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Como a desinformação ambiental se intensificou nos últimos anos no Brasil

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Artivista Mundano faz manifestação juntamento com o Greenpeace levando cinzas da Amazônia para os corredores da COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Nicole Rizzo (2º semestre) 

 A desinformação ambiental tem se espalhado no mundo, especificamente no Brasil, entre 2019 e 2025, através de teorias conspiratórias e narrativas falsas que circulam principalmente nas redes sociais. É o que mostra uma análise sobre o conteúdo verificados pelos sites Aos Fatos e Lupa no período. O levantamento mostra que esses conteúdos se intensificam em momentos de crise climática como as enchentes no Rio Grande do Sul (RS) e que a desinformação também está presente nos discursos de figuras públicas.  

A desinformação climática consiste na circulação de informações falsas, distorcidas ou baseadas em dados científicos e apresentados de forma seletiva, omitindo elementos essenciais sobre emissões de combustíveis fósseis, desmatamento ou impactos do aquecimento global. Mesmo quando não é produzida de forma intencional, ela se alimenta da complexidade do tema e se espalha rapidamente, influenciando a percepção pública e criando dúvidas sobre consensos científicos. Esse tipo de conteúdo tem ganhado força nos últimos anos, especialmente nas redes sociais, onde narrativas simplificadas, memes, teorias conspiratórias e interpretações equivocadas encontram ambiente fértil para viralizar. 

Entre os temas ambientais mais recorrentes checados por Aos Fatos e Agência Lupa desde 2019 estão teorias da conspiração (23,68%), seguidas por eventos de grande repercussão midiática, como o incêndio no Havaí e as enchentes no Rio Grande do Sul (ambos com 13,16%). Temas ambientais de relevância estratégica, como petróleo (10,53%), Amazônia (7,89%), mineração (5,26%), extração de madeira (5,26%) e crimes ambientais (5,26%), também aparecem de forma consistente. Assuntos como confiscagem de terra ou gado, embora menos frequentes (2,63% cada), estão incluídos. 

Os dados mostram que as redes sociais são o principal meio de desinformação, correspondendo a 63,16% dos casos analisados. Isso evidencia que grande parte do público-alvo é exposta a informações falsas ou distorcidas por meio de plataformas digitais, que facilitam o compartilhamento rápido e a amplificação de conteúdo sem verificação. Um exemplo são os vídeos que foram publicados em diversas plataformas sobre o incêndio no Havaí, nos Estados Unidos em agosto de 2023, afirmando que eles também ocorreram em outros países e que não teriam a ver com crise climática. Outros conteúdos chegaram a afirmar que o motivo do incêndio seria o lançamento de um foguete ou ainda raios laser, como afirmou o youtuber Matt Procella em seu canal. 

A circulação da desinformação climática revela um ecossistema muito mais amplo. Em diversos casos monitorados por checagens do Aos Fatos e da Lupa é possível observar como vídeos conspiratórios, como os que atribuem enchentes no Rio Grande do Sul a “armas climáticas”, ganham força sempre que eventos extremos ocupam o debate público. Essas teorias oferecem explicações simples para fenômenos complexos, desviando o foco das reais causas ligadas às mudanças climáticas.  

Guilherme Borges, professor da disciplina Jornalismo Socioambiental na ESPM, diz que a questão da desinformação é um dos problemas mais graves para os próximos anos na humanidade. “Com o excesso de informação, a velocidade da informação, e aspectos políticos, têm um aumento considerável de desinformação no mundo. Nem sempre é uma informação errada, a chamada fake news, criada para ser falsa. Às vezes é uma informação que é imprecisa, não explica direito, e te leva a imaginar uma coisa quando na verdade é outra”, acrescenta em seu discurso. 

Discursos públicos 

Declarações de autoridades ou líderes políticos com grande alcance que podem reforçar narrativas falsas foram responsáveis por 21,3% das desinformações analisadas.  O caso da exploração de petróleo na margem equatorial, especialmente na foz do Amazonas em novembro de 2025, escancara essa dinâmica. Informações falsas foram disseminadas por senadores e até pelo presidente, envolvendo previsões equivocadas sobre reservas nacionais de petróleo, afirmações incorretas sobre países que teriam abandonado a exploração e até dados falsos sobre o estado do Amapá.  

Apesar do discurso oficial em defesa da ciência, as notícias falsas sobre mudanças climáticas e narrativas negacionistas crescem e se disseminam com velocidade crescente, moldando debates públicos e dificultando a implementação de políticas ambientais. De acordo com uma pesquisa feita pelos cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), avaliaram que de 126 mil postagens em um período de 11 anos, para chegarem à conclusão de que notícias consideradas falsas se espalham mais facilmente na internet do que textos verdadeiros. 

Na esfera eleitoral, o negacionismo também tem sido utilizado como ferramenta política. Em Belém, sede da COP30, o deputado federal Éder Mauro (PL – PA) afirmou que o garimpo poderia ser “de baixo impacto” e responsabilizou ONG’s pelas queimadas, apesar de todas as evidências científicas em sentido contrário. A verificação de sua fala foi realizada pelo Aos Fatos. 

Segundo Luiz Nascimento, chefe de reportagem do Aos Fatos, identificar um único beneficiário da disseminação da desinformação é impossível. “Na experiência do Aos Fatos, a desinformação ambiental é um pouco ‘de nicho’. Não é um assunto que aparece toda semana para a gente desmentir e geralmente circula em grupos específicos”, explica. Ele afirma que a desinformação ambiental é “casuística” e “oportuna”: geralmente viraliza quando há desastres ambientais, eventos mundiais de discussão do clima etc. “Ou seja: quando o assunto do dia é algo relacionado ao clima, ela geralmente aparece”, afirma.

Influenciadores e páginas nas redes sociais às vezes se aproveitam da desinformação para atrair atenção e engajamento. Em diversos casos, principalmente após desastres naturais, circulam vídeos ou mensagens que afirmam, sem provas, que chuvas, enchentes ou secas teriam sido provocadas por “armas climáticas” ou por conspirações globais. Esse tipo de conteúdo costuma ser compartilhado amplamente e gerar muitos acessos, mesmo quando já foi desmentido por agências de checagem.  

COP-30 

A relevância desse debate já começa a ser reconhecida em escala internacional. Durante a COP30, realizada em Belém em novembro, foi lançada a Carta-Compromisso pela Integridade da Informação Climática na Publicidade Digital, iniciativa que mobiliza governo, ONU, UNESCO, sociedade civil, agências de publicidade e grandes anunciantes. O documento estabelece diretrizes para impedir que a publicidade digital financie sites que produzem desinformação climática ou greenwashing, além de exigir maior transparência na cadeia publicitária e incentivar o investimento em jornalismo ambiental de qualidade. 

A carta parte do reconhecimento de que a desinformação climática não é apenas um fenômeno de opinião pública, mas uma ameaça concreta ao cumprimento das metas do Acordo de Paris.  

O professor Edson Capoano, professor nos cursos de Comunicação e Publicidade e de Jornalismo na ESPM-SP e Colunista do portal Envolverde, explic que essa foi a primeira COP que colocou na sua carta final a informação como um dos quesitos para ação climática. “Percebeu-se que se as pessoas não têm a informação correta para poderem tomar suas decisões, elas não vão agir em prol da ação climática. Não só propostas sobre física, química e a diminuição de gás carbônico são importantes, mas também propostas que direcionem as pessoas à informação correta”.

Capoano também fala sobre a importância da checagem de fatos nesse cenário. “É importante sempre checar alguma informação que você vê em alguma plataforma digital, através de sites oficiais, como o da ONU e  veículos de jornalismo, e também sempre prestar atenção nas fontes.  Se a informação tem uma origem clara, ela tem mais chance de estar correta. Se não, ela pode estar desinformando”.

Para Nascimento, é preciso entender que não existe solução mágica para a desinformação. “O fenômeno tem que ser atacado de várias frentes: as pessoas têm que saber identificar o que é uma informação de qualidade, as plataformas têm que identificar uma desinformação viral, a mídia tradicional tem de ser mais transparente e evitar dar palco para negacionistas, e os políticos têm que se basear em dados de qualidade”, explica. Segundo o jornalista, ainda que as pessoas possam acreditar no que quiserem, não é possível negar a realidade: o mundo está ficando cada vez mais quente, desastres ambientais estão cada vez mais comuns e mais extremos, e pessoas estão deixando suas casas e morrendo por causa das mudanças climáticas. 

Borges diz que não se pode afirmar que a desinformação é padronizada, mas que sempre prevalece onde a educação não é muito acessível, e a velocidade da desinformação pode ser maior. “É importante que a gente tenha momentos que a gente pare para pensar e questione: Será que é verdade isso ou será que está completa essa informação? E tentar checar com outras fontes, outras pessoas que sejam referência e de confiança”, o jornalista complementa. 

Metodologia

A metodologia utilizada nesta reportagem envolveu a coleta e análise das checagens publicadas pelas agências Aos Fatos e Lupa entre 2019 e 2025, com foco na desinformação ambiental. O primeiro passo foi categorizar os conteúdos checados conforme os temas abordados, como mudanças climáticas, desmatamento, petróleo, mineração, crimes ambientais e teorias conspiratórias. A seguir, as checagens foram agrupadas de acordo com o local onde a desinformação se espalhou, se foi via discurso de autoridade pública ou redes sociais.

 

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