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Quem o Oscar premia? Um século de desigualdades em dados

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Atores não brancos correspondem a apenas 4,25% de todos os vencedores da história dos Oscar de Melhor Atriz e Melhor Ator. Foto: Jonathan Goncalves/Pexels

Bianca de Mattos, Sofia Florentino e Sophia Prates (5° semestre)

Em 15 de março de 2026, o ator Michael B. Jordan subiu ao palco da Academy of Motion Picture Arts and Sciences para receber o prêmio de Melhor Ator da cerimônia do Oscar. Em um gesto que rapidamente reverberou para além das paredes do Dolby Theatre, seu discurso de agradecimento transformou-se em um manifesto: Jordan listou, um a um, todos os atores negros que já haviam conquistado a estatueta principal na história da premiação.

O impacto do ato não se deu pela extensão da lista, mas justamente pelo oposto: a brevidade dos nomes citados evidenciou o quão restrito ainda é o topo da indústria cinematográfica global. O episódio trouxe novamente aos holofotes o movimento #OscarsSoWhite e acendeu um debate importante: quase um século após a sua primeira edição, em 1929, o Oscar reflete uma mudança real em direção à pluralidade ou caminha em passos lentos que mascaram desigualdades estruturais?  

94 atores e atrizes já conquistaram a tão sonhada estatueta do Oscar de Melhor Ator ou Melhor Atriz. Entre os homens, 88 eram brancos, cinco negros e apenas um latino: José Ferrer, premiado em 1951 por sua atuação em Cyrano de Bergerac. Entre as mulheres, o cenário é ainda mais desigual: 92 vencedoras brancas, uma negra – Halle Berry, em 2002, ano em que dois atores negros venceram as categorias principais, ao lado de Denzel Washington – e uma asiática: Michelle Yeoh, por Everything Everywhere All at Once.

Em números proporcionais, homens não brancos representam pouco mais de 5% dos vencedores da categoria. Entre as mulheres, o índice cai para apenas 2%. Somando as duas categorias, atores não brancos correspondem a apenas 4,25% de todos os vencedores da história do Oscar de atuação.

As indicações de melhor ator e atriz representam, em uma escala maior, essa realidade: entre as 484 mulheres indicadas, incluindo vencedoras, 27 não eram brancas. A primeira a cruzar essa barreira foi Merle Oberon, atriz indiana que, em 1936, desafiou o público e os críticos – inclusive um jornalista que, em 1930, a descreveu como “bizarra, desconcertante e diferente”.

29 anos a separaram da segunda indicada negra, Dorothy Dandridge, pelo papel titular em Carmen Jones. Dandridge iria enfrentar diversos desafios em sua carreira, principalmente porque diretores da época não ficavam confortáveis em escalar uma mulher negra para contracenar com pessoas brancas.

Cicely Tyson e Diana Ross foram indicadas em 1973, as próximas mulheres negras a atingirem a categoria depois de 20 anos. Em 1999, Fernanda Montenegro iniciou o seleto grupo de latinas indicadas ao Oscar. Montenegro, assim como Tyson e Ross, Oberon e Dandridge e outras 22 mulheres indicadas por seu trabalho como atrizes protagonistas, perderam para mulheres brancas. 

E as obras principais?

Desde os primórdios, com a vitória do longa-metragem Asas em 1929, a hegemonia das produções dos Estados Unidos é quase absoluta. São raras e celebradas exceções internacionais que conseguiram quebrar o bloqueio linguístico e cultural. No geral, o mercado norte-americano dita as regras do prestígio cinematográfico internacional. Entre os 98 vencedores da história, apenas um longa de língua não inglesa levou o principal prêmio da noite: Parasita, em 2019. Todos os demais, mesmo quando coproduzidos por países como Itália, França ou até China, eram falados em inglês e ligados direta ou indiretamente aos Estados Unidos e/ou ao Reino Unido.

Além da língua, esses filmes compartilham outra característica recorrente: a predominância de pessoas brancas em posições centrais, seja na direção, produção ou no elenco. 

“O Oscar é o fim da corda”

Investigar o Oscar por meio dos números – confrontando os vencedores, suas etnias e suas nacionalidades – vai além de uma simples contagem de estatuetas: trata-se de decodificar como a maior vitrine do cinema mundial distribui o poder de contar histórias e define quem tem o direito de ser imortalizado pelo voto da Academia. Michael B. Jordan os imortalizou de outra maneira. 

Em janeiro de 2015, a ativista April Reign mudou o panorama do Oscar ao publicar, no Twitter: “#OscarsSoWhite they asked to touch my hair” – traduzido livremente como “#OscarsSoWhite eles pediram para tocar no meu cabelo”. A frase chamou atenção para a ausência de atores e atrizes negros e latinos indicados nas categorias de atuação da premiação daquele ano.

A repercussão viralizou nas redes sociais e desencadeou um amplo debate sobre a falta de diversidade em Academy Awards. Celebridades como Will Smith e Jada Pinkett Smith também aderiram ao movimento, ampliando ainda mais a discussão. A mobilização pressionou a Academy of Motion Picture Arts and Sciences, que se comprometeu a adotar medidas para promover maior inclusão e diversidade entre seus membros e indicados.

Para Roberto Sadovski, crítico de cinema do UOL,  esse movimento tornou a premiação mais plural e permitiu que diferentes perspectivas culturais passassem a integrar o processo de reconhecimento cinematográfico: “Criando o seu corpo de votantes e ampliando para fora dos Estados Unidos, para fora de Hollywood, tentando fazer com que o corpo de votantes fosse mais internacional. E dessa forma, ele consegue ser também mais plural”. Sadovski destaca ainda que a entrada de “mais asiáticos, mais latinos, mais pessoas fora do padrão eurocêntrico” entre os mais de 10 mil membros da Academia contribuiu para mudanças graduais observadas nas premiações dos últimos anos.

Segundo ele, a exclusão histórica de pessoas negras, latinas e asiáticas das principais categorias do Oscar não está apenas na premiação em si, mas na estrutura da própria indústria cinematográfica. “O Oscar é o fim da corda” e funciona apenas como “a última consequência” de um problema muito mais profundo, ele comenta. A falta de diversidade entre os indicados reflete diretamente a ausência de incentivo para produções mais diversas desde a base do processo audiovisual. 

Além disso, ele destaca que, sem estímulo para ampliar a representatividade nas produções, “quando chega na hora de premiar, os filmes simplesmente não estão lá”. O crítico defende que mudanças efetivas precisam acontecer na origem da indústria, já que o Oscar “reflete o que a indústria tem produzido” e tende a responder positivamente quando há um movimento saudável de inclusão e diversidade no cinema.

Mirela Girardi, profissional com mais de 20 anos de experiência na indústria audiovisual e passagens pelo Grupo Globo, Conspiração Filmes e Porta dos Fundos, afirma que o cinema brasileiro vive “um momento de grande visibilidade internacional”. Para ela, o reconhecimento de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto é especialmente relevante por evidenciar “a pluralidade e a riqueza criativa do país e do nosso audiovisual”, já que são produções bastante distintas entre si. Esse destaque internacional impacta diretamente toda a cadeia produtiva do setor, ampliando a visibilidade do Brasil como polo criativo, atraindo investimentos estrangeiros e abrindo espaço para novas parcerias globais. 

Embora o cinema brasileiro esteja atualmente em um momento de maior reconhecimento internacional, essa ainda não é a realidade de muitos países que seguem enfrentando dificuldades para conquistar espaço e visibilidade no Oscar. A premiação, historicamente dominada pela indústria norte-americana e europeia, ainda apresenta barreiras para produções vindas de países periféricos ou com menor influência no mercado audiovisual do mundo.

Mesmo em um cenário de maior abertura para produções globais, o espaço destinado a narrativas que fogem dos modelos tradicionais da indústria hollywoodiana ainda é limitado. “A arte tem que ser global”, afirma Sadovski. Ainda assim, ele ressalta que essa mudança depende principalmente dos grandes estúdios e produtoras, responsáveis por definir quais histórias recebem investimento, circulação e legitimidade dentro das principais premiações internacionais.

Ao afirmar que “a inclusão é um espelho” e que “a gente precisa se enxergar na arte”, o colunista destaca como a representatividade fortalece a conexão entre público e narrativa, permitindo que diferentes países e comunidades se sintam contemplados no imaginário cinematográfico mundial. Essa percepção dialoga com a análise de Mirela Girardi sobre o impacto simbólico do reconhecimento internacional, especialmente ao defender que esse movimento cria “um ciclo virtuoso que incentiva novos talentos e projetos”. 

O crítico também relembra os impactos históricos do domínio cultural de Hollywood sobre o imaginário global. Para ele, durante décadas, espectadores de diferentes partes do mundo consumiram produções que não refletiam suas próprias experiências sociais e culturais. “Você via pessoas assistindo a filmes americanos, filmes de Hollywood, e tentando reproduzir em seus países, em suas comunidades, em sua vida, comportamentos que não tinham absolutamente nada a ver com a sua cara ou com a sua história”, afirma.

Nota Metodológica

Esta reportagem foi conduzida a partir da coleta e organização de dados históricos referentes às principais categorias do Oscar, com base em registros oficiais da Academy of Motion Picture Arts and Sciences. A investigação buscou identificar padrões de representatividade racial entre indicados e vencedores ao longo da história da premiação, cruzando informações quantitativas com acontecimentos relevantes da indústria cinematográfica e entrevistas com fontes especializadas.

Como as discussões sobre raça, etnia e representatividade são atravessadas por contextos históricos, sociais e culturais distintos, a análise considerou as particularidades de cada período, evitando interpretações descontextualizadas dos dados.

O processo de apuração priorizou a transparência metodológica e a contextualização dos resultados, articulando evidências estatísticas com relatos de especialistas e marcos históricos que ajudam a compreender as transformações observadas na premiação.

Todos os dados utilizados são públicos e podem ser consultados diretamente nos registros oficiais da Academia, permitindo a reprodução, atualização ou revisão da análise por outros pesquisadores e jornalistas a partir das mesmas fontes documentais.

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