Trabalhadores noturnos podem sofrer transtornos físicos e mentais

A pediatra Ana Escobar em seu consultório | Foto: Maria Luzia Feitosa

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BEATRIZ BARROS | DANIEL RYBAK | ISABELLA CHIAMULERA
»»»Enquanto muitos dormem, outros têm que se manter acordados para trabalhar. De acordo com o Ministério do Trabalho, os empregados noturnos urbanos atuam das 22h até as 5h do dia seguinte. Apesar de pagar mais (o adicional noturno é de 20%), a jornada noite adentro pode causar danos à saúde de quem a exerce, e por isso tem que ser acompanhada por alguns cuidados.
Uma rotina de pelo menos oito horas bem dormidas é o ideal para qualquer pessoa. Mesmo aqueles que trocam o dia pela noite devem reservar essas horas para descanso. O sono diurno não substitui o noturno, porém manter essa disciplina pode gerar um melhor desempenho nas tarefas exercidas, além de uma saúde mais resistente.
Segundo a médica formada pela Universidade de São Paulo Ana Escobar, o trabalhador pode sofrer mudanças fisiológicas por causa dos distúrbios do sono. Ana também é médica pediatra do Hospital Universitário, onde dá aulas para o curso de medicina, e é consultora do programa Bem-Estar, da TV Globo. “O organismo da gente é feito para funcionar durante o dia, inclusive você libera uma série de substâncias como hormônios que fazem com que você fique aceso durante o dia. Depois, à noite, alguns desses hormônios começam a diminuir e você vai entrando num ciclo que você tem que repousar. Esse repouso é absolutamente fundamental pra depois você ter suas atividades do dia seguinte de novo”.
A falta de horas de sono pode refletir negativamente para o trabalhador, diz a doutora. Segundo ela, uma pessoa que dorme mal fica cansada e, consequentemente, perde a capacidade de retenção de aprendizados novos, de concentração no trabalho e ainda se sente desestimulada. Tudo isso influencia no seu interesse pela atividade e em sua produtividade. Existem medicamentos que podem amenizar os sintomas de uma noite mal dormida, entretanto não resolvem o problema em sua totalidade. “É que nem você ter um processo de febre e ficar tomando antitérmico, você vai resolver a febre, mas não a causa dela”, compara.

A pediatra Ana Escobar em seu consultório | Foto: Maria Luzia Feitosa

Adilson Moreno Santos, 38 anos, trabalha como porteiro há 15 anos e diz ter enfrentado alguns impasses quando passou a trabalhar no turno da noite. “No começo o cansaço constante que sentia era minha maior dificuldade. Não tinha mais motivação de fazer outra coisa quando chegava em casa. Só dormia”, comenta.
O porteiro apontou o transporte para ir ao trabalho como sua maior preocupação. “Não gosto de pegar o ônibus à noite para ir ao trabalho porque acho perigoso. Minha esposa também nunca fica tranquila até eu chegar. Sempre ligo quando chego, e, quando esqueço, ela me liga já preocupada”, ressalta.
Santos admite ter tentado combater a sonolência tomando energético para ficar acordado. Entretanto diz ter sido apenas uma fase, já que a bebida também o prejudicava. “Isso acabou com minha rotina. Eu não conseguia dormir direito depois do trabalho. Depois que aprendi a criar uma rotina, eu nunca mais tomei nada, nem para dormir nem para ficar acordado”.
Hoje Santos já se considera adaptado aos horários. Diz conseguir conciliar o trabalho, o descanso e alguns momentos de lazer com sua esposa e seus dois filhos de 11 e de 13 anos, mesmo sentindo falta de estar em casa à noite. Revela ainda um pequeno hobbie que tem para se distrair um pouco durante o trabalho: jogar palavras cruzadas.

Recomendacões
» As orientações se baseiam em um sono ininterruptas, em lugar calmo e escuro,  pois a  luz interfere na produção adequada de melatonina, hormônio essencial para o sono.
» Trabalhadores que começam a exercer função de noite têm que realizar uma adaptação  de seu relógio biológico, cuja duração varia de pessoa para pessoa.
» As horas de sono são essenciais para uma pessoa chegar ao estágio mais avançado de repouso. Isso ocorre quando se atinge o chamado sono REM (Rapid Eye Moviment), nome dado pelo fato dos olhos se moverem rapidamente durante esse processo, e assim descansar completamente. “Para uma noite de sono totalmente descansada, você deve entrar em sono REM cerca de cinco vezes seguidas, o  que acontece em um período de no mínimo oito horas, podendo variar de pessoa pra pessoa”, frisa.

Notívagos
» De acordo com a doutora, há pessoas que são predispostas ao trabalho noturno e é possível notar isso pela sonolência e dificuldade na prática de atividades cotidianas praticadas durante o dia. “Você pode mudar seu relógio biológico, mas isso requer algum esforço”, explica.
» Adilson Santos diz que sempre foi uma pessoa muito ativa de dia e que ao começar a trabalhar à noite percebeu a dificuldade para se adaptar com a mudança. “Quando comecei a trabalhar de noite, chegava em casa de manhã e dormia por 10 horas. Isso no começo, para estar bem disposto à noite. Depois dormia cerca de oito horas, mas bem dormidas, sem interrupção. Entrava no quarto, fechava as janelas e dormia como se fosse de noite. Hoje durmo as oito horas quando chego de manhã e nos dias que trabalho no horário normal vou dormir por volta das 22h”, conta.
» Para aqueles que costumam manter a rotina de uma boa noite de sono, é comprovado que dormir um pouco à tarde, depois do almoço, faz bem para relaxar e continuar o dia com mais disposição. Esse sono deve ser curto, de no máximo 40 minutos, e o importante é separar esse horário e ter um lugar preparado para poder relaxar nesse período. Porém, a pediatra frisou que esse cochilo à tarde não substitui as horas de descanso.

Saúde mental
» Não é apenas por dificuldades e mudanças físicas que o trabalhador noturno passa, ele  também pode ser afetado psicologicamente. Segundo o médico psiquiatra Roberto Vilardo,  cada pessoa reage de maneira diferente à privação de sono, trata-se de resposta totalmente individual. “Cada caso é um caso, alguns demandam tratamento psicológico, outros demandam tratamento de medicamento, e outros de ambos”, diz Vilardo.
» O médico afirma também que trabalhar em turnos noturnos pode afetar a relação com grupos dos quais o trabalhador faça parte, mas o maior prejuízo está na convivência familiar.
» Com a possível perda dos vínculos sociais e familiares são criados conjuntos de empregados da mesma área que se afastam dos outros. “Com a perda dos vínculos, há a formação de verdadeiros guetos, onde profissionais da mesma área passam a conviver, formando grupos que se isolam e naturalmente se discriminam, prejudicando a necessária miscigenação entre trabalhadores de atividades diversas e o enriquecimento natural que advém dessa relação”, conta o psiquiatra.