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A tripla jornada feminina durante a pandemia de Covid-19

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Ana Vitória Leal e Patrícia Martins – (1º semestre)

De acordo com dados do estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, mulheres trabalham 7 horas e meia a mais que homens em relação entre emprego, afazeres domésticos e cuidados familiares. Fato esse que está diretamente ligado à condição de que além do serviço remunerado, há também a realização de tarefas domésticas. O estudo, divulgado pelo Ipea, indicou que mais de 90% das mulheres declaram realizar atividades referentes à casa, enquanto dos homens apenas 50%. Paralelamente a esse cenário, os altos índices de transmissão do novo Coronavírus implicaram em mudanças – principalmente a partir do mês de março – no cotidiano da população brasileira. Aqueles que não puderam flexibilizar os compromissos de trabalho, aderiram às máscaras e ao álcool em gel como uma forma de remediação, seguindo recomendações da OMS. Entretanto, a maior modificação ocorreu na substituição da cooperação presencial por “home office”, de modo que o isolamento social fosse uma realidade alcançável. Em tempos de menor instabilidade na área da saúde, uma pesquisa – divulgada durante o evento Summit Mobilidade Urbana 2019, em São Paulo – estimou que o tempo individual gasto para mobilidade, nas atividades diárias principais, seria de 1 hora e 20 minutos. Sem a necessidade de locomoção, o previsível é que esse período fosse realocado de acordo com as preferências de cada indivíduo. Entretanto, não é exatamente essa a realidade para muitos. Aliás, para muitas. “Momentos como esse são especialmente críticos para mulheres. Muitas podem não fazer parte do grupo de risco, mas sempre serão parte do grupo de cuidados. É a pergunta: quem cuida de quem cuida?” diz a doutora em antropologia pela USP, Denise Pimenta, em entrevista para a Tab Uol. Nesse sentido, é evidente que a falta de divisão entre o espaço formal e o doméstico e familiar faz com que as mulheres ocupem, em período integral, a função de prestadora de serviços, responsável por manter a organização da casa, além de mãe, irmã, esposa, filha, diversos papéis simultaneamente. Em março deste ano, um levantamento feito pela Squid – plataforma de marketing com digital influencers – evidenciou o aumento de 24% na taxa de engajamento nas mídias digitais (comparado ao mesmo mês, em 2019). Assim, o momento que tem parecido tedioso e de constante uso das redes sociais para alguns, é oposto à realidade de produtividade exigida para boa parte das mulheres. De certo modo, a crise na saúde e a reinvenção dos mecanismos sociais vieram, também, para evidenciar o que sempre esteve implícito: o sexo frágil nunca foi o feminino.

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