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Educação agressiva na infância deixa marcas e afeta o desenvolvimento

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Giulia Castro (3º semestre)

 

Imagem: Marisa Howenstine (Unsplash)

“Apanhei e sobrevivi”. Dentre outras variações, essa frase costuma ser muito repetida por adultos que sofreram violência durante a infância e seguem acreditando que uma educação autoritária seja o único caminho para se ter o respeito dos filhos. Mas seria mesmo a agressividade necessária para a educação infantil? No geral, especialistas apontam que não. E, muito pelo contrário, esse tipo de comportamento pode trazer diversas consequências negativas ao relacionamento parental e ao desenvolvimento da criança.

Um estudo publicado em 2020 pela revista JAMA Pediatrics, que utilizou dados do Monitoring the Future, demonstrou que o número de pais que agridem os filhos vem diminuindo. A pesquisa, realizada com a população norte-americana, selecionou 25 grupos de pessoas no período entre 1993 e 2017. Enquanto em 1993, 50% dos pais afirmaram ter batido nos filhos, em 2017 esse número reduziu para 35%. Embora tais dados reflitam uma clara redução da ideia de que agredir é uma forma de educar, a porcentagem ainda é alta e levanta a questão de quais são as possíveis consequências de uma educação pautada na violência durante a infância.

Para a psicoterapeuta Raquel Jaskulski não há dúvidas: violência não educa. Sobre o assunto, Raquel aponta que a sociedade acredita que para a criança ser disciplinada ela precisa aprender com as próprias frustrações e ser punida, mas que essa ideia gera reflexos negativos. “As crianças que apanham e apanharam são mais propensas a repetir esses padrões com seus próprios filhos e com outro ser humano”, explica a psicóloga.

De um ponto de vista cientifico, Raquel destaca o que revela a neurociência: “São atitudes que são passadas de uma geração para outra e acabam ficando gravadas. Existe como se fosse uma gravação celular. Porque aquilo que foi sentido fica gravado no cérebro. Aquilo que doeu, mesmo que não deixe marcas visíveis, deixa marcas a nível neurológico”.

Além disso, a psicóloga aponta que o problema da educação agressiva não está só na “palmada” e sim no autoritarismo como um todo. “O autoritarismo, dentro de uma base patriarcal, ele vem também de outros tipos de abuso. De violências silenciosas que foram normalizadas na sociedade que acredita que no relacionamento entre uma mãe e um filho ou um pai e um filho é assim que a criança tem que aprender. Acreditam que a criança é um ser submisso aos adultos e que elas não têm voz”, explica.

Raquel ainda completa dizendo que essas atitudes podem acabar refletindo na busca futura de válvulas de escape. “Essa dor que foi vivida vai ser suprida de alguma forma. Seja no álcool, nas drogas, na comida ou até mesmo com graves doenças mentais, precisando de terapia e medicamentos controlados. Porque aquele abuso ficou marcado como feridas internas não resolvidas, já que a criança não teve suas necessidades atendidas de pertencimento e conexão com os pais”, conclui.

O outro caminho: Disciplina positiva, educando com respeito

Na contramão da educação autoritária e agressiva, os últimos tempos vem mostrando o crescimento e aderência de uma nova “vertente” da educação. A disciplina positiva é uma abordagem tanto filosófica quanto prática que consiste em educar a criança através do respeito, estabelecimento de limites, diálogo e cooperação.

Mariana Lacerda é terapeuta ocupacional, doutoranda em saúde da criança e do adolescente e educadora parental em Disciplina Positiva. Ela descreve a disciplina positiva como “sobretudo, uma forma de incentivar a cooperação, estreitar vínculo com a criança e trabalhar habilidades intrapessoais e sociais para a vida”.

“A disciplina positiva é uma abordagem que tem um fundamento na psicologia individual e que olha pra criança como um indivíduo que merece respeito, merece dignidade”, explica a terapeuta.

Embora muitas pessoas possam acreditar que esse tipo de abordagem permite que a criança aja como quiser, Mariana destaca que isso é um mito. A educadora explica que na verdade a disciplina positiva seria o “caminho do meio”, entre a educação autoritária, em que só os pais têm a razão, e a educação permissiva, em que os pais não se dão conta do seu papel e deixam de guiar a criança em seus momentos importantes.

“A disciplina positiva vem pra mostrar pra gente que é possível educar sem punições, sem abuso de poder e sem negligenciar, sem ser permissivo. A gente costuma falar que um dos princípios mais importantes da disciplina positiva é você ser firme e ser gentil”, esclarece a profissional.

Já sobre a frase “apanhei e sobrevivi”, Mariana diz que a questão não é exatamente essa. “Sobreviver qualquer um sobrevive. A questão é como a gente passa a viver com a gente mesmo. Como a gente vai viver nossas relações com o outro. É sobre isso”.

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