Pipa, um programa que integra estudantes neurodivergentes

Entrada da sala do PIPA, localizada no terceiro andar da biblioteca da ESPM-SP. Foto: Kauan Macena

Share

Valentina Krausz e Kauan Macena (1ro. Semestre)

Pensar em uma educação equitativa, que acompanhe as particularidades de cada estudante na universidade, não como uma questão individual, mas da sociedade em que vivemos. Foi a partir dessa reflexão que a ESPM-SP criou em 2014 o Programa de Intervenção Pedagógica na Aprendizagem (PIPA), que oferece apoio a estudantes que apresentem diagnóstico neurodivergente e pessoas com deficiência física.  

São diversos os perfis dos estudantes que utilizam a iniciativa. Dentre eles estão alunos com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que é caracterizado por sintomas como desatenção e inquietude. São atendidos também casos de alunos com Dislexia, um transtorno que afeta a habilidade de reconhecimento preciso e fluente de palavras e fonemas, e outros com Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma condição que altera a comunicação, interação social e comportamento.

Na prática, o programa oferece flexibilização de prazos de entrega de trabalhos, extensão no tempo de avaliações e adaptações baseadas nas limitações de aprendizagem dos alunos, com um olhar individual. “Não dá para padronizar. Às vezes, para um estudante TEA funciona super bem uma prova oral, mas para outro estudante TEA, não. O mesmo vale para o TDAH.  Para um aluno, as (provas) discursivas são melhores para mostrar o conhecimento, para outro, talvez múltipla escolha funcione melhor,” explica a coordenadora psicopedagógica do PIPA, Fabiana Malandrino.

“Eu sempre falo para os meus alunos sobre o Programa PIPA. Eu mesmo sou um “professor PIPA”. O mundo é complicado para nós, mas aqui vejo um esforço coletivo para tornar o espaço acessível. Preparar provas de maneira inclusiva é algo que eu já pensava antes, mas aqui existe um respaldo institucional. É um lugar de acolhimento, não de dificuldade”, conta o professor de Língua Portuguesa da ESPM, Rodrigo Bravo, que é neurodivergente e se sentiu abraçado pela instituição, depois de ter enfrentado dificuldades quando era estudante universitário.

Como professor em outras organizações, Bravo também vivenciou experiências difíceis. “Um aluno meu, que tinha um desempenho excelente, sumiu por três semanas porque houve um problema com a receita dele no SUS e ele ficou sem medicação para o TDAH”, conta sobre um caso em que a direção da escola preferiu reprovar o estudante. “Eu não aceitei. Entrei em contato com o aluno e ofereci uma prova oral gravada. Ele tirou 10. Se dependesse daquela visão institucional rígida, ele teria perdido a bolsa e não terminaria o curso”, lembra. “Não se trata de facilitar as coisas, mas de criar condições iguais para que as pessoas possam florescer”, comenta o professor da ESPM. 

Para um aluno do curso de Jornalismo atendido pelo PIPA, cuja identidade é preservada pelas normas do programa, o projeto é importante para o seu dia a dia acadêmico. “Eu sempre demoro um pouco para fazer as provas. Meia hora a mais faz uma diferença boa para mim”, diz.

Para acessar o programa é necessário seguir orientações que antecedem o processo seletivo da instituição. Tudo é mantido em sigilo, pois o trabalho tem por base a precisão diagnóstica para desenvolver recursos pedagógicos eficazes.

Apenas 15,7% das pessoas com TEA, na faixa etária de 25 anos ou mais, completam o ensino superior em comparação à 18,4% da população geral, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em 2022. O programa é a mostra de como o ambiente acadêmico pode ser inclusivo tanto para alunos, quanto representativo para professores como Rodrigo Bravo. A iniciativa vem como uma forma de inovação na inclusão e formação de alunos neurodivergentes no ensino superior.