O cansaço de estar cansado entre os universitários

Barbara Reis entrevista jovens sobre Burnout, sob anonimato. Foto: Helena Rosa

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                             Barbara Reis entrevista jovens sobre Burnout, sob anonimato. Foto: Helena Rosa.

Barbara Lebber e Helena Rosa  (1ro semestre)

O cansaço deixou de ser uma sensação passageira após uma semana de provas para se tornar um estado constante na vida dos jovens brasileiros, incluindo os universitários. Pressionada por cobranças acadêmicas, pela onipresença digital e pela necessidade de se destacar em um mercado cada vez mais competitivo, a Geração Z (nascidos entre meados de 1995 e 2010) tem enfrentado níveis crescentes de esgotamento emocional.

Esse fenômeno, conhecido como Burnout — termo que remete à combustão completa ou ao “esgotamento” —, rompeu as barreiras do ambiente corporativo. Hoje, ele se manifesta cada vez mais cedo, comprometendo a saúde mental e a qualidade de vida de estudantes que ainda nem iniciaram suas carreiras profissionais.

A sensação de exaustão é corroborada por dados alarmantes. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com estudantes de universidades públicas de nove estados, revelou que um em cada quatro entrevistados apresenta sinais de ansiedade grave ou depressão moderada. O levantamento registrou uma prevalência de 51% para sintomas depressivos e 42,5% para ansiedade entre os 748 alunos ouvidos.

O cenário brasileiro reflete uma tendência global. Já em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que 35% de uma amostra de quase 14 mil estudantes universitários, em oito países, apresentavam ao menos um transtorno mental — como depressão ou pânico — motivados por dificuldades financeiras e pelos desafios intrínsecos à vida acadêmica.

Apesar do cenário crítico, há um movimento de resistência e conscientização. “Os jovens hoje defendem mais a saúde física e entendem que cuidar do corpo é, também, cuidar da mente”, explica a psicóloga Sophie Rousseau, especialista em neurologia que atende jovens. Para a psicóloga, os hábitos saudáveis ganharam um protagonismo que vai além da estética, ocupando um papel central na busca por equilíbrio emocional.

“O brasileiro hoje dá muito mais importância à saúde mental. O jovem encara a terapia como algo comum, e não mais como um recurso exclusivo para quem está em crise aguda, como era no passado”, comenta.

Jovens que vivem no limite

Para compreender o impacto real do Burnout, ouvimos estudantes que enfrentaram o colapso silencioso da rotina. Sob anonimato, um jovem de 21 anos relata como a pressão o fez abandonar o curso de Tecnologia da Informação (TI).

“Eu tive Burnout. Para lidar com isso, entendi que precisava de lazer, novos hobbies e tempo com minha família”, conta o agora estudante de Cinema, que trocou a exaustão da área tecnológica pela paixão pelas artes. Apesar da melhora pessoal, ele observa que o problema é sistêmico: “Minha mãe, que é professora, e vários amigos ainda sofrem muito com isso”.

Outro estudante, de 21 anos, cursando Engenharia Civil, reforça que o diagnóstico precisa ser levado a sério pela sociedade. “Tenho psicólogos na família especialistas em tratar o esgotamento. Não é ‘mimimi’ como muitos dizem; é uma doença que exige tratamento”, pontua.

Especialistas e estudantes convergem em um ponto fundamental como alternativa para enfrentar o esgotamento: o autoconhecimento. A busca por ajuda profissional, seja por meio da psicologia ou da psicanálise, é o caminho mais seguro para desenvolver mecanismos de defesa contra a pressão externa. Em um mundo que não para de acelerar, o maior desafio da Geração Z parece ser, ironicamente, o aprendizado de como pausar.