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Edição 18 - Racismo Plural

Há negros no poder?

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Iasmin Paiva, Maria Luiza Baccarin e Matheus Marcondes (4º semestre)

“Se a gente não acessa os espaços de poder, o negro no Brasil sempre será a figura subalternizada e invisibilizada.” A discussão sobre representatividade racial pode ser sintetizada na frase de Anderson Severiano, diretor de escola municipal em São Paulo. Diversificar os olhares nas posições de poder é superar a normativa branca, predominante no país.

Mas também é ampliar as perspectivas acerca da realidade. “Quem perde é quem está linearizando esses olhares”, conclui o professor. Em última instância, Cintia Araujo, professora e pesquisadora sobre diversidade em empresas, diz que superar essa visão pautada no olhar branco “cria uma sociedade mais igualitária onde essas diferenças não sejam tão gritantes como a gente vive hoje em dia”.

Tendo isso em vista, é importante que em uma democracia a sociedade pense coletivamente. Para tanto, a representatividade é fundamental nesse sistema. A advogada Karen Custódio defende que ela gera a sensação de ser incluída na sociedade, de que seus anseios serão atendidos. Além disso, por meio dela é possível alcançar algo essencial: a inclusão social. “O conjunto de meios e ações que combatem a exclusão aos benefícios da vida em sociedade, provocada pelas diferenças de classe social, gênero, deficiência, raça e entre outros”, explica.

Sendo assim, falar em inclusão é falar em beneficiar toda a população. Para o mestrando em Ciência Política pela UFPE Bhreno Vieira, a falta de representatividade da diversidade social brasileira nas instituições públicas é um “forte sintoma de que a nossa democracia não está funcionando tão bem, pois ela não atende em termos de interesse ou preferências de uma parcela majoritária do país, que é a população afro-brasileira”. Custódio reforça que um Congresso não representativo da diversidade racial do país significa “tomar decisões que estão distantes de atender o anseio da população”.

O racismo estrutural das instituições brasileiras tem histórico de longa data. O cientista político define esse processo a partir de três elementos: “O primeiro é a escravidão, seguida da ausência de um Estado capaz de reduzir as desigualdades e clivagens nacionais, seguida de estruturas dominantes (instituições públicas ou privadas) que refletem ainda uma dominação que teme uma maior autonomia da população preta e parda do Brasil”.

A origem disso é o mito da democracia racial, a teoria que nega a existência da desigualdade racial. Karen Custódio explica que “a diversidade cultural por aqui é sinônimo de desigualdade social, que se assevera pela perpetuação do elitismo branco como forma de manutenção de poder”. Anderson Severiano complementa: “No Brasil, o racismo é velado, ninguém é racista. Nós vivemos um apartheid invisível, um processo de divisão e separação invisível”.

Para se ter melhor ideia da pouca representatividade dos negros na política brasileira, basta analisar os números. Nas eleições de 2014, embora 9.274 candidatos a deputado tenham se autodeclarados negros, apenas 384 foram eleitos. De acordo com O Globo, em 2018 essa desigualdade se manteve. O número de senadores e deputados negros corresponde a 27% do total de parlamentares, bem menor que a proporção racial do país, que alcança os 54% de habitantes.

Para tentar modificar esse cenário, uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski determinou que a cota financeira para candidatos negros fosse aplicada ainda nas eleições municipais de 2020. Em agosto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) havia definido que candidatos negros têm direito a distribuição de verbas públicas para financiamento de campanha e tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão em patamares mínimos e proporcionais.

“O povo negro, em sua maioria, trabalha para prover sua sobrevivência, e não possui condições financeiras para se candidatar a um cargo político”, afirma Karen. A advogada acredita que a falta de representatividade racial pode ser marcada por cinco pontos: o histórico social do negro no Brasil; a baixa escolaridade; a falta de recursos para investimento financeiro; a falta de tempo para dedicação exclusiva às campanhas; e a inexistência de ação afirmativa no sentido de promover a equidade racial na política.

Só haverá um avanço na luta antirracista quando houver um número expressivo de negros ocupando cargos de destaque na política. A advogada conclui dizendo que campanhas e movimentos começados nas redes sociais, como o #VoteEmPreto, são um caminho para enxergarmos a identidade racial como uma pauta política poderosa para enfrentar as estruturas de poder, quase intocáveis desde o período colonial.

Há a necessidade de campanhas de conscientização e monitoramento permanentes que possam fomentar debates sobre como a população afro-brasileira pode se enxergar pertencente ao cenário político. “Parte de iniciativas como essas são realizadas por movimentos e coletivos negros, mas também poderiam receber algum apoio financeiro ou moral por parte do Estado. Seria algo como cotas internas, núcleos de assuntos afro-brasileiros ou a intensificação das garantias recém-aprovadas pelo TSE e referendadas pelo STF, por exemplo”, diz Vieira.

No ambiente empresarial, o racismo também é um grande problema. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ethos em 2020 aponta que, no Brasil, os negros ocupam apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% dos gerenciais. A professora e pesquisadora Cintia Araújo acredita que essa realidade existe por causa da falta de estímulo ao estudo nas famílias negras. “O teto de vidro é um termo que designa essa dificuldade de grupos de minorias entrarem nessas empresas, porque não existe uma regra ‘não entram mulheres, não entram negros nessas posições’”, declara.

De acordo com um estudo do Instituto Locomotiva, a diferença salarial entre brancos e negros com ensino superior completo é de 31%. “Eu creio que, pelo estereótipo, as pessoas negras não estão inseridas em alguns círculos que são interessantes, então você não cria as relações, e as vagas para emprego não circulam, eles não têm acesso a vagas de emprego”, diz Cintia. Apesar disso, ela afirma que as discussões sobre diversidade ajudaram na inclusão de pessoas negras em processos de trainee.

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