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Edição 18 - Racismo Plural Última Edição

A solidão da mulher negra

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Gabriela Soares e Helena Fortunato (4º semestre)

Apesar dos avanços para a desconstrução do papel da mulher perante a sociedade, conquistados pelo movimento feminista, barreiras socioeconômicas, expectativa de relacionamentos e construção do autocuidado continuam fortemente impactantes na vida da mulher negra. Isso acontece pois além da estrutura patriarcal que rege as vidas das mulheres como um todo, as mulheres negras encaram uma realidade de múltiplas invisibilidades e, com isso, a possibilidade de estabelecer relacionamentos amorosos também é afetada.

Segundo pesquisa do Instituto Ethos, de 2015, apenas 0,4% do quadro executivo das maiores empresas do Brasil é composto por mulheres negras, o dado sobe para 13,6% quando inclui mulheres de todas as cores. Quando o assunto é ensino superior completo, 19% das mulheres brancas possuem diploma – quase o dobro das mulheres negras, com 10%.

“É possível ver pessoas se posicionando nas redes sociais de forma muito agressiva. Se o momento que estamos vivendo no Brasil é de acirramento da desigualdade racial, consequentemente, as pessoas vão se revoltando pela perda de oportunidades que achavam ser garantidas. Enquanto tem gente querendo pautar diversidade, sempre vai ter gente querendo manter seus privilégios”, explica Daniela Ferrugem, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autora do livro Guerra às drogas e a manutenção da hierarquia racial. Daniela ainda aponta que por conta dessa competição velada, a falta de opção emerge do cenário socioeconômico para o afetivo.

Segundo a advogada piauiense Nádia Nádila, o nível de solidão é proporcional ao tom de pele. “Quanto mais escura você é, você nem é desejável. Tenho amigas de pele retinta que nunca estiveram em um relacionamento. Quanto mais clara, mais próxima de padrões eurocêntricos, mais desejável você é.” Nádia afirma que esses ideais vêm de uma construção social advinda do período colonial e que prevalece até os dias de hoje. “O processo de escravização de quase 400 anos teve consequências. Mesmo naquele período, as mulheres mais escuras trabalhavam no campo, enquanto as com traços miscigenados trabalhavam na casa grande”, completa a advogada, que acredita que o tema da solidão está atrelado à hipersexualização da mulher negra.

“A gente foi construído com a ideia de que deveríamos nos embranquecer”, afirma Nádia, explicando o motivo de até homens negros, que também sofrem com o racismo estrutural, acabarem preferindo mulheres brancas para estabelecerem relacionamentos. “Toda pessoa negra sonha em ser uma pessoa branca, não no sentido literal, mas no sentido de ser considerado humano, o tipo de pessoa universal”, completa.

Vale ressaltar que mulheres negras compõem o maior grupo da população brasileira, elas somam quase 60 milhões (28%). Quase 20% das que estão empregadas trabalham com serviços domésticos. Esse cargo ocupa a primeira posição de emprego, seguido por 7,6% que trabalham na limpeza de estabelecimentos. “A mulher preta está na base da pirâmide social”, explica Nádia. E, mesmo quando ocupam cargos de destaque, são associadas a cargos subalternos, expondo a naturalização dessa opressão social. “Quando estou no escritório, alguns clientes já chegaram e me falaram ‘estou esperando a Nádia’”, conta a advogada.

A luta da mulher negra também abrange o combate contra os paradigmas e estereótipos ainda presentes na sociedade. “O corpo feminino negro, tem seu maior expoente na época do Carnaval, em que é possível ver exposições com base na imagem hipersexualizada que foi criada pela sociedade”, enfatiza a professora Daniela. Para ela, as mulheres já apresentam uma carga de trabalho maior,  além da vida voltada aos cuidados dos filhos ou dos pais. Segundo o Censo de 2010 realizado pelo IBGE, 52,89% das mães negras são mães solteiras.

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