifas comuns de exportação para todos os países do bloco, que são também seus maiores clientes. “Se sair da União, a Grécia perde essa tarifa comum e perde a possibilidade de exportar para os outros países em preços menores. Além disso, carregará uma dívida em euro, desvalorizará a sua moeda e terá de fazer mais esforços locais para pagar suas dívidas no exterior.”

Economia e futuro

A economia grega, hoje, está estruturada em uma base de serviços de turismo e logística de transporte marítimo de médio porte, de produção significativa de frutas in natura e processadas e de fabricação de azeites e vinho.

A UE veio tentando fortalecer bancos e demais instituições para evitar um contágio da crise financeira da Grécia. Com isso, pretende-se reduzir os impactos de uma possível falência do país. “É preciso realizar mudanças na base estrutural de produção para evitar uma crise com dimensões mais críticas”, diz Cristina Pinto de Melo.

Diego de Almeida Pinheiro (1º semestre)


 

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