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São Paulo – Paris, com escala em Londres

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As peculiaridades das metrópolis sob a ótica do filósofo Oyakawa

Eduardo Oyakawa é professor de filosofia, sociologia da religião e lógica da argumentação da ESPM, além de ministrar cursos na Casa do Saber.  Por ter morado muito tempo em Paris, Londres e São Paulo, sua cidade natal, Oyakawa possui visão privilegiada em relação aos costumes de cada uma dessas cidades. A seguir, confira os melhores momentos de nossa conversa.

Lígia Cristaldi: O que o levou a conhecer Paris, Londres e São Paulo?

Eduardo Oyakawa: Nasci em São Paulo há 47 anos. É minha cidade natal. Tanto para a França como para a Inglaterra eu fui estudar, mas morei em Londres bons anos da minha vida. Tenho, portanto, uma visão mais profunda de Londres do que de Paris. Tinha 29 anos quando cheguei a Londres para estudar e trabalhar como pizzaiolo e jornalista, escrevendo sobre rock n´roll para um jornal com conteúdo de música. Morava sozinho, como um típico londrino jovem, no mesmo bairro em que Freud morou no final de sua vida, o Maresfield Garden. Em Paris, estudei filosofia política na Universidade de Estrasburgo, mas fiquei lá pouco tempo, um ano e oito meses. Paris é uma cidade difícil para se adaptar, se ambientar e eu era bolsista. Gosto bastante da França, o país ainda tem um verniz cultural peculiar que não encontramos em outro lugar.

LC: Qual a principal diferença entre as três cidades?

EO: Londres e Paris são cidades muito ricas, mas as três são cosmopolitas. Junto a Berlim e Nova York, talvez as mais cosmopolitas do mundo. Londres é uma cidade onde é possível conviver com estrangeiros sem ter contato com ingleses. É comum que jovens saiam, por exemplo, da Noruega, e trabalhem em Londres para aprender inglês, por incrível que pareça. Ganha-se muito bem, consegue-se morar sozinho e é comum começar a namorar, se apaixonar e passar a morar com essa pessoa. O inglês típico não volta para casa. Ele sai aos 19 anos e volta apenas para visitar no Natal. A idéia de família não faz muito sentido em Londres. São Paulo, para fazer um contraponto, é uma cidade de enorme diversidade étnica, cultural e econômica, mas a mistura é mais extraordinária que lá. Só aqui, que eu conheça, é possível um encontro entre uma judia e um chinês, só aqui eles se encontram e se casam. Onde mais? Em Jerusalém? Um chinês e uma judia? Duvido! Aqui um indu e alguém devoto de Xangô se encontram se apaixonam e casam. Acho que a nossa cara, a nossa cor e a nossa diversidade étnica é resultado dessa metamorfose cultural e religiosa. Em Londres, encontramos bem menos que isso.  Em Paris, menos ainda. Paris é uma cidade extremamente elegante, a mais linda que eu conheço é uma cidade que convida a grandes caminhadas. As pessoas são muito intelectualizadas, falar de Michel Foucault [1926-1984], em um bistrô, é comum. Mas é uma cidade que denuncia as mazelas modernas, o individualismo elevado a extremos. O francês de Paris é clássico e tem certo esnobismo no jeito de ser. Eles vivem o que os sociólogos chamam de pós-modernidade radical e separaram, definitivamente, sexo de amor. Uma coisa são os prazeres do corpo, outra coisa é a ilusão romântica burguesa que naufraga, segundo as mulheres parisienses. Eu não sei o cálculo exato, mas, acredito que, em Londres, 40% dos homens sejam homossexuais; o uso de drogas é uma loucura. Ambas as cidades, Paris e Londres, são pouco e, cada vez menos, religiosas. Se você é religioso, é porque você não conhece física, matemática suficientemente para acreditar no que eles consideram uma bobagem.

LC: E em São Paulo, não é assim?

EO: São Paulo não. São Paulo, mesmo que você vá ao grande financista que ganha milhões na bolsa de valores, ele confessa que as coisas dão certo porque ele tem uma ferradura atrás da porta.

LC: Como é o ritmo de trabalho nessas cidades?

EO: É o coração do capitalismo. Em São Paulo, trabalha-se 12 horas. Em Londres e Paris, eles são mais disciplinados, então não existem tantas horas extras, mas a intensidade do trabalho é uma loucura. Em qualquer uma dessas três cidades as pessoas ficam mais no trabalho que com suas famílias.

LC: Como é o lazer nesses lugares?

EO: O parisiense adora finais de semana ensolarados para andar de bicicleta nas ruas, fazer compras e piquenique. O final de semana é muito peculiar Parece haver uma melancolia nas ruas de Paris, mas todos eles adoram comer, da mesma forma que nós, paulistanos. A ideia de família ainda é muito complicada. No que restou dela, porque há aqui um afeto não encontrado em outros lugares, as pessoas procuram estar com parceiros, namorados. As três cidades são muito parecidas em relação a isso por que compõem a essência do mundo moderno capitalista.

LC: Você considera que essa separação entre trabalho e lazer é evidente nas três cidades?

EO: Vou dar um exemplo: na Alemanha, falar de trabalho, na hora do almoço, é considerado péssimo; da mesma forma que falar de futebol na hora do trabalho. Aqui não. Confundimos mais as coisas, somos mais informais do que os londrinos. A produtividade capitalista cobra de nós um ser “maquínico”. Temos que ser produtivos e antenados com as informações que chegam o tempo inteiro, e isso não é fácil.

LC: Qual a principal semelhança entre Paris, Londres e São Paulo?

EO: A característica capitalista. A ideia de que o mundo só vale a pena porque existem alguns prazeres, principalmente os do corpo, ou seja, é importante que durmamos bem, comamos bem, viajemos muito, que vistamos boas roupas. Isso caracteriza o que chamamos, em filosofia, de hedonismo e caracteriza as três cidades. Há também pontuais diferenças entre as três cidades. A ideia de família, em São Paulo, ainda é muito forte. Se você vai ao shopping no final de semana, encontra famílias, mas isso não ocorre em Londres ou Paris. Lá, as famílias são atômicas: é o pai, a mãe e um filho. Aqui a gente ainda tem um “bandinho”.  Além disso, a instituição “churrasco” nos pertence, não a eles. Porque existe uma alegria nossa que não é deles. Mas penso que existe um mal estar presente nas três cidades que é muito profundo. A angústia de pensar que se vive uma vida sem sentido, cheia de compromissos e contas a pagar. Todos são convidados a consumir a crédito. Conseguimos o carro novo, a casa nova ou a viagem que nunca fizemos, depois continuamos profundamente angustiados. A partir daí, depositamos tudo nas relações amorosas, todas as nossas fichas. Acreditamos que é aquela pessoa que nos entende, que nos consola e nos acompanha, mas essas relações são cada vez mais efêmeras, incompletas e apelativas. Estamos bem frustrados, basta ver o número de suicídios na cidade de São Paulo, por exemplo.

LC: Qual o fator determinante na formação da conduta dos indivíduos de cada uma dessas cidades?

EO: Eu acho que no Brasil somos filhos da terra, descendentes de imigrantes que eram analfabetos. Não nos cabe muita prepotência, uma vez que somos todos filhos de pessoas descalças que há 150 anos, quando chegaram aqui, mal falavam português. Isso é nossa cara. Londres tem a tradição, a aristocracia, o rigor educacional muito profundo. Já Paris é a cidade da grande revolução de Maio de 68 e da grande Revolução Francesa. As ideias do democratismo, das liberdades civis e políticas são muito fortes. São ambientes diferentes nesse sentido. Em Londres, os jovens ainda se rebelam contra o “caretismo”. Os costumes ingleses e a hipocrisia que isso esconde tendem, cada vez mais, a serem rejeitados pelos jovens. É natural que você tenha, por exemplo, como ritmo predominante na cidade, o rock n´roll, que ainda significa a rebeldia extraordinária. Eu vivi muito isso.

LC: Qual das três capitais você considera a mais tolerante?

EO: Na minha opinião, as três são muito tolerantes. Londres é uma cidade que tem muitos homossexuais, mas o fato de você ser latino americano não é fácil. O fato de você ser árabe, em Paris, também não. É fácil ser homossexual em Londres e negro em Paris, a cidade que mais acolhe negros na Europa. Mas, sinceramente, acho que em São Paulo somos mais tolerantes do que nas outras duas cidades. As diferenças econômicas são gritantes, mas temos amigos de todas as descendências.

LC: Se você pudesse escolher uma das três cidades para morar, qual delas seria?

EO: Escolheria São Paulo porque a língua portuguesa é minha pátria, sabe Fernando Pessoa? Além disso, aqui é diferente. O nosso afeto muda tudo, é coisa que a gente não encontra em outro lugar de jeito nenhum.

Lígia Cristaldi (1ºsemestre)

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