Como o aquecimento global ameaça o futuro dos Jogos Olímpicos de Inverno
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O atleta Lucas Braathen na Copa do Mundo de Esqui Alpino em Soldeu, Grandvalira, em 2023. Crédito: Krzysztof Golik/Wikimedia Commons
Ana Carolina Palermo e Marina Morais (5° semestre)
Temperaturas abaixo de zero são essenciais para quase todos os esportes e atividades recreativas de inverno, que movimentam economias e culturas ao redor do mundo. Em 2023, a indústria global de esportes de inverno foi avaliada em aproximadamente 12,5 bilhões de dólares. No entanto, organizações como a International Ski and Snowboard Federation (FIS) e a World Meteorological Organization alertam que o setor enfrenta um futuro cada vez mais instável devido ao aumento das temperaturas e a redução da neve e do gelo naturais.
Enquanto um levantamento de dados do Climate Central e de estudo publicado pela revista Current Issues Tourism mostra que o número de cidades consideradas climaticamente confiáveis para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno pode cair pela metade até o fim do século, dados do Climate Central mostram que o aumento das temperaturas em regiões montanhosas e a redução da duração dos invernos observados nas últimas décadas já afeta cidades europeias como Albertville, Grenoble, Innsbruck e Turim.
Quando o inverno era garantido
Durante décadas, sediar os Jogos Olímpicos significava contar com uma condição natural considerada praticamente garantida: neve abundante e temperaturas negativas durante grande parte da estação. Dos Alpes europeus às montanhas da América do Norte, cidades construíram economias inteiras em torno do turismo de inverno e dos esportes na neve.
O Hemisfério Norte registrava uma média de 76 dias de inverno nos anos 1950, e as 19 cidades que sediaram os Jogos Olímpicos de Inverno entre 1924 e 2014 contavam com neve natural suficiente para garantir as competições sem necessidade de grandes intervenções artificiais. Nas primeiras edições dos Jogos, realizadas nas décadas de 1920 e 1950, as provas dependiam exclusivamente da neve natural.
Mas as mudanças climáticas têm alterado rapidamente regiões tradicionalmente associadas à neve. Segundo dados do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), áreas montanhosas aquecem cerca de 0,3 0,3°C por década, acima da média global, estimada em aproximadamente 0,2°C por década desde o século XX.
O aumento das temperaturas afeta diretamente a duração do inverno. Nas últimas décadas, o Hemisfério Norte passou de uma média de 76 dias de inverno nos anos 1950 para 73 dias nos anos 2000. Segundo projeções climáticas, a estação pode chegar a apenas 53 dias até 2050.
As projeções sobre a redução da duração dos invernos também mostram como o aquecimento global já alterou as temperaturas nas cidades que sediaram os Jogos Olímpicos de Inverno. A base “Lost Winter: Above-freezing days added by climate change”, produzida a partir do Climate Shift Index, aponta a média anual de dias acima de 0°C adicionados aos meses de inverno devido às mudanças climáticas.
Em algumas cidades, esse aumento ultrapassa 20 dias acima de 0°C durante os meses de inverno. Além do encurtamento do inverno, pesquisas apontam uma redução progressiva da cobertura de neve, dificultando a formação natural necessária para os esportes de inverno.
A neve está desaparecendo
Um estudo publicado em 2024 no International Journal of Climatology analisou registros históricos de neve em 46 localidades dos Alpes entre 1920 e 2020. A pesquisa identificou uma redução contínua nas nevadas, especialmente nas áreas do sul da cadeia montanhosa e em regiões de menor altitude. Segundo o levantamento, os Alpes do sudoeste perderam, em média, 4,9% do volume de neve por década. Nas regiões sudeste, a redução foi de 3,8% por década.
Segundo o estudo, uma cidade é considerada climaticamente viável para sediar os Jogos quando consegue manter mais de 30 centímetros de neve e temperaturas mínimas iguais ou inferiores a 0°C durante o período das competições.
Competições canceladas e o risco esportivo
Durante as temporadas de 2022 e 2023, sete das oito primeiras etapas da Copa do Mundo de Esqui e Snowboard foram canceladas devido às altas temperaturas e à falta de neve.
Além dos cancelamentos, atletas e organizações esportivas passaram a demonstrar preocupação com as condições de competição. Em 2023, mais de 420 atletas assinaram uma carta aberta direcionada à Federação Internacional de Ski (FIS), cobrando medidas concretas de combate às mudanças climáticas e alertando para os riscos de competir em condições inadequadas.
“Os esportes no gelo dependem de precisão, e a temperatura da pista interfere diretamente nisso. Cada modalidade exige um tipo diferente de gelo, porque as lâminas têm necessidades específicas de dureza. Quando o gelo não está na temperatura ideal, o atleta perde velocidade, estabilidade e desempenho nos saltos. Aqui no Brasil, muitas vezes a gente precisa simplesmente se adaptar às condições que existem”, contou Julia Kiawatkowski, atleta de patinação no gelo.
Segundo especialistas da revista Current Issues Tourism, temperaturas mais altas deixam a neve mais úmida e instável, comprometendo tanto a segurança dos atletas quanto a previsibilidade das provas.
As consequências também já são econômicas. Um levantamento citado nos estudos analisados estima que as mudanças climáticas causaram um prejuízo de aproximadamente 5 bilhões de dólares para a indústria do esqui nos Estados Unidos entre 2000 e 2019.
A adaptação artificial do inverno
Nos Jogos Olímpicos de Lake Placid, em 1980, neve artificial foi utilizada pela primeira vez em pistas olímpicas após uma forte seca de neve nos Estados Unidos. Já em Calgary, em 1988, todas as pistas alpinas e nórdicas operaram com neve produzida artificialmente. Com a redução da neve natural, cidades-sede passaram a depender cada vez mais de tecnologias para manter as competições.
Nas edições mais recentes, como Milão-Cortina, equipamentos especiais para produção de gelo e neve tornaram-se indispensáveis. Segundo o professor de jornalismo e mudanças climáticas Edson Capoano, “As Olímpiadas de Inverno dependem do gelo como matéria-prima para gerar o esporte. Então, além de pensar na infraestrutura e logística, agora será necessário pensar na produção de gelo para regiões que, naturalmente, já tinham em abundância.” Apesar das adaptações tecnológicas, a partir disso, percebe-se quase um paradoxo, a dependência crescente de neve artificial manter um evento historicamente ligado às condições naturais do inverno.
Impactos econômicos e sociais
Economias locais dependentes do turismo de inverno também enfrentam consequências diretas. Cidades que construíram hotéis, restaurantes, estações de esqui e empregos sazonais em torno da neve convivem hoje com temporadas cada vez mais imprevisíveis. Segundo Edson Capoano, “o impacto da falta de gelo ou neve é total para cidades que seriam paraísos do turismo invernal”.
A irregularidade climática também gera insegurança econômica para trabalhadores e empresas que dependem da temporada de inverno. “Já não se sabe se o ciclo tradicional da neve vai ocorrer e em qual quantidade”, afirma o professor. Existe ainda uma contradição apontada por especialistas: ao mesmo tempo em que tentam se adaptar às mudanças climáticas, os próprios Jogos Olímpicos contribuem para o aumento das emissões de carbono. “Todos os megaeventos geram uma pegada de carbono gigantesca”, explicou Capoano. “Existe uma contradição entre gerar megaeventos que produzem muita emissão de gases e defender a sustentabilidade.”
Metodologia
Os dados utilizados para a construção da primeira base vieram das publicações The Future of the Olympic Winter Games in an Era of Climate Change, de Scott et al. (2014).
A segunda base foi construída a partir de dados do Climate Central, especificamente do conjunto “Lost Winter: Above-freezing days added by climate change”, produzido a partir da base Climate Shift Index.
A primeira base reúne dados climáticos relacionados às 19 cidades que sediaram os Jogos Olímpicos de Inverno entre 1924 e 2014. Foram coletadas informações sobre temperaturas médias máximas durante os meses de inverno e projeções futuras de aquecimento baseadas nos cenários RCP 2.6 e RCP 8.5.
O cenário RCP 2.6 representa um futuro de baixa emissão de carbono, no qual políticas climáticas conseguem limitar o aquecimento global entre 1,5°C a 2°C até 2100. Já o RCP 8.5 representa um cenário de altas emissões e aquecimento superior a 4°C ou mais até o final do século.
A segunda base de dados foi construída a partir dos dados do relatório Lost Winter da Climate Central, com informações de invernos perdidos de 900 cidades ao redor do mundo, extraídos a partir da plataforma Climate Shift Index, também da Climate Central. Desse relatório, foram extraídos os dados por cidade: a média anual de dias acima de 0°C adicionados pelo aquecimento global nos últimos meses de inverno (dezembro/janeiro/fevereiro), na última década. Então, foi realizado um levantamento de todas as cidades que já sediaram Olímpiadas de Inverno: Calgary, Vancouver, Lake Placid, Salt Lake City, Innsbruck, Sochi, Nagano, Sapporo, Oslo, etc.
Para cada cidade olímpica, foi buscado o valor correspondente no dataset do Climate Central, o número que aparece no mapa é a média anual de dias “perdidos” para aquela cidade/região. A legenda vai de 0 a 23 dias, quanto mais escuro o verde, mais dias de inverno aquela cidade perdeu por ano por causa do aquecimento. As cidades europeias (Albertville, Grenoble, Innsbruck, Turin) aparecem bem mais escuras. Portanto, percebe-se a Europa como a região mais afetada.

