CARREGANDO

O que você procura

Destaque Notícias

“Democratizar o piano é fazer as pessoas se reconhecerem na música erudita”, diz Antonio Vaz Lemes

Compartilhar

Antonio Vaz Lemes em frente ao seu piano, em sua casa (Foto: Rafaella Caldas)

Rafaella Caldas, Sophia Padovan e Sophia Cavaquita (2º semestre)

Antonio Vaz Lemes, também conhecido nas redes como PianoQueToca, é pianista, professor e comunicador. Sua trajetória se iniciou na Unesp (Bauru – São Paulo), onde fez bacharelado e mestrado em performance. Aperfeiçoou suas técnicas na França na École d’Art de Fointainebleau e Académie Francis Poulenc. Ao longo da carreira, lançou três álbuns, que se tornaram sucesso de crítica nacional e internacional e são pauta nos principais veículos de imprensa, como Estadão, Veja, Globo News, Metrópole e outros.

Criou os canais PianoQueToca com o intuito de democratizar o acesso ao piano e à música de concerto. Nas redes, Antônio tem milhões de visualizações, um ótimo engajamento e usa suas plataformas para abordar repertórios que cruzam o clássico e o popular, como trilhas de filmes, séries, animes, MPB, hinos de futebol e até mesmo videogames. Por meio de conteúdos carismáticos, convida o público a refletir, escutar de forma sensível e, ao mesmo tempo, aprender sobre diversos assuntos que giram em torno do universo da música, mas sempre tangenciando o piano e a música erudita. 

Entre seus projetos, há formatos inovadores, como o gameshow, que consiste em uma performance solo ou acompanhada de uma orquestra, na qual Antônio interpreta músicas do universo gamer enquanto interage com o público. Além disso, há a masterclass, na qual turmas de 15 alunos aprofundam técnicas, interpretação e expressão musical. Em breve, lançará um aplicativo do PianoQueToca, que complementa a missão de Antonio de democratizar o acesso ao piano e à música de concerto.

Em entrevista concedida às alunas de Jornalismo da ESPM-SP, Antonio Vaz Lemes mergulhou no universo da música e compartilhou um pouco de sua trajetória e opiniões sobre a primeira arte. Confira:

ESPM: Qual foi a origem do seu desejo de democratizar o acesso ao piano e à música de concerto?

Antonio Vaz Lemes: Meu desejo de democratizar o piano vem da forma como eu entendi o que é ser artista desde criança. Cresci vendo exemplos que alcançavam todo mundo — Michael Jackson, Madonna — e via a arte como algo acessível e transformador. Com o tempo, percebi que o piano, embora conhecido, perdeu seu lugar central na sociedade. No século XX, ele era o rádio, a televisão e a internet da casa. um meio de comunicação e de troca de ideias. Hoje, mesmo com o acesso mais fácil a instrumentos e músicas, as pessoas estão mais distantes da experiência real. Por isso, senti vontade de falar mais sobre o piano, sobre sua literatura e sobre o poder de comunicação que ele tem.

ESPM: Quais barreiras você enfrentou para chegar ao piano em sua formação?

AVL: Nenhuma. Comecei a tocar com 4 anos: o piano já estava na minha casa, sempre foi algo natural para mim. A dificuldade veio quando decidi seguir a música clássica, que não era comum na minha família. No conservatório e depois na faculdade, percebi o quanto esse repertório é exigente e pouco compreendido, o que me fez questionar se conseguiria viver disso. Mas percebi que não tinha outro caminho, era mais forte que eu. A música me transformou, me fez abandonar uma visão fútil da vida e entender outros valores. Tocar com colegas e me comunicar por meio do som me fez ver que essa era a minha estrada. O piano se tornou minha forma de expressão e de felicidade.

ESPM: Quais diferenças você viu nos ensinos sobre música no Brasil e na França?

AVL: Não vejo grandes diferenças. A experiência internacional foi importante, mas devo muito da minha formação à UNESP, onde fiz graduação e pós. A música clássica exige muito rigor, quase como aprender uma nova língua. É preciso dominar sotaques e estilos para se comunicar musicalmente com qualquer cultura. O Brasil tem uma tradição muito forte em piano e grandes professores. Mais importante que a escola é o mestre: a relação entre professor e aluno é única, baseada em admiração e transformação pessoal. Tive professores inspiradores aqui e fora do país, e isso foi essencial para minha formação.

ESPM: Você acredita que a música clássica ainda é elitizada? 

AVL: Ela ainda é e no mundo inteiro, não era para ser. Ainda se tem a ideia de que enquanto você ouve, você é uma pessoa superior. E esses textos não são para isso. Alguns foram escritos, sim, para corte, por exemplo, Mozart era obrigado a escrever para ela. Mas, no fundo, ele tinha entendimento, assim como Beethoven depois, de que ele não estava escrevendo para aquelas pessoas, ele estava escrevendo para a humanidade. Uma mensagem para o mundo que ele precisava deixar. Mas é muito difícil quebrar esse paradigma. E também, a música só é executada dentro dessas super salas: Teatro Municipal, Sala São Paulo, cultura artística. Então são palcos privilegiados e aí volto para o meu canal ser tão maravilhoso, eu posso fazer isso quebrando um pouco essa penca que a música tem. A música foi feita também para você ter esse tipo de postura de rebeldia, de transgressão.

ESPM: Existe resistência do público jovem em relação à música de concerto?

AVL: Eu acho que eles simplesmente não conhecem. A pessoa fala assim: “não gosto de música clássica”. Nem sabe o que é, mas já pensa que é um lugar de igreja, de elite, de conservadorismo. Beethoven teve uma sonata, a Sonata Patética, censurada. As escolas não podiam ensinar aquela música de tão apaixonada, passional que ela era. E ele escreveu essas músicas com 18, 20, 22 anos. Não é fruto de um velho. Às vezes, a música clássica é fruto de um jovem que também tinha os mesmos anseios, as mesmas vontades, dores que todos os jovens têm. É falta de conhecer, de saber que existe uma música que é instrumental, que vai começar, vai ter um meio e um fim, ela vai contar uma história. Às vezes, ela vai durar mais do que três minutos. Você tem que estar aberto. É sobre isso. O que falta mesmo é dar à essas pessoas a chance de assistir, de se ouvir. Têm muitos jovens fazendo conteúdos de instrumento no TikTok, por exemplo. Tem uma safra nova aparecendo. Hoje precisa convencer de que o piano é legal.

ESPM: Quais você acredita que são os principais obstáculos para democratizar a música clássica no Brasil hoje em dia?

AVL: Eu acho que seria muito importante uma consciência de que todos os músicos, não só pianistas, mas violinistas, tivessem essa preocupação que eu tenho. Se todos os músicos tivessem essa consciência de que a gente não está com o jogo ganho só porque a gente toca Beethoven, seria muito importante, porque não é porque você toca o Beethoven que todo mundo vai amar. As pessoas não entendem o que é o Beethoven, elas não entendem que mensagem é essa. Seria importante que  entendessem que a gente tem na internet hoje um grande aliado para nos ajudar a explicar, a mastigar isso do que a gente gosta tanto de fazer.

ESPM: Você vai lançar um aplicativo que fornece lições de piano e permite que o internauta toque livremente um piano digital. Qual função ele cumpre no processo de democratização?

AVL: Eu tenho um segmento dentro do aplicativo que é um hub de experiências de web. Tem um lugar lá que é o de improvisação livre, que gravei algumas bases e nessas bases a pessoa segue alguma regra, que cada fase tem uma regra. É como se fosse um game mesmo. Mas tem outros lugares ali de você gravar, de metrônomo, de solfejo, de ritmo, de leitura de partitura, que é sobre você se dar conhecimento para poder realmente entender a partitura. É um lugar de várias experiências com a música para você querer estudar e te ajudar a aprender mais rápido. Quero que pensem: “Poxa, eu vou comprar um piano. Eu vou tocar. Eu adorei fazer isso. Olha que legal, eu consegui. Eu entendi o que estava rolando no acompanhamento, eu fiz junto e ficou bonito.” É esse tipo de coisa que eu quero, quero causar essa sensação nas pessoas.

ESPM: Você acha que o avanço da inteligência artificial (IA) pode afetar o seu trabalho? Sente que a IA vai atrapalhar ou ajudar na sua carreira como músico? Música e tecnologia podem ser aliadas?

AVL: Não vejo problema. Eu não gosto de quem fica falando: “Nossa, isso eu não aceito”. Já está aí, queira você ou não, está aí. Já faz parte da nossa vida. É entender como a gente lida com isso, como a gente tira proveito disso. Eu acho que o trabalho do instrumentista é tão singular quando ele tem um argumento, um projeto, um álbum musical, por exemplo, quer contar uma história. Por mais que tenha centenas de artistas criados por IA, os humanos vão ser mais potentes, mais presentes, mais facilmente identificáveis com os nossos sentimentos, a gente está aqui para conferir, mas eu não sou contra. Eu sou a favor de tudo na tecnologia.

ESPM: Em qual formato você se sente mais conectado com o público, que você consegue tocar mais o público para cumprir o seu objetivo da democratização? E qual você mais gosta de fazer, pessoalmente?

AVL: Eu imaginei que a minha vida inteira isso iria acontecer através das minhas interpretações, das minhas gravações, dos meus shows e realmente eu consigo isso, mas nada se compara ao que eu consigo fazer nos Reels ou no TikTok. Eu nunca consegui emocionar tantas pessoas com a minha música, os meus discos quanto nos Reels que eu crio. Isso é uma coisa nova para mim. Até lido com isso, a importância desse meu trabalho. Porque as pessoas vêm falar comigo e comentam, me encontram na rua, é por conta da emoção. A internet é o lugar em que eu mais consegui me conectar com o público. E o que mais gosto de fazer é o espetáculo. Eu gosto de tocar, de chegar e me preparar para tocar aquilo. Chegar no palco e quando eu tenho a sorte de me sentir à vontade e pleno, esquecer que sou eu que estou ali. E ver outro personagem entrar e eu cumpri a função de contar a história. Isso é transformador, uma das melhores sensações que existem é como se eu não fosse mais eu. Tem essa coisa de virar uma coisa só.

ESPM: Qual mensagem você gostaria que ficasse para quem tem vontade, mas ainda não conseguiu se aproximar da música clássica? 

AVL: Que dê uma chance para qualquer música e instrumento. Se dê a chance de ouvir uma sinfonia, um movimento de um pedaço de uma sinfonia, se dê a chance de ir ao teatro, assistir a uma orquestra, um músico, assistir a um espetáculo de música, se dê a chance de assistir a um filme ou colocar no Spotify uma música. Acho que as pessoas precisam dar esse pequeno passo e estar presentes. Você dá a chance de realmente parar para ouvir de corpo inteiro.

Tags:

Você pode gostar também