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A arte periférica hoje

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Eduardo Fabrício

O movimento modernista abriu a cabeça das pessoas para novas manifestações artísticas. Isso influenciou para que hoje a arte da periferia venha conquistando seu espaço. Mas o cenário atual ainda apresenta seus percalços, como diz Marcelino Melo, o Nenê, também conhecido como Quebradinha, que produz esculturas baseadas em casas de favelas.
“Nada mudou, no final das contas, continua igual. Lá em 1922 existia esse grupo de jovens ricos, que tinham os pais donos do café, donos de São Paulo. Não estou tirando esses caras, mas naquela semana também não existia gente preta, de periferia, que fazia arte e que era muito bom naquilo? Também existia. Foram colocados no lugar que deveriam? Não! E hoje, os artistas periféricos estão sendo colocados nos lugares que deveriam? Também não. A verdade é que nada mudou.”
Todos esses privilégios permitiam que os modernistas viajassem e se inspirassem nas produções europeias. “Em 1922, quando teve a Semana de Arte Moderna, eles se consideravam modernistas, falando sobre a nossa ‘brasilidade’, porém, eram todos burgueses, não tinha um preto, um pardo, eram todos brancos da elite”, acrescenta Guilherme Lima, também artista periférico.
Os artistas da periferia não viajam para buscar referências. A vivência deles, o lugar onde moram, os inspiram. É o seu dia a dia que vira arte. Nesta Plural, apresentaremos artistas que buscam conquistar espaço e visibilidade, não só para eles e para a arte de periferia, mas para toda a sociedade.

Marcelino Melo, Nenê

“No Nordeste, eu já fazia casinhas na arquitetura de lá, com pedaços de telhas, blocos e uma massa de água e areia. Percebi há pouco tempo que essa pode ser uma conexão entre a minha infância e hoje. Eu me reconheço. Tenho certeza que não é por acaso”.
O que antes era brincadeira, hoje virou peça de exposição e mais do que isso, uma representação da realidade periférica. O artista teve sete de suas Quebradinhas na exposição Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros, em homenagem à escritora, que aconteceu no Instituto Moreira Salles (IMS), na avenida Paulista, centro de São Paulo. Também participou da primeira edição da ExpoFavela, com a obra Colher de Pedreiro.
A criatividade de Nenê o impulsionou em sua carreira e permitiu que ele produzisse outras coisas além das esculturas. Ele também tem uma produtora de vídeo, a Fluxo Imagens, e o Menino do Drone, projeto em que faz fotografias aéreas de favelas com um drone.
Nascido em Alagoas, Nenê veio para São Paulo aos 14 anos com a família, e foi aqui que se desenvolveu como artista. “Tem coisas que eu só descobri sobre mim, sobre meu povo, minha origem, quando cheguei aqui e conheci o hip hop e mais uma pá de coisa”.
Mas a descoberta como artista não foi rápida, muito menos intencional. “Eu não vim com essa vontade de ser artista. Na real, a última coisa que você quer ser na vida é ser artista. Porque o artista não tem valor nenhum”.
“Quase ninguém exerce a arte como ela deveria ser exercida”. Para ele, o ideal seria que o artista tivesse um espaço para produzir, em que seu processo criativo fosse respeitado, além de uma equipe encarregada das burocracias da carreira, para que o trabalho também gere dinheiro. “Quando você não tem nada disso e tem que criar, responder e-mail, oferecer seu trampo, disputar edital público… não dá.”
A visão preconceituosa que a sociedade tem da periferia foi o que influenciou as quebradinhas a terem, ou melhor, não terem uma característica: marcas de tiros. “Não vai ter marca de balas”.
A forma com que Nenê retrata as casinhas tem um objetivo: fazer com que as pessoas se sintam pertencentes a essa realidade. “Quando isso acontece, é porque deu certo representar a quebrada. Já não é mais meu, é do mundo”.
Ele também destaca que é importante levar sua arte para lugares mais privilegiados. Para que a periferia seja apresentada por seus próprios olhos, por seus próprios artistas. “O mundo precisa conhecer a nossa visão e a nossa narrativa sobre o território”.
Expor na Paulista tem um significado especial para quem já trabalhou como entregador e mecânico na mesma avenida. Mas isso marca apenas o começo. “Quero estar no mundo, no Masp, no Museu Internacional, no Louvre.”

Janaina Vieira

Janaína começou na arte fotografando cotidiano urbano. Em 2016 passou a experimentar colagens e em 2018 iniciou o projeto Cola Mesmo, que oferece oficinas culturais de Colagem e Lambe-lambe no Vale do Paraíba e região. “Tenho 24 anos e estou nesse corre desde os 16.”
Segundo a colagista, sua arte é uma forma de expressão. “Quando eu retrato a quebrada, eu estou falando de mim mesma, porque eu venho desse contexto, da periferia, da quebrada, da favela, barraco de madeira. Então eu só queria expressar o que via no meu dia a dia.”
Para além de si, ela tem o objetivo de que mais pessoas dessa realidade sintam orgulho de onde vêm, de sua origem. A artista também entende que isso carrega uma responsabilidade. “Preciso estudar antes de fazer uma obra, como eu falo de quebrada, eu não falo só de mim, sobre minhas vivências. Eu falo sobre a realidade de uma galera que faz parte desse recorte social”.
Janaína é natural de Macambira, Sergipe, e atualmente mora em Jacareí, São Paulo. Ela conta que por mais que consiga viver só de arte hoje em dia, a maior dificuldade de um artista de quebrada é em relação ao sustento financeiro. “Eu me desdobro em várias funções para levantar uma renda de fato.”
Ainda assim, a arte de Janaína rompeu a fronteira e chegou até espaços tradicionalmente de elite, como o IMS Paulista. A obra Conhecimento é a única coisa que ninguém tira de nóis também fez parte da exposição Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros. Porém, a artista diz que expor nesses lugares não tem só pontos positivos. “A arte é muito elitista. O preço de ocupar esses espaços é caro demais, custa um pouco de saúde mental”.
Esse preço entra na conta do preconceito e do meio elitista que a arte brasileira se desenvolveu, na figura dos próprios modernistas, e a exemplo deles, a arte da periferia vem para quebrar barreiras. “A gente está aqui para decolonizar esses movimentos elitistas. Estamos chegando cada vez mais, mudando esses padrões estéticos e essas regras que existem no mundo da arte.”
Tem surgido, então, segundo ela, uma maneira de se expressar e trazer representatividade. “Ainda mais por eu ser uma mulher não branca, fazendo arte de quebrada.”

Lucas Ferreira, Ferreirart

Logo aos 4 anos de idade, Lucas mudou do Rio de Janeiro para o Amazonas, onde morou até a adolescência. Foi durante esse período que criou uma conexão com a natureza, presente até hoje em sua arte. Aos 12 anos já tinha um canal no YouTube em que ensinava a pintar com mouse e a desenhar personagens. “Desde novinho eu já gostava de estudar arte, eu já sabia que queria ser artista.”
Foi essa certeza que o fez resistir à falta de apoio familiar. Ele revela que não teve o apoio da mãe, que apesar de trabalhar com artesanato, não enxergava a arte como uma boa opção de carreira para o filho. “Minha família falava que era errado, e isso era um grande problema, porque eu não me via fazendo outra coisa. Isso me fazia muito mal, porque falavam que eu era vagabundo. Me deixava triste, mas eu continuava desenhando, não podia deixar isso entrar na minha cabeça”.
Para ele, isso era reflexo da incerta carreira de artista. “Nem todo mundo tem oportunidades, ainda mais quando você vem de uma família que não tem muito recurso. Na maioria das vezes é preocupação”.
Toda a persistência rendeu frutos desde cedo, logo aos 14 anos, recebeu proposta para fazer as artes do livro do rapper Gabriel Pensador. Ferreirart também já desenhou para a revista Mundo Estranho e para o jornal Folha de S.Paulo, além de já ter feito trabalhos para artistas como MC Cabelinho, Yunk Vino e Rennan da Penha.
Porém, o acúmulo de tarefas fez com que desenvolvesse ansiedade, e foi a própria arte que serviu como solução. “Eu liberava minha ansiedade ali, eu sinto prazer em produzir arte”. As obras de Ferreirart são sobre ele mesmo, o que não impede que represente outras pessoas também. “Muitas pessoas vão se identificar porque todos nós viemos do mesmo lugar.”
“Quando a gente acredita que a gente vai conseguir uma coisa, a gente consegue, quando afastamos a negatividade”. A busca pelo crescimento é constante, o cuidado financeiro e a base para trabalhar são essenciais e definir metas é necessário. “Eu quero trabalhar com uma coisa muito grande um dia, maior até do que eu consigo imaginar”. Para ele, todo mundo nasce artista, só que uns continuam e outros param, porque acham que é coisa de criança. “Muitas das vezes nosso corpo e alma só ficam felizes quando estamos fazendo uma coisa que amamos mesmo. E isso pode ter acontecido lá na infância”

Guilherme Lima, Mano Lima

Guilherme Lima, também chamado de Mano Lima, é de Jacareí, interior de São Paulo. Desde novo, já gostava muito de arte e de desenhar. Sua mãe teve papel determinante no seu início de carreira. “Minha mãe é professora e sempre me incentivou nessa parada.” Também foi ela que o levou a desenhar digitalmente.
Porém, para seguir a indicação da mãe, Guilherme teve que achar uma solução para conseguir os equipamentos. “Sempre trabalhei como vendedor ambulante, vendia sorvete na rua, eu mesmo fazia. Aí consegui comprar uma mesa digitalizadora, usava um notebook velho e com essas paradas eu comecei”.
Mano Lima desenha o seu cotidiano periférico, meninos “dando grau” de bicicleta e “batendo” cartas são algumas das cenas representadas em suas obras. Ele conta que decidiu retratar isso porque nunca se sentiu representado, principalmente em exposições. “Na internet até via, mas nas exposições nunca vi nada relacionado às quebradas.”
A partir disso, assumiu para si a responsabilidade de levar a periferia para esses lugares. “Já comecei a trazer para mim. Se eu não me sinto representado, vou fazer com que pessoas iguais a mim se sintam. Essa é minha meta, trazer representatividade para todo menor, para toda mina de quebrada”.
Lima fez sua primeira exposição neste ano, com três obras. Mas por ainda não conseguir viver só de arte, precisou de outro trabalho. “Tive que fazer sorvete para poder estar nessa exposição.” A convite da Perifacon, fez sua segunda participação em uma exposição, a Contramemória, uma homenagem ao centenário da Semana de Arte Moderna, no Theatro Municipal de São Paulo.
Para ele, o nome “pós-modernismo” não é ideal. “Acho que a gente tem que ser chamado uma coisa que represente mais a gente, nós somos outra parada”. Também comenta as diferenças entre estilos e contribuições de cada geração. “Eles fizeram obras baseados no conhecimento eurocêntrico, a gente faz do nosso jeito, valorizando o nosso. O que eles fizeram foi ótimo, graças a eles a gente está aqui hoje, mas é graças à gente de hoje que muitos da mesma realidade estão podendo conhecer e entrar nesse caminho.”
Segundo Lima, da mesma forma que a gente aprende sobre Tarsila do Amaral nos livros, falando que é uma grande artista brasileira, nós vamos estudar no futuro sobre os artistas de hoje. “São pessoas que mostram para gente que é muito possível. A arte na minha vida representa minha vivência, minha caminhada, os sufocos que passei até aqui.”

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