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Edição 17 - Covid-19 Plural Última Edição

Como diferentes gerações lidam com a pandemia

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De que maneira nossa herança social pode interferir na percepção da crise e dos valores

 

Iasmim Paiva, Julia Boarati (3º.sem)

 

“Você está acostumada a uma rotina acelerada na qual não paramos por um segundo e, de repente, precisa mudar complemente, desacelerar, tudo é adaptação, é sobre você lidar com a situação”, afirma a universitária Tatiana Foster, quando questionada sobre como lidar com a quarentena. O sentimento que ela traduz pode ser compartilhado por muitas pessoas jovens que, acostumadas às suas rotinas, de uma hora para outra, jogaram tudo para os ares, para se adaptar a uma sociedade cujo estilo de vida e valores estão sendo colocados à prova.

Ao falar de mudança de paradigmas, nossas atenções se voltam para o mundo interconectado das mídias digitais, um dos pilares da atualidade. Para se adaptar no universo virtual, o antropólogo e professor da ESPM-SP Fred Lucio prevê uma tendência a reiterarmos nossas relações sociais nesse novo espaço. Além disso, chama atenção para as gerações mais atuais, que cresceram no ambiente da tecnologia digital. “Elas acabam encontrando mais alternativas na solução desse problema do isolamento”, pondera, destacando que nem sempre as gerações mais velhas acompanham esse movimento.

De fato, é esperado que jovens encontrem mais facilmente novas possibilidades para atividades diárias dentro de casa. Esse é o caso de Vinicius Árabe, que se surpreendeu positivamente com a adaptação. “Está tranquilo, consigo até ajudar o professor da matéria que eu sou monitor”, afirma. Pedro Aizemberg passou por uma transição semelhante. Além do ensino a distância, ele conseguiu se ambientar a uma rotina de exercícios também. “Peguei uns treinos com amigos que já fizeram academia e estou me virando aqui”, conta.

No entanto, nem é necessário entrar em questões como o acesso pouco democrático à educação no país para perceber que a facilidade em lidar com as tecnologias não é regra para a geração Z. Isadora Carneiro afirma que se acostumar com uma rotina 100% online, de uma hora para outra, foi “muito ruim”. Da mesma forma, Tatiana concorda que se adaptar às aulas em casa foi um desafio. “Quando vira obrigação você estar conectado o tempo todo, a história muda”, defende.

Tais insatisfações na quarentena podem provocar uma frustração com o ritmo de desempenho. Isadora resume: “Parece que quanto mais você tenta ser produtivo menos você é, você sempre tem a sensação de que está sendo improdutivo”. A psicanalista Ana Fachinni explica que por serem os jovens um grupo mais preocupado com o momento futuro, seja por uma perspectiva pessoal ou global, eles “têm uma preocupação e uma dúvida muito grande e isso é muito angustiante”.

Do ponto de vista de quem já viveu outras crises, pode parecer que o momento é apenas mais um dos vários em que a tensão mundial está latente. Os maiores de 60 anos provavelmente passaram mais tempo de suas vidas com medo de bombas nucleares do que de vírus contagiosos. Contudo, por se encaixarem como principal grupo de risco, é imprescindível protegê-los, mesmo quando não há grande preocupação por parte dos mesmos.

Fred Lúcio defende que o mais importante é tranquilizá-los de que, embora haja um perigo real, não é uma sentença de morte. “Acho que informação é a principal chave”, afirma o professor, acrescentando que “as pessoas também estão promovendo várias ações para a população idosa nas mídias sociais, o que é algo bastante interessante”.

Por outro lado, os idosos têm uma vantagem nesse processo, pois muitas vezes já estão mais acostumados a uma rotina caseira. Waldete Tristão justifica que, por estar aposentada, sua rotina não mudou muito. “Moro sozinha há anos, em um lugar fantástico, e estou acostumada a ter contato a distância com família e amigos”, afirma. Contudo, mesmo já tendo enfrentado diferentes crises na política e economia, reforça que esse é o momento mais crítico de sua vida. “É triste saber o sofrimento que estão passando ou vão passar milhares ou quem sabe milhões de pessoas, por perderem seus entes queridos”, completa.

Eliane Pimenta concorda que o costume com a vida de aposentada foi útil para se adaptar à quarentena mas, mesmo assim, nunca pensou que fosse ficar tanto tempo isolada. “Dá aflição por não poder abraçar os netinhos e as amigas”. Defende ainda que a chave para sofrer menos com o isolamento é ocupando-se de maneira significativa, sem “ceder à tentação da cama nem dos jogos ou papos infinitos na internet”.

Quaisquer que sejam as dificuldades e facilidades nesse momento, a espera pelo fim da quarentena é algo compartilhado por todos, porém, quando se fala em recuperação da sociedade, a atenção se volta para a população mais jovem. O professor da ESPM-SP acredita que, por existir uma parcela da juventude mais antenada nas questões do mundo, com a ajuda das tecnologias, os jovens podem colaborar com as mudanças que ainda estão por vir. “Acho que podemos esperar soluções mais criativas do que têm vindo por aí, em termos de mercado e para as pessoas”, pondera Lucio.

Se perceber como um indivíduo com tantos direitos quanto deveres pode ser um exercício essencial para jovens. As reflexões podem ser variadas, Pedro Aizemberg conclui que o período “foi importante para entender que as pessoas têm que ceder o próprio tempo por um bem maior e que cada pessoa tem sua responsabilidade”. Daniela Carlucci nota a importância de um pensamento coletivo. “É esse direito à quarentena que aparece né, assim como o direito à proteção, então é importante reconhecer o seu papel na sociedade”.

Ana Fachinni acredita que a situação atual poderia ajudar o jovem a se envolver de maneira afetiva com as coisas. “O amadurecimento é isso: a gente se envolver com as coisas que nos cercam”, completa. Por isso, mesmo diante dessa crise, essa geração, que já é taxada pelos mais diferentes valores, tem a oportunidade de desenvolver um olhar mais amplo para o mundo que a cerca e, talvez, reinventar sua própria imagem.

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