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Juliana Dal Piva conta como ouvir sem julgar foi fundamental nas suas reportagens sobre a ditadura

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A jornalista Juliana Dal Piva, apresenta na ESPM os bastidores de algumas das suas reportagens premiadas. Foto Isabela Kishimoto.
A jornalista Juliana Dal Piva, apresenta na ESPM os bastidores de algumas das suas reportagens premiadas. Foto Isabela Kishimoto.

Isabela Kishimoto (1º semestre)

Grandes investigações jornalísticas quase nunca começam com um grande furo. Muitas vezes, surgem da construção de uma relação de confiança com a fonte – que de repente se abre para contar uma história guardada durante anos — ou da análise minuciosa de um grande arquivo de documentos. Essas são apenas algumas das técnicas que a repórter investigativa Juliana Dal Piva desenvolveu ao longo de sua carreira.

A jornalista catarinense compartilhou conselhos práticos e os bastidores de suas reportagens mais impactantes em uma palestra para alunos da ESPM, em um encontro realizado em 9 de setembro, na sala Victor Civita, em São Paulo.

Vencedora de dois Prêmios Jabuti (nas categorias Livro-Reportagem e Acadêmica), Juliana ressaltou que algumas das revelações mais contundentes de sua trajetória resultaram da combinação de persistência, escuta ativa e da decisão de nunca abandonar uma pauta. Dal Piva foi finalista do Jabuti em 2023 com  o livro O negócio do Jair: A história proibida do clã Bolsonaro (Editora Zahar, 2022) e vencedora do Jabuti Acadêmico 2026 com a investigação Crime sem castigo – Como os militares mataram Rubens Paiva (Editora Matrix, 2025).

Formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ela contou que o interesse pela área investigativa despertou durante um intercâmbio em Buenos Aires, em 2008. O contato com a história argentina e a forma como o país vizinho preserva a memória dos crimes da ditadura a fizeram retornar ao Brasil decidida a investigar a fundo o regime militar brasileiro.

Foi assim que, já na redação do jornal O Globo, conheceu o repórter Chico Otávio. Juntos, começaram a apurar, em 2012, a rotina da Casa da Morte, um centro clandestino de tortura que operou em Petrópolis (RJ).

Para reconstruir os fatos, Dal Piva precisou entrevistar antigos agentes da repressão. Uma dessas fontes foi o coronel reformado do Exército Paulo Malhães. Em conversas com Juliana, Chico Otávio e o colega Marcelo Remígio, o militar confessou ser o criador e principal operador do centro clandestino, um furo jornalístico histórico que expôs as violências acobertadas pela censura.

Durante a palestra, a jornalista detalhou que a confissão foi fruto de entrevistas longas, que duraram muitas horas. Essa é uma de suas principais técnicas que Juliana usa: deixar a fonte falar livremente, mesmo diante de discordâncias profundas.

Na visão de Dal Piva, o papel do repórter naquele momento não é julgar, mas escutar, questionar e extrair informações. “Você tem uma escolha, que é sentar e ouvir. Isso não significa concordar com o que a pessoa está dizendo”, explicou.

A jornalista, que trabalha atualmente no portal ICL Notícias, também relembrou o machismo que enfrentou ao lidar com os militares. Por ser uma mulher jovem na época, muitos subestimavam seu conhecimento. Juliana, no entanto, usou o preconceito a seu favor: no início das conversas, adotava uma postura mais silenciosa e aos poucos, introduzia perguntas mais específicas, deixando claro aos entrevistados que dominava o assunto.

Foi nessa mesma época que Juliana conheceu Jair Bolsonaro, que então atuava como uma espécie de porta-voz dos militares. O contexto foi essencial para o trabalho que desenvolveria anos depois. “Eu não iria cobrir o Bolsonaro se não tivesse feito essa cobertura [da ditadura]”, afirmou. Quando o político começou a crescer nacionalmente, a repórter já mapeava seu entorno e decidiu investigar o patrimônio da família.

Juliana Dal Piva apresenta a teia de conexões criada a partir de uma das suas reportagens. Foto Isabela Kishimoto

Juliana Dal Piva apresenta a teia de conexões criada a partir de uma das suas reportagens. Foto Isabela Kishimoto

Uma das pistas cruciais surgiu quando uma fonte, procurada por meses, finalmente respondeu às suas mensagens de madrugada. A dica, entregue sob sigilo, levou a jornalista aos arquivos da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Durante dez dias, ela vasculhou manualmente edições antigas do Diário Oficial, anotando atos de nomeação e exoneração de assessores. Nomes, salários e períodos de contratação foram estruturados em planilhas. Ao cruzar os dados, Juliana identificou relações familiares e o trânsito irregular de funcionários entre diferentes gabinetes. O resultado desse trabalho é um impressionante mapa de conexões da família.

Ao fim do encontro, questionada por um estudante sobre o motivo de tantas provas jornalísticas não resultarem em punições imediatas, a repórter fez uma distinção clara entre os papéis da imprensa e da Justiça. O jornalista investiga, checa e publica, mas não tem poder de condenação. “Quando eu publico, torno toda a história pública”, concluiu, resumindo a importância que o jornalismo tem para a democracia.

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