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Figurinhas da Copa viram obsessão entre torcedores brasileiros

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De quatro em quatro anos, uma mania se espalha por escolas, faculdades, escritórios, bares e até mesmo pelas ruas do Brasil. Poucos meses antes do início da Copa do Mundo, as bancas de jornal do País são tomadas por pessoas de todas as idades. A febre dos álbuns de figurinhas do Mundial, tradição há mais de meio século, movimenta uma indústria que fatura cada vez mais alto.
Segundo a Panini, editora que detém os direitos exclusivos sobre os álbuns da Copa e os publica desde 1970, as estimativas são de um aumento de 300% nas vendas de cromos. É esperado que 8 milhões de pessoas colecionem neste ano. Contendo as 32 seleções participantes do torneio, com 19 figurinhas necessárias para completar cada uma delas, o álbum possui ao todo 649 gravuras. Imagens dos estádios, patrocinadores e símbolos da Copa completam a publicação.
Além do modelo convencional e de uma inovação (a versão em capa dura), ainda é possível colecionar o álbum virtual, no site da Fifa. Na Copa da África do Sul, em 2010, foi registrado um total de 1,4 milhão de usuários colecionando os cromos virtualmente, segundo a entidade. Em 2014, até a conclusão desta reportagem, a brincadeira já havia alcançado 2 milhões de pessoas. A versão virtual possui uma área para troca de figurinhas, e aqueles que conseguirem completar o álbum antes de 31 de agosto farão parte de um sorteio de prêmios. Pela primeira vez, o álbum virtual está disponível em aplicativos para as plataformas iOS e Android.

Foto Paulo Galvão Fernando Camargo tem coleção com mais de 2,5 mil livros ilustrados | Foto: Paulo Galvão

Foto Paulo Galvão
Fernando Camargo tem coleção com mais de 2,5 mil livros ilustrados | Foto: Paulo Galvão

Para crianças e adultos
Muitas pessoas deixaram a brincadeira de lado ainda na infância para a retomarem como hobby já na vida adulta. É o caso do publicitário Fernando Camargo, de 50 anos, que hoje é um dos maiores colecionadores do Brasil. “Desde moleque eu gostava. Em 1989, voltei a colecionar álbuns e figurinhas, os do Campeonato Brasileiro. Em 1990 saiu o da Copa do Mundo e eu comecei a fazer. A partir disso eu não parei mais”, diz Fernando, que contabiliza em seu acervo 2,5 mil livros ilustrados, aproximadamente. “No geral, devo ter por volta de uns 400 a 500 com temas de futebol”, garante ele, enquanto exibe exemplares raros dos Mundiais das décadas de 1950 e 1960.

O jornalista Thiago Fagnani, de 29 anos, cresceu vendo uma figura adulta que ainda conservava a paixão pelos cromos. “Colecionava desde criança junto com meu pai. Ele comprava para ele e para mim. Mas era mais dele do que meu”, brinca Thiago, que diz ter retomado a prática no Mundial de 2010. “É um sentimento que surge com a Copa do Mundo. Como se trata do maior evento de futebol do mundo, aquele desejo te desperta, te contagia por meses”, completa.

Thiago Fagnani coleciona álbuns desde criança | Foto: Paulo Galvão

Thiago Fagnani coleciona álbuns desde criança | Foto: Paulo Galvão

 

Há quem afirme que a lembrança dos tempos de criança é a verdadeira razão de colecionar figurinhas. “A nostalgia é muito forte. Acho que, como é para mim, o álbum representa um escape do mundo real, que nos leva de volta à infância”, diz Rodrigo Saviano, estudante de 19 anos, cujo primeiro livro ilustrado foi o da Copa de 2002.

Para o psicanalista Paulo Cunha, o ato de colecionar é algo pertencente à cultura do brasileiro. “Quantos álbuns, carrinhos e jogos colecionamos quando pequenos? Nada mais natural que, próximo a um evento que mobiliza tanta gente, como é a Copa, um álbum sobre ela se torne uma forma de resgatar um pouco da infância”, afirma Cunha. “Representa o resgate de experiências positivas, especialmente para adultos. Em meio a um cotidiano atribulado, é um momento de brincar. Além disso, é uma boa forma de socializar”, conclui.

De fato, a socialização é fundamental para quem desejar completar o álbum. Diversas pessoas reúnem-se para trocar figurinhas no período que antecede o torneio organizado pela Fifa. “Principalmente agora, você vai a praças e vê um monte de gente fazendo trocas. Participei de muitos grupos”, diz o publicitário Fernando Camargo. A maior aliada das trocas em 2014, porém, tem sido a tecnologia. Diversas páginas em redes sociais, como o Facebook, resolvem em instantes o problema de figurinhas faltantes no álbum de um colecionador.

Página que reúne colecionadores de cromos em rede social | Foto: Reprodução

Página que reúne colecionadores de cromos em rede social | Foto: Reprodução

Basta uma publicação notificando os outros dos cromos necessários e rapidamente surge uma conversa entre diferentes partes, que acertam um ponto de encontro para a transação acontecer. Fábio Fernandes, estudante de publicidade de 21 anos, afirma que não participa de nenhum encontro de trocas que vêm ocorrendo em locais públicos pois consegue fazê-las em sua faculdade, a Cásper Líbero, na região central.

“Na faculdade, temos até um grupo no Facebook onde postamos de quais figurinhas precisamos e assim nos encontramos em algum lugar dentro da Cásper para trocar”, afirma o estudante, que coloca a segurança como prioridade. “É muito mais prático do que ter que se locomover até um lugar, muitas vezes mais longe, para trocar com gente desconhecida”, conclui. O estudante Rodrigo Saviano, que também utiliza a internet como ferramenta, divide a mesma opinião de Fábio e não costuma frequentar os encontros. “Completei em uma semana e meia, somente trocando na faculdade e no meu trabalho”, diz.

Fábio Fernandes exibe sua coleção de álbuns da Copa Comércio irregular | Foto: Rafael Esteves

Fábio Fernandes exibe sua coleção de álbuns da Copa
Comércio irregular | Foto: Rafael Esteves

 

Novas maneiras de conseguir completar o álbum desta Copa surgiram, algumas mais fáceis, menos divertidas e até mesmo suspeitas. Em uma banca de jornal no bairro da Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo, o dono, Paulo, que preferiu omitir seu sobrenome, criou um método para o público adquirir somente figurinhas diferentes umas das outras. Por uma quantia de R$ 200, o comprador consegue levar todos os 649 cromos do livro ilustrado fora das embalagens, com a garantia de que todos estão inclusos.

“Por incrível que pareça, muita gente vem comprar. Não pergunto o motivo, não é da minha conta, mas a demanda é alta. Fazem isso para guardar e colecionar como raridade mais para a frente”, diz o jornaleiro. É a primeira vez que Paulo faz esse tipo de comércio e afirma que o lucro está sendo bem alto. Contudo, não informa concretamente como consegue comercializar uma grande quantidade de cromos numerados, sem repeti-los, sendo que todos saem de fábrica embalados. “Não vou falar como consigo, mas podemos dizer que gosto de abrir pacotinhos e tenho amigos na hora da entrega das figurinhas”, afirma.

Paulo ainda conta que tem realizado vendas de figurinhas avulsas por um certo valor, apesar de não gostar quando um cliente exige um determinado cromo. “As pessoas acham que, só porque tenho banca, podem procurar qualquer uma comigo. Não sou a fábrica da Panini, né?”, reclama o comerciante.

Editora se rende à tecnologia
Como novidade neste ano, a Panini lançou junto com os álbuns impressos e o virtual o Panini Collectors App, que pode ser baixado gratuitamente em smartphones e tablets. Com o aplicativo, os colecionadores possuem uma maior facilidade para verificar suas figurinhas faltantes.
Anteriormente, muitos precisavam escrever em papel os cromos que faltavam para levar às trocas, mas com a praticidade do aplicativo, é possível levar a versão digital de seu livro ilustrado no bolso. O aplicativo ainda fornece a porcentagem de quantas faltam para completar a coleção e permite aos clientes utilizar a câmera do celular como um leitor óptico para registrar as gravuras adquiridas. O app ainda permite trocar informações de um colecionador para outro pelas redes sociais.

Paixão

O ato de colecionar figurinhas vai muito além do amor ao esporte bretão. Fábio Fernandes conta que seu vício não é simplesmente justificado pela paixão à bola. “Não é porque gosto de futebol, mas sim pelo desejo de abrir os pacotes, separar as figurinhas e ver o álbum sendo completado”, afirma. Para Rodrigo Saviano, a tradição também evoca seu lado mais sentimental. “A sensação de abrir vários pacotinhos e encontrar as figurinhas de que você precisa é simplesmente impagável”, conclui.

Thiago Fagnani vai além. “Fazer o álbum é um ato que cresce com todo mundo. Aquela coisa de buscar a figurinha que você não consegue, o cheiro do pacote quando você abre, o cuidado para virar a página. Você vai ficando mais velho e mais cuidadoso”, brinca o jornalista, que já completou dois álbuns desta Copa e agora volta suas atenções a outro que estava escondido em seu armário: o da Copa de 1990. “A prática vai te contagiando. É uma obsessão, no sentido bom da palavra”, resume.

A coleção do publicitário Fernando Camargo conta com álbuns desde a Copa de 1950 até hoje | Foto: Paulo Galvão

A coleção do publicitário Fernando Camargo conta com álbuns desde a Copa de 1950 até hoje | Foto: Paulo Galvão

 

Carolina Pimentel, Paulo Galvão e Rafael Esteves (3° semestre)

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