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OMS classifica velhice como doença a partir de 2022

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Larissa Crippa (2º semestre)

Em janeiro de 2022 entra em vigor a CID11, proposta pela Organização Mundial de Saúde (OMS), trazendo mudanças no âmbito do bem-estar. Uma delas é a identificação da velhice pelo código MG2A, referenciando a condição como doença. A sigla CID, traduzida do original na língua inglesa “ICD” (International Classification of Diseases), é utilizada por profissionais da saúde para identificação e codificação de doenças, e a modificação para a classe da terceira idade divide opiniões.

“Essa mudança, que carece de bases científicas sólidas, causará um estigma ainda maior aos idosos e poderá trazer uma série de dificuldades com as quais nossa sociedade terá de lidar. A começar pelo fato de que a proposta não é clara em relação à idade a partir da qual o paciente seria considerado “velho”. Se no Brasil o termo é oficialmente utilizado para pessoas a partir dos 60 anos, na Itália, por exemplo, optou-se por adotar 75 anos como padrão”, explica a geriatra Maisa Kairalla, da Universidade Federal de São Paulo e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

A médica ainda aponta o quão maléfico isso seria para os dados epidemiológicos utilizados para montar estatísticas, uma vez que todas as mortes de pacientes a partir dos 60 anos seriam classificadas com o CID velhice. Informações valiosas, que ajudam a identificar melhores formas de prevenir e tratar as doenças associadas ao envelhecimento e a elaborar políticas públicas, seriam perdidas.

Apesar de o líder da equipe de classificação de terminologias e padrões da OMS, Robert Jakob, afirmar que a inclusão da velhice não significa torná-la uma doença e sim uma condição, já que o rótulo substituiria a palavra senilidade, que acumula uma conotação cada vez mais negativa, usado na CID10, especialistas se preocupam que a interpretação da mudança propague o ageísmo, preconceito contra indivíduos de idade mais avançada. “Vivemos em um sistema intolerante ao diferente, priorizando o trabalho e o consumo. O que fazer com o número crescente de velhos que não serve mais para o sistema produtivo? para que investir nesses corpos vistos como doentes? Repor a mão-de-obra passa ser objetivo premente”, rebate Beltrana Côrte, jornalista formada na PUC-SP, estudiosa do envelhecimento e longevidade desde 2000, em seu artigo “A velhice é uma doença?” para o portal do envelhecimento e longeviver.

O capitalismo e a indústria estética redefiniram o conceito de “útil” e “bonito”, colocando o envelhecimento em uma posição de invalidez e feiúra. O Brasil ocupa o quarto lugar no ranking de consumo da indústria estética, sendo um dos países que mais investe em cirurgias e produtos “anti aging”. Em uma cultura que abomina o envelhecimento, a geriatra Maisa Kairalla enfatiza: “Como coloca o próprio estatuto do idoso em seu art. 8º: o envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social. Doença, não! Envelhecer é antes um direito e uma conquista”.

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