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Número crescente de ISTs levanta dúvida sobre educação sexual no país

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Giulia Castro (3º semestre)

Uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), com adolescentes de 12 a 18 anos, indica que 15% deste grupo já teve relações sexuais. Neste universo de 15%, quase metade (44%) disse não ter usado preservativo na primeira relação e pouco mais de um terço (35%) afirmou que não usa ou usa raramente. O mesmo estudo revelou que 38,57% dos garotos não tinham certeza da maneira correta de colocar preservativo.

Tais dados demonstram uma característica alarmante da sociedade brasileira: sexo ainda é tratado como tabu e, muitas vezes, os jovens acreditam que não precisam se preocupar com a prevenção em relações sexuais. Para além do risco de gravidez, um tema muito menos explorado é o perigo da transmissão de Infecções Sexualmente Transmissíveis. Mencionado superficialmente nas aulas de ciências e evitado dentro das casas, o silenciamento do assunto tem como consequência o aumento de casos no país.

Em 2018, por exemplo, 58 mil casos de sífilis foram notificados, levando a uma taxa de 75,8 casos para cada 100 mil habitantes. Além disso, Dados do Unaids, indicam que o Brasil apresentou um aumento de 21% no número de novos casos de infecções por HIV de 2010 a 2018. Esse aumento entra em contraste com o resto do mundo, pois, no mesmo período, os casos de HIV diminuíram 16% em escala global.

A estudante Juliana Lemes, de 19 anos, descobriu ter uma IST em outubro de 2016. Mas, em maio de 2021, ela decidiu contar sua história nas redes sociais, mais especificamente no TikTok. O vídeo viralizou e, até o momento dessa matéria, a primeira parte conta com mais de 1,3 milhão de visualizações.

“Eu estudava em um colégio particular e já tinha tido aula sobre DST, mas a gente pensa que aquilo nunca vai acontecer com a gente”, conta ela, que por tomar anticoncepcional na época não se preocupou com a possibilidade de gravidez. “No dia, ele me disse “pode confiar em mim, não precisa usar camisinha, vai acabar machucando você” e eu, ingênua, acreditei. Jamais passou pela minha cabeça que eu poderia pegar uma DST ali na relação”, lembra.

Após a relação, Juliana seguiu sua vida normalmente e, apenas após alguns dias, percebeu um corrimento diferente. Entretanto, por estar em período menstrual, não se preocupou. Até que mais sinais começaram a aparecer.

“Teve um dia que eu cheguei de uma festa, e eu estava com muita cólica, tomei vários tipos de remédio e nenhum tirava a dor. Fiz compressa com pano quente, e nada. O dia seguinte era um domingo e eu não estava melhor, não consegui comer, estava péssima. Na segunda, acordei três vezes pior, tive que ir pro hospital, cheguei lá, eles só me deram uma injeção pra cólica e eu voltei pra casa”, descreve Juliana.

No dia seguinte, mesmo com a injeção, a dor não havia passado e ela conta nem conseguir mais se levantar da cama. Mais uma vez foi para o hospital, onde precisou fazer exames e ser internada. Mesmo com medicamentos sendo injetados na veia, a dor permanecia. “Quando saiu o resultado do meu transvaginal, eu estava com 1,5 litro de pus solto na minha região pélvica, e tive que ir urgente para cirurgia”.

A cirurgia correu bem e, embora não tenha sido identificada especificamente qual, o que Juliana teve foi uma DIP (Doença Inflamatória Pélvica). Além disso, descobriu ter contraído sífilis. O tratamento das doenças exigiu que a jovem passasse um mês no hospital.

 

O estigma sobre as ISTs: por que é importante falar sobre o assunto?

Hoje em dia, Juliana está integralmente curada e não tem possibilidade de transmitir nenhuma doença. O que ficou foi uma cicatriz e as marcas de um período muito difícil de sua vida. “A forma que os profissionais me tratavam, como eu só tinha 16 anos, fazia eu me sentir muito mal. O impacto veio nos dias demorados, dentro daquele quarto branco. Eu tinha muita vergonha de falar que tive uma IST, então eu dizia que eu estava com um cisto que tinha estourado, inventei a maior história na época pra todo mundo. Eu me sentia errada o tempo todo, era esse meu sentimento.”.

Ela conta que decidiu postar sua história nas redes sociais por saber que muita gente não tem noção de que o uso de preservativo não é apenas sobre gravidez, mas também sobre ISTs. Em seu post, diversos comentários questionando o que são ISTs e o que causam, comprovam a intenção da estudante. “A gente precisa falar muito mais sobre isso, é algo muito sério e as pessoas precisam se conscientizar”.

Por fim, Juliana reforça a importância da educação sexual para evitar situações como a que ela passou.

“É importantíssima, algo que devia ser passado desde criança até adolescente. Na época, eu tinha tido uma aula sobre isso, mas foi bem superficial, não era algo que eu ouvia em casa. Acho que as pessoas ouvem falar em IST e pensam só em AIDS, como se fosse algo muito difícil de ter hoje. Mas não, isso acontece muito e existem muitas outras doenças. Falar sobre educação sexual é muito importante mesmo. Hoje eu tenho plena consciência disso”.

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