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Edição 21 - Os 100 anos Semana de 22 Plural Última Edição

Um novo olhar para o Brasil

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Eduardo Fabrício
“O sapo-tanoeiro, / Parnasiano aguado, / Diz: – “Meu cancioneiro / É bem martelado.
Vede como primo / Em comer os hiatos! / Que arte! E nunca rimo / Os termos cognatos.
(…) Que soluças tu, / Transido de frio, / Sapo-cururu / Da beira do rio…”
Com esses e mais alguns versos, Manuel Bandeira, autor do que depois seria considerado o hino do Modernismo no Brasil, por Sergio Buarque de Holanda, conseguiu que críticos da época desenvolvessem ranidafobia, nome dado a quem tem medo de sapos. A rivalidade entre sapos cururus, os modernistas, e sapos tanoeiros, os parnasianos, estava instaurada.
Essa guerra ideológica e artística, que Darwin classificaria como seleção natural, mudou os rumos da arte brasileira dali em diante, para surpresa dos próprios idealizadores, como conta Donny Correia, doutor em Estética e História da Arte da USP e crítico de arte. “A semana de Arte Moderna é um evento que acabou se tornando algo muito maior do que na verdade ela foi pensada para ser.”
Começaremos esta Plural fazendo uma reconstrução da maior revolução artística que este País já viu. Relembraremos acontecimentos que levaram os maiores expoentes da arte do Brasil, que até então pouco representavam sua cultura, a se unirem e lutarem pelo que acreditavam ser uma arte com a nossa cara. Para isso, organizaram em São Paulo a Semana de Arte Moderna de 1922.
Durante as primeiras décadas de 1900, pessoas que fossem a exposições artísticas ao redor do mundo encontrariam lá o parnasianismo e o academicismo, formas de arte que poderiam ser aprendidas em escolas e academias. Foi nesse contexto que artistas europeus iniciaram o movimento das Vanguardas Europeias, que pregava uma produção contráriaaà essa arte padronizada. Expressionismo, fauvismo, cubismo, futurismo, dadaísmo e surrealismo são algumas das vanguardas. Todas elas colocavam o sentimento do autor, a espontaneidade e a liberdade em primeiro lugar.
No Brasil não era diferente, a forma engessada e estética padronizada, que tinha “certo” e “errado”, não estava agradando os artistas da época. Foi então que eles, burgueses, membros da elite do país, decidiram ir buscar inspiração no exterior, tiveram contato com essas produções inovadoras do velho continente e decidiram trazer essa liberdade artística para cá.
“O que esse grupo fez nesse momento foi lutar por uma experiência artística mais aberta. Pela possibilidade de o artista expressar aquilo que ele pensa e sente, sem esses vínculos mais marcados em uma tradição que diz que tem que fazer dessa forma ou de outra, ou seja, a experiência da liberdade expressiva e de criação”, conta Marcos Antônio de Moraes, doutor e mestre em Literatura Brasileira pela USP.
A pioneira desse movimento foi Anita Malfatti, ainda em 1917. Ela fez uma exposição de suas obras, totalmente diferentes do que se via aqui até aquele momento. Porém, as coisas não aconteceram do jeito esperado. A exposição recebeu duras críticas. As mais famosas foram de Monteiro Lobato, no artigo Paranóia ou mistificação, publicado em dezembro do mesmo ano no jornal O Estado de S.Paulo.
“Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos rirmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres (…) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos de cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz de escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento”, escreveu Lobato à época.
Antes de continuar a viagem ao passado, vamos dar nome aos bois, ou melhor, aos sapos modernistas. Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia, Oswald e Mário de Andrade formaram o Grupo dos Cinco, considerados os principais nomes do modernismo e da Semana.
Mário de Andrade foi escritor e estudante da música. Sua obra escrita, que valorizava a cultura brasileira, marcou a primeira fase do modernismo. Publicado em 1922, o livro Pauliceia Desvairada foi uma de suas obras de maior destaque. Nele há uma série de poemas, incluindo Ode ao burguês, lido na Semana.
“Morte ao burguês-mensal! / ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi! /Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
– Ai, filha, que te darei pelos teus anos? / – Um colar… – Conto e quinhentos!!! /Mas nós morremos de fome!”
Oswald de Andrade foi escritor e dramaturgo, famoso pela sua irreverência, ironia, espírito polêmico e combativo. Foi um grande personagem cultural do século XX. Sua obra promove um nacionalismo focado nas origens, mas com críticas à realidade. Trechos de Os condenados foram lidos no evento.
“O velho e o cãozinho foram andando na sombra enjoada da tarde. Tinham passeado muito. Dobraram a esquina
da Rua dos Clérigos. Os vizinhos saudavam-nos. Eram ambos antigos no bairro e na cidade”.
Menotti Del Picchia foi, entre suas várias ocupações, poeta e romancista. Uma de suas obras mais famosas é Juca Mulato, um caboclo que se apaixona pela filha da patroa. Ainda em 1917, o poema já tinha traços de modernismo.
“Vai! Esquece a emoção que na alma tumultua. Juca Mulato! Volta outra vez para a terra. Procura o teu amor numa alma irmã da tua”.
Tarsila do Amaral foi revolucionária entre os revolucionários. Operários, Antropofagia e Abaporu são algumas de suas obras mais conhecidas. O último inclusive serviu de inspiração para o Manifesto Antropofágico, escrito por seu marido Oswald de Andrade.
Donny Correia conta que o movimento antropofágico surge de um ritual vivenciado pelo aventureiro alemão Hans Staden, no livro Duas viagens ao Brasil. Ele relata a experiência de quase ter sido comido vivo em um ritual de índios brasileiros. Paulo Prado presenteia Oswald e Tarsila com uma tradução da obra, que ao lerem entendem aquilo como uma metáfora.
“Nós temos que comer essa cultura e devolvê-la de uma maneira genuinamente brasileira. Temos que nos servir da cultura, da metrópole. Por isso que se você olhar por exemplo a obra da Tarsila do Amaral, as pinturas dela dos anos 1920 são muito influenciadas pelo cubismo de Pablo Picasso”, concluiu o crítico de arte.
Di Cavalcanti, apesar de não fazer parte do Grupo dos Cinco, também merece destaque. O desenhista, ilustrador e cartunista participou da organização da Semana e ainda assinou o desenho do catálogo e do cartaz do evento. Além disso, expôs 11 pinturas e ilustrações publicitárias.
A Semana
A repercussão e crítica negativa à exposição de Anita motivou os outros artistas modernistas a se juntarem para fortalecer e legitimar a nova arte. Mário e Oswald de Andrade julgaram que o centenário da Independência do Brasil, em 1922, era ideal para propagar o modernismo. Além de propor uma reflexão sobre o futuro da própria arte brasileira.
O dinheiro e a influência política do investidor Paulo Prado, que pagou o aluguel do teatro, combinados com a participação de Graça Aranha, responsável pela organização do evento, ajudaram a legitimar o evento perante os críticos. Washington Luis, na época governador de São Paulo e futuro presidente anos depois, influenciado pela burguesia industrial paulista, apoiou a realização do evento.
Graça Aranha foi o primeiro a se apresentar, com a palestra A emoção estética da Arte Moderna. Anita Malfati e Victor Brecheret tiveram suas obras expostas no saguão do teatro. O público, que nos dias seguintes se tornaria protagonista da Semana, esteve presente em grande número, com ânimos tranquilos.
A pianista Guiomar Novaes abriu o segundo dia tocando compositores modernos como Claude Debussy e Heitor Villa-Lobos. Menotti Del Picchia apresentou sua palestra em seguida. Ainda nesse dia, o poeta Ronald de Carvalho recitou o poema Os sapos, do início deste texto. O autor do poema, Manuel Bandeira, não pôde comparecer porque estava doente. A reação do público foi de indignação, com vaias, sons de latidos e até relinchos.
Donny Correia conta que essa resposta do público, por mais que pareça negativa, pode ter sido intencional, desejada e até mesmo encomendada pelos próprios artistas.
“A gente nunca vai saber exatamente se a reação negativa do público se deu somente porque não entenderam direito o que estava acontecendo. É bem possível que houvesse pessoas ali no meio que foram infiltradas, principalmente pelo Oswald de Andrade, para xingar, para tacar fruta, para vaiar. Porque isso era muito comum nos dadaístas e nos futuristas na Europa. Quando os grupos dadaístas e os grupos futuristas se apresentavam em público, esses artistas combinavam com amigos para ficarem lá na plateia vaiando. Quando surge alguma coisa nova, o que vai chamar atenção primeiro é a vaia e não o aplauso. Quando é muito vaiado o pessoal vai querer saber por que que está vaiando? O que que aconteceu? O que tem de diferente que o pessoal está vaiando?”.
No terceiro dia, o maestro carioca Heitor Villa-Lobos regeu uma apresentação musical com mistura de instrumentos. O que chamou a atenção do público foi sua roupa: ele vestia uma casaca, um sapato em um pé e um chinelo no outro. Mais uma vez o público respondeu com vaias, achando que se tratava de uma afronta do músico, mas o motivo era, na verdade, um simples calo no pé.
A repercussão
“Foi como se esperava, um notável fracasso a récita de ontem na pomposa Semana de Arte Moderna, que melhor e mais acertadamente deveria chamar-se Semana de Mal – às Artes”. – Jornal Folha da Noite, fev. 1922
“As colunas da secção livre deste jornal estão à disposição de todos aqueles que, atacando a Semana de Arte Moderna, defendam o nosso patrimônio artístico”. – Jornal O Estado de S.Paulo, fev. 1922
“É preciso que se saiba que nos manicômios se produzem poemas, partituras, quadros e estátuas, e que essa arte de doidos tem o mesmo característico da arte dos futuristas e cubistas que andam soltos por aí”. – Jornal do Comércio, fev. 1922
Essas foram algumas das manchetes dos jornais da época. A crítica foi severa e chegou a comparar os artistas da Semana com doentes mentais. Mas a Semana de Arte Moderna alcançou seu objetivo, chamar a atenção, abalar e reformar as estruturas da arte brasileira.
Também houve quem gostou do evento e foi inspirado por ele. A revista modernista Klaxon foi um dos principais produtos que surgiram a partir da Semana. Movimentos foram criados, como o Verde-Amarelo, Pau-Brasil, ambos de 1924 e o próprio Movimento Antropofágico. Até a Bossa Nova e o Tropicalismo, com a guitarra sendo usada na música brasileira, são exemplos da influência da Semana na arte.
Sobretudo, a Semana deixou um legado de como interpretar, absorver e ressignificar o passado. “Eles deixaram para a gente uma coisa que talvez a gente não tenha pensado muito. Uma compreensão do passado. O que houve, na verdade, nos principais modernistas, foi uma incorporação do passado como uma experiência do presente, ou seja, não foi preciso apagar o passado. O passado é um legado também. É nesse sentido. Olhar o passado criticamente também é o legado dos modernistas”, afirma Correa.
Ao decorrer dessa edição, vamos continuar contando mais sobre esse marco da arte brasileira, que incorporou, criticou e revolucionou, que pintou a arte de verde e amarelo. Além disso, vamos apresentar as manifestações de hoje, tão revolucionárias quanto a Semana de Arte Moderna de 1922.

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