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Cenário atual da vacinação no Brasil: lento, porém promissor

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Rafael Saldanha (3º semestre)

Vacina. É a única maneira de se proteger contra a Covid-19, doença que já tirou mais de 460 mil vidas brasileiras, prejudicando, de alguma forma, milhões de famílias com os mais de 16 milhões de casos no país. O Brasil, sendo um dos países com a situação mais crítica e mortífera da pandemia, junto da Índia, apresenta um status de vacinação lenta, falta de oferta e muita demanda pelo imunizante, além da alta taxa de ocupação das Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) em todos os estados, com uma alta média móvel de 1.849 mortos e 60.934 novos casos por dia, segundo o consórcio de veículos de imprensa (parceria entre G1, O Globo, Extra, O Estado de S. Paulo, Folha e UOL).

No Brasil, 45,6 milhões de pessoas (21,58%) foram vacinadas com a primeira dose até hoje (01/06), enquanto 22,1 milhões (10,48%) estão totalmente vacinadas. No total, foram aplicadas mais de 67 milhões de doses, correspondentes a 74,74% distribuídas. Isso ocorre devido à orientação do ministro da saúde, Marcelo Queiroga, de estocar vacinas para a aplicação da segunda dose, considerando a falta de vacinas e o atraso da chegada de insumos da China. Em março, o ex-ministro da saúde, Eduardo Pazuello, pediu para que os estados e municípios aplicassem todas as doses em mãos, visando acelerar o ritmo da vacinação. Essa recomendação foi reforçada pelo atual Ministro Queiroga em 6 de maio, porém, o médico voltou atrás.

A média de vacinação diária é algo que preocupa. Segundo o Ministério da Saúde, a segunda semana de maio apresentou média de 280 mil doses por dia, um número baixo para um país que visa imunizar 70% da população (aproximadamente 150 milhões de pessoas, ou seja, 300 milhões de doses) para acabar com a pandemia.

É importante lembrar que o Brasil iniciou a vacinação em 17 de janeiro, quando a enfermeira do Instituto Emílio Ribas, Mônica Calazans, foi vacinada em São Paulo, com a CoronaVac. Países como os Estados Unidos, China, grande parte da União Europeia e até mais próximos, como Chile e Argentina, iniciaram suas vacinações em massa, ainda em dezembro.

Enfermeira Mônica Calazans sendo imunizada com a CoronaVac ao lado do governador de São Paulo, João Dória – Foto: Governo do Estado de São Paulo

Essa queda da média de vacinação é o resultado da suspensão da aplicação de CoronaVac por cidades de pelo menos 18 estados no início da segunda semana de maio, e da interrupção da produção da vacina pelo Instituto Butantan no dia 14 de maio, devido à falta de matéria-prima, o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), proveniente da China. O Butantan repassou 1,1 milhões de doses naquela sexta-feira para o Ministério da Saúde, primeira remessa do segundo contrato com a pasta, de 54 milhões de doses.

No dia 25 de maio chegaram 3 mil litros do insumo ao Aeroporto de Guarulhos, suficientes para a produção de 5 milhões de doses. A previsão era de 4 mil litros, mas foi revista. Segundo o Butantan, os 3 mil litros entregues fizeram parte de um lote com 10 mil litros de IFA no total, que já foi disponibilizado pela SinoVac e seria suficiente para a produção de 18 milhões de doses da CoronaVac. Portanto, houve uma paralisação de 13 dias na produção da vacina pelo Butantan. Pelo cronograma do Instituto, as vacinas serão entregues ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) do MS em 15 a 20 dias do início da produção, ou seja, entre 10 e 15 de junho.

Tiago Rocca, gerente de novos negócios do Instituto Butantan, falou sobre a entrega tardia dos insumos para a produção da vacina na farmacêutica. “É uma situação de atraso, a gente esperava receber esses insumos desde abril, então vamos acumulando um atraso para a segunda parte do contrato do Butantan, para fornecer ao Ministério da Saúde. Esse contrato tem um prazo de entrega das doses até setembro. Se os demais embarques não tiverem atrasos de liberação, ainda seria possível contabilizar esse quantitativo dentro do prazo, visto a disponibilidade de linha de produção que o Butantan possui”, ressalta.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) possui a importante função de analisar as vacinas que as farmacêuticas estrangeiras oferecem ao Brasil. Seria um processo demorado. Entretanto, com a pandemia e os pedidos de uso emergencial dos imunizantes, a Anvisa analisa os produtos em poucas semanas, se não dias. Apesar da aprovação de diversos imunizantes, a Agência negou a entrada de duas vacinas no país.

 

Fachada do edifício-sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Anvisa, em Brasília, DF – Foto: Agência Brasil

A Sputnik V, do instituto russo Gamaleya, foi negada no dia 26 de abril, após 14 estados pedirem a importação emergencial de 30 milhões de doses. O posicionamento do relator do processo de análise, Alex Machado Campos (membro da Diretoria Colegiada da Anvisa), foi de que a vacina russa apresentou um “mar de incertezas” e um cenário de “riscos impressionantes”. Isso ocorreu apesar de 60 países no mundo terem aprovado a vacina para suas populações. Após checagem da agência brasileira, 23 desses países não iniciaram a vacinação com o imunizante e apenas 28% relataram o uso ativo da vacina.

O outro imunizante negado pela Anvisa é a Covaxin (BBV152), vacina indiana produzida pelo laboratório Bharat BioTech. Ainda em fevereiro, o Ministério da Saúde assinou a compra de 20 milhões de doses da vacina indiana, sendo 8 milhões entregues em março, oito em abril e quatro milhões em maio. Porém, em 31 de março a Anvisa não concedeu ao MS a “autorização excepcional e temporária para importação e distribuição” da Covaxin. O posicionamento de Alex Machado foi o mesmo, constatando que “pelos dados apresentados, havia incerteza sobre a eficácia e a segurança da vacina, uma vez que os dados para a análise não foram apresentados”.

Com a livre circulação do coronavírus no Brasil, as mutações das cepas preocupam cientistas e a população, dificultando e prolongando a pandemia. Há dois tipos de variantes, classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS): as de “interesse”, que teoricamente não são mais transmissíveis, nem letais, e as de “preocupação”, uma vez que pesquisas indicam que elas são altamente transmissíveis e capazes de deflagrar casos mais graves da Covid. Entre elas estão a P.1, de Manaus, a do Reino Unido (B.1.1.7.), a da África do Sul (B.1.351) e da Índia (B.1.617). A variante P.4 foi identificada no interior de São Paulo, mas ainda não se sabe se é mais perigosa que o vírus original. Mais de mil variantes já foram detectadas no mundo – das quais quase 100 circulam no Brasil, segundo a Fiocruz.

A variante indiana (B.1.617) foi a estrangeira mais recente a invadir o Brasil, apresentando oito casos até o dia 26 de maio. Os infectados localizam-se no Maranhão, Rio de Janeiro e Juiz de Fora (MG). Segundo a OMS, a mutação apresenta aprimoramentos genéticos, os quais melhoram a capacidade de transmissão do vírus e permitem que ele consiga contaminar nosso organismo com mais facilidade.

“É uma dúvida que todas as vacinas vão ter, com relação primeiro à duração da imunidade e também à eficácia da vacina frente às novas variantes que vão surgindo. É nítido que onde a pandemia tem uma curva de aceleração mais intensa, com maior número de casos, é a tendência natural que novas variantes ocorram, principalmente em uma situação em que estamos no meio da vacinação. Ou seja, é uma preocupação que surge e que não tem uma resposta, quanto à eficácia e se vai ser necessária ou não a terceira dose”, explicou Rocca sobre como as variantes podem afetar a “garantia” de imunidade das vacinas atuais.

A dúvida sobre a necessidade de uma terceira dose, de reforço, pende sobre cientistas e cidadãos. No dia 12 de abril, Ricardo Palacios, diretor de pesquisa clínica do Instituto Butatan, afirmou que “existem grandes preocupações sobre como melhorar a duração da resposta imune, e uma das alternativas que tem sido considerada é uma dose de reforço”, podendo até completar a CoronaVac com outra vacina – como a ButanVac, que está em fase de testes.

Além do âmbito da possibilidade, o cofundador da BioNtech, o Dr. Ugur Sahin, confirmou a necessidade de uma terceira dose da vacina da Pfizer. Disse que é previsto que seja preciso reforçar o imunizante a cada 12 ou 18 meses, como acontece com a gripe sazonal. O CEO da Pfizer, Albert Bourla, confirmou a afirmação de Sahin sobre a vacinação anual. Além disso, o Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, dos Estados Unidos, também constatou como provável a necessidade da dose de reforço em aproximadamente um ano do começo da imunização.

Futuro da vacinação em massa

Embora o ritmo lento da imunização no Brasil, ela tende a acelerar e os dados são próximos. De acordo com a Fiocruz, maio foi o mês com o maior número de doses entregues ao programa nacional de imunizações. Foram cerca de 21 milhões. Ademais, já estão garantidos mais aproximadamente 18,5 milhões de doses, as quais sustentarão entregas semanais até o dia 3 de julho.

A Pfizer confirmou a entrega de mais 2,4 milhões de doses para esta semana, correspondentes a parte do primeiro contrato entre o Governo Federal e a farmacêutica de 100 milhões de doses. Com esse lote serão mais de 5,8 milhões de doses entregues. Além disso, o imunizante foi permitido, pela Anvisa, ser armazenado em geladeiras comuns por até 1 mês, aumentando o prazo de validade que antes era de 5 dias.

Apesar do prévio embargo da importação de Covaxin para o Brasil, a Anvisa liberou, em 13 de maio, testes da vacina em 4,5 mil voluntários brasileiros, para testar a eficácia, a segurança e a geração de anticorpos do imunizante. Com 3 mil voluntários em SP, Campinas sediará o estudo final (Fase 3) no estado, e o recrutamento dos voluntários começará neste mês.

Tiago Rocca ainda opinou sobre o futuro da vacinação no Brasil, com contratos já assinados e a espera pelas próximas remessas das doses dos fornecedores estrangeiros. “Acho que nesse ponto o Brasil já chegou com alguns fornecedores em um volume considerável, então a questão agora é se terão atrasos ou não. Em alguns lugares do mundo, como na União Europeia, tiveram alguns atrasos, mas de fato, a tendência daqui para frente é aparecerem mais fornecedores de vacinas. O panorama de desenvolvimento de vacinas é muito promissor, são mais de 200 iniciativas que foram iniciadas ano passado para o desenvolvimento de vacinas para a Covid-19. Imagino que, hoje, entre 10 e 20 já estão em fase de aprovação para o uso emergencial e as demais que avançaram no desenvolvimento clínico podem nos próximos meses, se não tiver uma aprovação pela Agência aqui no Brasil, por outras agências no mundo, podendo ter o interesse de fornecer ao Brasil. Porém, no meu entendimento, com a quantidade de contratos e volumes que estamos firmando neste momento, entendo que seja suficiente – apesar dos riscos de atrasos dos fabricantes”, afirmou.

Tiago Rocca, gerente de Parcerias Estratégicas e Novos Negócios do Instituto Butantan – Foto: Instituto Butantan

Para os próximos meses, espera-se a chegada de doses de diversos fornecedores:

  • 38 milhões de doses da Janssen (grupo Johnson & Johnson). 16,9 milhões no terceiro trimestre e 21,1 milhões no quarto trimestre. É o único imunizante no mundo, que possui apenas uma dose. Apresenta 66% de eficácia contra casos moderados e 85% contra graves. Utilizada nos EUA e UE.
  • Contrato de 200 milhões de doses com a Pfizer. O primeiro de 100 milhões, firmado em março: 13.5 milhões de doses no segundo trimestre e 86.5 milhões no terceiro trimestre. O segundo de 100 milhões, acertado em maio pelo ministro Queiroga, tem previsão de chegada entre setembro e dezembro de 2021. Com esse último anúncio, o Governo afirma ter um total de 662,9 milhões de doses contratadas.
  • A Anvisa iniciou a avaliação de pedidos de 95 milhões de doses de Covaxin e Sputnik V.
  • A previsão do cronograma de entrega de vacinas do MS para junho é de 43,8 milhões de doses.
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