Entre a promessa e o concreto: o que está em jogo na revitalização do centro de São Paulo
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Policial e homem em situação de rua no largo do São Bento. Foto: Nickolas Dias
Nickolas Dias, Francisco Lara, Renan Pagani, Arthur Galvão (3º semestre de Jornalismo)*
*Trabalho realizado na disciplina de Grande Reportagem, sob orientação do professor Antonio Rocha Filho
Em uma madrugada de sábado, no último dia 15 de novembro, no topo de um prédio no centro de São Paulo, luzes vermelhas e roxas se alternam enquanto as pessoas dançam ao som do DJ. Uma balada ocupa os dois últimos andares do edifício: no 22º funciona um bar com pista de dança que está lotada de gente jovem; no 23º, outro DJ comanda uma das pistas mais altas da cidade. Ao deixar a pista, é possível acessar uma grande varanda que contorna todo o prédio e oferece uma visão privilegiada do centro da cidade.
De lá, é possível ver o Vale do Anhangabaú, o histórico prédio da Central dos Correios e a Prefeitura de São Paulo, um edifício alto com um jardim elevado iluminado mesmo de madrugada. O Vale do Anhangabaú é um amplo espaço aberto, um antigo vale natural onde corria um rio hoje canalizado, situado entre os viadutos do Chá e Santa Ifigênia.
O acesso ao prédio é feito pelo viaduto Santa Ifigênia, um dos principais corredores de pedestres do centro. À noite, quando há eventos, o entorno passa a sensação de segurança: seguranças particulares, guardas civis e policiais militares fazem rondas pelo largo São Bento, bem iluminado. Mas, ao descer a rua Líbero Badaró, o clima muda. A iluminação enfraquece, as ruas ficam quase desertas, exceto pelos moradores de rua abrigados em cobertores e barracas, retrato de uma cidade que há muito tempo enfrenta dificuldades com dependentes químicos e o abandono de pessoas em situação de vulnerabilidade no centro.

Ephigenia, bar no topo de um prédio no viaduto Santa Ifigênia. Foto: Nickolas Dias
Algumas horas depois, o cenário se transforma. As lojas abrem, a população ocupa as ruas e o movimento cresce rapidamente. No largo São Bento fica a estação de metrô que leva o mesmo nome. Logo em frente está um dos pontos históricos da cidade: o mosteiro de São Bento, conjunto religioso do século XVII que abriga a Basílica de Nossa Senhora da Assunção, a Faculdade de São Bento e a tradicional hospedaria dos monges.
Diante da basílica, um policial vigia o local enquanto, a poucos metros, um senhor muito magro, de cerca de 60 anos, usa um chapéu de palha para se proteger do forte sol enquanto chacoalha uma cumbuca de barro em busca de algumas moedas.
Dois turistas italianos — um homem careca, camiseta azul e mochila, acompanhado de sua esposa de camiseta branca e óculos de sol — observam o ambiente com certa confusão. O policial os aborda e tenta explicar a história da basílica, mas percebe que eles não compreendem.
Estou a poucos metros, observando a cena, até que ele se volta para mim: “Garoto, você pode me ajudar? Não sei falar inglês.” De repente, me vejo traduzindo para o casal de Milão as indicações dos principais pontos turísticos da cidade.
O policial começa pelo mosteiro, depois aponta para um prédio alto com um mastro exibindo a bandeira de São Paulo — o Farol Santander, centro cultural instalado no antigo edifício do Banespa, com exposições, mirante, café e acervo histórico. Ele segue descrevendo os pontos enquanto eu traduzo para os milaneses.
Ao final, eles perguntam se é seguro caminhar até o Mercado Municipal. O policial sorri de orelha a orelha, levanta os braços, mostra os bíceps em sinal de força e declara: “Agora tudo aqui é seguro. Tarcísio, governo de direita”, referindo-se ao atual governo de Tarcísio de Freitas e às suas ações na segurança pública. Fico sem saber como traduzir aquilo, mas não parece necessário. O italiano ri, abraça o policial e segue seu caminho. Eu sigo o meu, e o policial permanece ali, quase como um guarda real da basílica.

Policial orienta turistas no largo São Bento. Foto: Tiago Viveiros
Essa mesma confiança não se reflete nos policiais responsáveis pela segurança noturna da região. Poucas semanas depois, estava indo a pé do Farol Santander para uma festa no Edifício Martinelli, um trajeto de um pouco mais de 350 metros. Cortei caminho pela pouco iluminada rua João Brícola quando cruzei com dois policiais: “Toma cuidado, é melhor não ficar na rua por aqui essas horas.” Eu respondo que estava vindo do Farol e já ia ficar logo em frente, no Martinelli, e ele reitera seu ponto: “Aqui não vale arriscar.”
Algo semelhante aconteceu quando, ao sair do Matiz Bar — um dos muitos rooftops com música ao vivo abertos recentemente no Centro Histórico e onde se cobra R$ 40 por uma bebida —, sou avisado pelo segurança: “Só sai quando seu carro estiver aí, os moleques da bike tão aqui em volta.” Essa “gangue da bicicleta” já é uma velha conhecida dos moradores da região; são jovens que rodam pelos arredores roubando celulares e fugindo com suas bicicletas. Apesar da previsibilidade desses incidentes, o problema segue presente na vida de moradores e visitantes.
Leiliane Oliveira, empregada doméstica de 41 anos, vive na região desde 2018 e relata a constância desse problema: “Desde sempre eles estão lá, roubando no mesmo lugar. Na rua de casa, se estiver mexendo no celular, mesmo que seja dentro do ônibus, eles esticam o braço, pegam o celular e fogem.” Oliveira mora na avenida Rangel Pestana, a um quilômetro da Praça da Sé.
Em uma cidade que registra mais de 500 roubos de celular por dia — e acumulou 124.377 aparelhos roubados entre janeiro e agosto —, o centro não foge à regra. Profundas mudanças na segurança da cidade também são uma promessa do atual governo estadual, mudanças essas que buscam enfrentar um medo diário dos paulistanos.
A falta de segurança não é um problema só para os moradores da região; ela é vista como um grande empecilho também para a realização de eventos que atraem pessoas e movimentam a economia local. Gabriel Andrade, sócio-fundador do Coala Music, empresa que organiza grandes eventos e festivais musicais pelo Brasil, exemplifica como, apesar da importância simbólica da região, ainda é difícil viabilizar projetos ali.
O empresário já se aventurou na região com o projeto Noites no Municipal, que visa trazer um público jovem para o teatro, promovendo shows de artistas mais acessíveis ao Theatro Municipal — casa que costuma receber eventos de alta cultura, como ballets e óperas. Andrade alega que, financeiramente, o evento é viável: “O Municipal, como locação, já vende o evento, facilita muito a venda de ingressos e potencializa os artistas que se apresentam lá.”
Para Andrade, o principal desafio é outro: “O complicado ali é a segurança. A gente quer que seja um evento que movimente a região, que as pessoas fiquem na rua e nos bares ali em volta também, mas a insegurança faz com que as pessoas acabem entrando e saindo do teatro correndo. Eu mesmo vi duas meninas sendo assaltadas saindo do evento; estavam no celular vendo mapa quando passaram uns 10 moleques e levaram tudo.”
Acontecimentos como esse espantam o empresário de fazer mais eventos na região: “Já recebi propostas boas para levar eventos pro Vale do Anhangabaú, mas eu não levo porque é muito perigoso.”
Apesar dos atrativos da região, os problemas do centro persistem sobre as tentativas de ocupação. Estabelecimentos com altos preços ou eventos que atraem centenas de jovens criam uma ocupação passageira e expressa. O público entra e sai rapidamente, constantemente com medo, deixando claro que a coragem diurna dos policiais e o movimento dos bares caríssimos não são páreos para problemas velhos que ainda assombram a região.
Projetos anteriores e o atual
Projetos para trazer mudança ao Centro Histórico de São Paulo apareceram repetidas vezes em diversos governos e prefeituras. Exemplos disso são programas como: o Procentro, de Paulo Maluf (1993-1996), o Reconstruir o Centro, de Marta Suplicy (2001-2004), o Nova Luz, de Gilberto Kassab (2006-2012), e o projeto da Parceria Público-Privada (PPP) de habitação, de Geraldo Alckmin e (2011-2018) e o Centro Novo, de João Doria (2017-2018). Todas essas pautas acabaram não sendo bem-sucedidas por diversos motivos, mas os governos estadual e municipal seguem batendo na tecla de revitalizar a região onde a cidade nasceu — agora com o ambicioso projeto de levar sua sede de volta à região.
O carioca Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi eleito em 2022 após herdar parte significativa da base eleitoral de seu aliado, o então presidente Jair Bolsonaro. Seu discurso de campanha era centrado em segurança pública e no enfrentamento ao crime organizado. Entre as promessas, estava o fim da Cracolândia, então localizada na rua dos Protestantes, entre a rua dos Gusmões e a rua Vitória, que contava com a presença maciça de usuários de drogas e tráfico a céu aberto. O ponto ficava na Santa Ifigênia, região conhecida pelo comércio de eletrônicos e pelo viaduto de mesmo nome.
Hoje, aquela Cracolândia não existe mais — ou pelo menos a concentração na rua dos Protestantes que carregava esse nome. A via está deserta; as lojas que funcionavam antes da chegada dos usuários já não existem mais, e agentes da GCM permanecem na esquina com a rua General Couto de Magalhães para impedir novas aglomerações. Pergunto a um deles se é seguro caminhar por ali agora, e ele responde: “Está seguro sim, só toma cuidado. Não fica dando mole com o celular na mão.”
Os usuários, porém, apenas se dispersaram pela cidade. Pequenas cracolândias surgem em diferentes bairros, e São Paulo segue lidando com o abandono de pessoas em situação de vulnerabilidade há décadas, em um problema que dificilmente será solucionado tão rápido.
O atual prefeito é Ricardo Nunes, do MDB, reeleito em 2024. Entre suas principais propostas está a revitalização do centro por meio do programa Requalifica Centro.
O Requalifica Centro prevê R$ 1 bilhão em incentivos para reformar prédios ociosos, priorizando Habitação de Interesse Social. Paralelamente, o viaduto do Chá e a praça do Patriarca passam por uma intervenção de R$ 70 milhões, que inclui a revisão da marquise de Paulo Mendes da Rocha. Os calçadões do triângulo histórico e do quadrilátero da República também estão sendo reformados.
Dentro desse conjunto está a requalificação de calçadões, uma das frentes mais amplas da política de renovação urbana. A prefeitura planeja recuperar 12 endereços na região da República, totalizando 37,7 mil m². O objetivo é modernizar o piso, melhorar a mobilidade e garantir acessibilidade. As intervenções incluem galerias técnicas para fiação subterrânea, melhorias na drenagem, reforço da iluminação e da sinalização, além de novos espaços de descanso. O investimento previsto é de R$ 36 milhões, com conclusão no segundo semestre de 2026.
Andando pelo centro, é possível observar que, apesar das reclamações sobre a demora no início das obras e dos impactos ao comércio, o projeto avança. Na rua Dom José de Barros, ao lado da Galeria do Rock — símbolo da cultura urbana paulistana —, toda a via está interditada. Os ladrilhos antigos foram removidos, deixando exposta apenas a terra. Diversos operários com coletes amarelos e laranjas trabalham entre tratores e máquinas.
Seguindo pela avenida São João, outras interdições aparecem em uma tarde chuvosa de terça-feira. Dois operários estão pendurados em um grande andaime que envolve um dos postes históricos do centro. É possível perceber que o poste foi recém-pintado e que, com a ajuda de uma corda presa a uma polia, eles trocam as lâmpadas. Embaixo, outros dois operários observam a cena com atenção. A calçada sob seus pés já havia sido substituída: grandes blocos de cimento ocupavam o lugar dos antigos ladrilhos que, por décadas, acompanharam os passos do povo da cidade.
Alguns metros adiante, um trator demole o piso antigo, formado por peças brancas, pretas e vermelhas. Uma pilha desses ladrilhos está acumulada ao lado da máquina. Em breve, será substituída pelos novos blocos de concreto — mais uniformes e com menos personalidade. Dois homens de capacete branco e colete amarelo observam a operação e orientam o operador da máquina.

Demolição da antiga calçada portuguesa na avenida São João. Foto: Nickolas Dias
Essas mudanças são sentidas por quem trabalha na região. Rodrigo Messina, arquiteto e urbanista formado pela PUC-RJ e mestre em filosofia e arquitetura pela USP, trabalha no centro há mais de sete anos. Seu escritório fica na rua Roberto Simonsen, próximo do Triângulo Histórico, região onde a cidade de São Paulo nasceu, delimitada pela praça da Sé, pátio do colégio e largo São Francisco. Fiz uma visita a ele para conversarmos sobre as mudanças que estão ocorrendo por ali.
Messina aponta que o projeto da atual prefeitura traz benefícios, mas peca ao não respeitar a história do local: “Estão trocando toda a pavimentação da região, tirando pedras portuguesas e colocando um piso de concreto. Do meu ponto de vista, perdeu-se uma importância histórica, mas melhora a acessibilidade.”
Enquanto conversávamos, caminhávamos pela região. Era um dia ensolarado, por volta do meio-dia, e o movimento era grande. Trabalhadores saíam às ruas para seu horário de almoço. Estávamos cruzando o vale do Anhangabaú e os raios do sol refletiam sobre o cinzento concreto que pisávamos, fazendo com que a temperatura beirasse o insuportável. Messina, percebendo meu calor, comentou: “O que aconteceu aqui é uma transformação que virou uma concessão para eventos privados. Retirou árvores e causou muita poluição sonora, o que é negativo para os moradores.”
Leiliane Oliveira, moradora da região, menciona os eventos do Anhangabaú e como afetam sua vida: “Quanto tem as festas lá da para ouvir daqui, a região inteira escuta. Olha que eu ainda estou longe.” Oliveira mora a mais de um quilômetro do vale e ainda escuta o barulho de seus eventos.
As mudanças, muitas vezes, são frutos de longos processos e de diversos interesses públicos e privados, que repetidas vezes não levam em consideração os moradores e a história da cidade. Messina aponta que a falta desse equilíbrio é chave para a falta de segurança na região: “A segurança aumenta em época de eleição e também aumentou por conta do interesse do mercado privado. Os investimentos na região vêm em conjunto com uma exigência dos proprietários para ter reforço nessa área.”
Esse aumento de policiamento ainda é precário e pode ser reforçado de outras maneiras que visam o bem-estar social: “Outros fatores fazem a segurança sem ser a polícia. Ter comércio na rua e mais prédios ocupados são exemplos disso. Políticas atuais não promovem a ocupação de pessoas de classe média baixa para prédios vazios na região. Se existisse algum tipo de isenção de imposto como incentivo para construção e reformas de revitalização de prédios que teriam um uso híbrido, com comércio embaixo e áreas de apartamento para uma população diversa em cima… O governo incentiva apenas iniciativas comerciais, mas não a ocupação real de pessoas.”

Operários trabalham na troca dos pisos na rua Dom José de Barros. Foto: Nickolas Dias

Operários trabalham na manutenção de um poste na avenida São João. Foto: Nickolas Dias
Projeto de mudança da sede do governo para o centro
O atual governo estadual alega que busca trazer esse movimento com seu ambicioso projeto de levar sua sede de volta para o Centro Histórico. Atualmente localizado no Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, zona oeste, a pouco mais de um quilômetro do estádio MorumBIS. A sede fica distante do Centro Histórico e está instalada em um bairro residencial de alto padrão, de acesso limitado para a população em geral.
A ideia é fazer a transferência de volta para a região do Palácio dos Campos Elíseos, onde ficava a sede até 1967, atualmente a região abriga a Secretaria de Justiça e Cidadania. Para que isso seja possível, será necessária uma intervenção urbana de grande escala no bairro, que vai impactar a dinâmica da região. Com a mudança, o Executivo afirma buscar contribuir para a revitalização do centro paulistano.
O plano prevê a criação de um centro administrativo, com até 13 novas torres de 90 metros distribuídas ao longo de quatro quadras da avenida Rio Branco, totalizando 450 mil m². Nessa área seriam concentradas 28 secretarias e 36 prédios administrativos estaduais, hoje dispersos pela cidade, reunindo cerca de 22 mil funcionários.
O projeto inclui a formação de uma grande esplanada pública ligando o parque Princesa Isabel à quadra onde hoje funciona o terminal de ônibus, que deve ser transferido. Além disso, imóveis da região serão desapropriados, e parte das ruas do entorno poderá se tornar exclusiva para pedestres. A iniciativa, estruturada como uma parceria público-privada, tem custo estimado de R$ 3,9 bilhões e previsão de conclusão em 2029, caso as obras se iniciem em 2025.
O idealizador dessa ideia é Afif Domingos, secretário de Projetos Estratégicos do governo de São Paulo e ex-vice-governador na gestão de Geraldo Alckmin. Segundo ele, a ideia surgiu quando passou a estudar “a ida do governo estadual como um todo para um núcleo central, para criar um choque de investimento que pudesse induzir outros investidores a fazerem”. Para Afif, o governo estrutura um movimento de massa ao decidir levar a administração estadual para os Campos Elíseos. Ele argumenta que “o centro tem que ser ocupado dia e noite”, motivo pelo qual o plano prevê deslocar milhares de servidores: “Vamos levar e dar um choque com o governo inteiro. Com 22 mil funcionários deslocados para lá.”
Ao mesmo tempo, Afif tenta diferenciar o projeto das iniciativas anteriores que não conseguiram fixar moradores de forma duradoura na região. Ele afirma que antigas gestões “deram tapas, deram socos”, concentrando esforços em escritórios que “às 6 da tarde fecham tudo”. O secretário sustenta que a presença do Estado é o elemento capaz de estabilizar o território, chegando a defender que “hoje o centro é mais seguro que a Faria Lima” e que a mudança das estruturas de segurança pública criará “um movimento inusitado de policiais em trânsito”. Para ele, o diferencial está na escala: “O diferencial é mover essa quantidade de pessoas para o centro”, afirma, numa tentativa de posicionar o projeto como ruptura e não repetição das tentativas anteriores.

Afif Domingos, secretário Projetos Estratégicos do Estado de São Paulo Foto: Francisco Lara
Algumas semanas após as declarações do secretário para esta reportagem, o projeto foi suspenso. Em 21 de novembro de 2025, a licitação foi interrompida devido à incerteza sobre a participação de potenciais interessados, que alegaram não querer assumir os riscos envolvidos. Esses riscos foram determinantes para o arquivamento: a desocupação de ocupações irregulares, de imóveis privados, a realocação de famílias vulneráveis e um desafio técnico relevante — o terreno possui solos que se expandem e se contraem conforme a umidade, além do risco de que o terceiro subsolo dos edifícios planejados atinja o lençol freático, exigindo um rebaixamento complexo.
Uma dessas tentativas anteriores partiu do ex-prefeito e ex-governador João Doria.
Eleito para o cargo de prefeito nas eleições municipais de 2016, João Doria, do PSDB, apresentou-se como um outsider, um candidato que não vinha dos meios políticos tradicionais. O empresário permaneceu apenas dois anos no cargo, deixando a Prefeitura para concorrer ao governo do Estado e dando lugar a Bruno Covas.
Segundo ele, a única solução para revitalizar a região seria apostar no investimento do setor privado e das instituições de ensino: “O ensino é o grande agente transformador e financiador dessa transformação. Mas ele não deve ser público: são universidades privadas, faculdades privadas, institutos privados e colégios privados ocupando espaços disponíveis para locação ou venda a baixo custo. Hoje, o metro quadrado no centro da cidade custa um quarto do valor na região da avenida Paulista.”
O ex-prefeito defende que o centro deveria ser ocupado por apartamentos do tipo studio destinados a estudantes dessas instituições. Em sua proposta, esses studios, de 30 a 40 metros quadrados, poderiam ser instalados em prédios cujo valor de venda ou locação é mais baixo. Além disso, segundo ele, o Estado não deveria financiar essa transformação, mas sim focar na manutenção de praças, ruas e do trabalho da Guarda Civil Metropolitana.
A ideia é clara: atrair capital privado por meio de incentivos fiscais enquanto o governo se encarrega da manutenção dos bens públicos. Doria também destacou que a infraestrutura de transporte público como metrô e linhas de ônibus já existe na região e não exige alterações significativas.
Sobre eventos culturais e vida noturna, afirmou que bares e restaurantes deveriam ser parte essencial da revitalização: “Poderia ter uma vida noturna muito ativa, gerando empregos, gerando atividades, gerando impostos para a cidade e para o Estado também.”
Segundo Doria, para atrair o capital privado ao centro, é necessário antes resolver a questão da população em situação de rua: “Não se pode ocupar um centro metropolitano como São Paulo apenas durante o dia; ele se deteriora e atrai uma população nociva à manutenção desse status de recuperação. Não quero ser discriminatório, mas nenhuma empresa se sentirá bem em um ambiente onde tenha dezenas, centenas ou milhares de funcionários convivendo com uma população em situação de rua, com um grau de criminalidade elevado ao redor e com pessoas em situação de consumo de drogas.”
Diferentes visões
O projeto de revitalização do centro e a mudança da sede do governo estadual geram opiniões diversas entre diferentes organizações.
Estou caminhando pela avenida São João em direção ao edifício São Thomaz. Em uma esquina pontuda da avenida Ipiranga com a rua Basílio da Gama, o prédio construído em 1942 abriga hoje escritórios e apartamentos residenciais. A entrada é por uma grande porta que fica entre um Starbucks e a padaria Mundo Oliver; em frente, há uma banca de jornais.
A cidade está tomada por muita chuva e vento forte. Tento me proteger com o guarda-chuva, mas o vento é tão forte que ele vira ao contrário e quebra, e só resta aceitar os pingos de chuva caindo sobre mim. As pessoas se apertam sob marquises, dentro de lojas e bancas, mas eu não tinha alternativa: a entrevista estava marcada para as 15h, e eu não queria me atrasar.
Entro no edifício no exato momento em que um homem grisalho, com camiseta branca suja de terra e uma muda de árvore na mão, segura a porta para mim. O porteiro, seu Osmar, me recebe. Aviso que tenho uma entrevista com Marcone Moraes. Ele liga para o escritório e me acompanha até o elevador, antigo, equipado com uma cadeira de ascensorista.
O escritório é simples e agradável: paredes brancas, quadros discretos, ar-condicionado desligado e o som constante do teclado das duas funcionárias. A grande janela tem vista para a avenida São Luís. Em uma prateleira, caixas da padaria do térreo. Eu, encharcado pela chuva, tento me ajeitar na cadeira.
Marcone, um homem alto, magro, de cabelo raspado, sai da sala e me chama: “Boa tarde, vamos lá.” Entro em seu escritório. Logo na entrada, três bandeiras grandes: Brasil, Estado de São Paulo e Município. A mesa abriga três monitores; atrás da cadeira, uma placa de “rua Garopaba”, um terço, um certificado de gratidão da Marinha e outra placa: “Olavo tem razão”. Sobre a mesa, uma caixa de madeira com o símbolo da Polícia Militar entalhado. Marcone é presidente da Associação Pró-Centro, definida por ele como um facilitador da relação entre a sociedade civil e o poder público.
Moraes começa a me contar sobre a atuação da associação que preside: “O Pró-Centro atua majoritariamente no centro e no distrito República. Representamos moradores, comerciantes, empresários, frequentadores e servidores públicos. Há muita diversidade entre os associados. As principais demandas mudaram ao longo do tempo. Três ou quatro anos atrás, segurança pública era o tema central. Hoje, com parte dessa questão encaminhada, a segunda grande demanda passou a ser a desburocratização.”
Ele também destacou o papel da segurança. Segundo o presidente da associação, a virada no centro, especialmente nos últimos anos, veio da decisão do governo local de reconhecer a segurança como elemento essencial para o desenvolvimento. Com mais segurança, o comércio prospera; com mais vida nas ruas, a sensação de pertencimento volta.
Ele se define como apoiador da atual gestão estadual e, sobre a mudança da sede para o centro, afirma: “Considero extremamente positiva. Concentra serviços públicos perto da população e aproxima a sociedade das autoridades.” Ainda assim, reconhece que intervenções urbanas desse porte exigem equilíbrio: “Realocar pessoas, preservar direitos, mas também pensar no benefício coletivo.”
Quando questionado sobre a desapropriação de moradias na região dos Campos Elíseos, afirmou: “Não é possível travar a revitalização completa da região por causa de poucas unidades residenciais situadas em trechos estratégicos.”
A desapropriação e a remoção de moradias nos Campos Elíseos para a construção do centro administrativo preocupa especialmente dois grupos: as 350 mil famílias que vivem na favela do Moinho, uma das últimas favelas da região central e os moradores do entorno da praça Princesa Isabel, onde há prédios de habitação social e conjuntos residenciais de classe média que podem ser impactados pelas desapropriações previstas no projeto.
A arquiteta e urbanista Carolina Heldt, coordenadora do LabCidade da USP, observa o projeto com um olhar mais crítico: “O governo do Estado tem como objetivo principal remover a população que hoje reside, trabalha e circula nesta área para permitir outro tipo de ocupação e de uso voltado a um perfil mais elitizado e higienista. Esse é um projeto que, na prática, anula a cidade existente.”
Sobre as desapropriações de moradias na favela do Moinho e na região dos Campos Elíseos, Heldt afirma que “a população está sendo expulsa”. Isso ocorreria, segundo ela, tanto por violência física em operações policiais abruptas quanto por violência institucional, por meio de pressões indiretas. A urbanista também relata que há inúmeros casos de moradores que não sabem exatamente o que estão assinando, para onde irão ou quais direitos terão assegurados.
Caroline ainda argumenta que: “O objetivo central é político-eleitoreiro: limpar a área, capitalizar o ganho político de ‘resolver’ o problema e não, necessariamente, construir o centro administrativo prometido.”
Ela ainda faz críticas mais duras ao próprio termo “revitalização”. Segundo a urbanista, o termo carrega uma visão de que a vida urbana existente no centro é uma vida “a ser substituída”, o que revela um processo de gentrificação: “Reforça um modelo dominante de cidade e prioriza um tipo de uso comercial pensado para valorizar os imóveis, deixando de lado os modos de vida que já existem ali.”
A reestruturação do centro de São Paulo passa por diversas camadas de problemas sociais que perduram há anos no bairro mais antigo da maior cidade do Brasil. Modernizar muitas vezes é confundido com o apagamento da história, e projetos políticos maquiados de transformações reais não enfrentam os problemas intrínsecos, urbanísticos e sociais. Considerando o histórico da região, o progresso agressivo não aparenta ser uma solução sustentável para o Centro Histórico da cidade de São Paulo.

