Engolindo a pílula: Como o movimento redpill ganhou espaço entre jovens brasileiros

Camiseta “Regret Nothing” usada por Vitor Simonin. Foto: Reprodução/Instagram @midianinja

Share

Frase na camiseta de Vitor Hugo Simonin, acusado de estupro coletivo, ao sair da 12° DP, no Rio. Foto: Reprodução Instagram @midianinja

Bianca Marcondes, Eloá Fernandes, Luna Lima, Maria Eduarda Cruvinel e Olívia Rezende (3º semestre de Jornalismo)*

Por trás da pílula

Na saída da 12ª Delegacia de Polícia em Copacabana, Rio de Janeiro, um jovem de 18 anos desce poucos degraus de concreto com os braços algemados nas costas, sendo conduzido por uma policial. De cabeça erguida, olhar firme e queixo levantado, o adolescente alcança o pé da escada em meio a empurrões e xingamentos do público ao redor, e caminha em direção à viatura da polícia que o levará para o Presídio José Frederico Marques, em Benfica, na zona norte da cidade.       

Quem o visse horas antes encontraria apenas um garoto comum, em um dia qualquer. O cabelo cacheado não chamava muita atenção. No corpo, uma calça jeans escura com modelagem despojada e uma camiseta preta comprada em uma loja de departamento terminam de compor o visual de um adolescente normal como tantos outros. 

A roupa casual parecia ter sido escolhida sem intenção, exceto por um detalhe: ali, estampado no peito, em letras prateadas, o escrito “regret nothing”, em tradução, “não se arrependa de nada”. 

Ele é Vitor Hugo Oliveira Simonin, acusado de cometer estupro coletivo em janeiro de 2026. Filho de José Carlos Costa Simonin, ex-subsecretário estadual de Governança, Compliance e Gestão Administrativa, exonerado do cargo em 4 de março, mesmo dia em que o filho se entregou à polícia. 

A versão da defesa é de que, naquela noite, Vitor estava no mesmo apartamento em Copacabana que os outros jovens acusados, mas não participou da violência sexual contra a vítima. Seu advogado, Ângelo Máximo, declarou que sua inocência será provada: “Ele não precisa se arrepender de nada”. 

Mas essa não é a única acusação envolvendo o adolescente. Na semana anterior à presença de Simonin na delegacia, outra jovem procurou a polícia e afirmou que havia sido estuprada por ele. Na denúncia, ela alega ter sido forçada a praticar sexo oral no rapaz, mesmo após ter se negado.

Nesse contexto, a camiseta chama ainda mais atenção. Como um jovem acusado de estupro mais de uma vez pode não se arrepender de nada? A única forma desses elementos fazerem sentido é entender os movimentos do jovem e de todo um grupo que vende a misoginia. Regret nothing não é apenas uma frase motivacional, ela roda o mundo atrelada a movimentos que incentivam o ódio contra mulheres e ao rosto do influenciador Andrew Tate. 

O americano-britânico prega a dominação masculina em detrimento da figura feminina, ideia sintetizada do que é a chamada “machosfera”. Tate é réu por estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores e, em seus vídeos,  que somam mais de 1 bilhão de visualizações, ele repete com devoção que não há nada pior do que o arrependimento. 

Sua tese é de que mesmo reconhecendo seus erros do passado, não deve se arrepender deles. O seu discurso é claro: um homem que se arrepende é fraco, incapaz de ser aquilo que deveria. 

Mas o que é a machosfera que Tate ajudou a popularizar? Esse é um termo guarda-chuva para as diversas comunidades masculinistas e misóginas na internet. A maior delas é a redpill, nome inspirado no filme Matrix, de 1999. Na trama, as pessoas vivem em uma realidade confortável, mas falsa, e o protagonista precisa escolher entre tomar a pílula azul e continuar em uma vida de mentira ou tomar a vermelha e acordar para o mundo real. 

Dicionário da Machosfera. Infográfico produzido em 7 jun. 2026 com auxílio do ChatGPT (OpenAI) para geração visual, a partir do prompt: “faça o rascunho de um infográfico em forma de dicionário com essas informações”. A IA foi utilizada para a diagramação visual. Todas as informações, definições e fontes foram pesquisadas e verificadas independentemente

 

No contexto da machosfera, a pílula vermelha te faz enxergar que o mundo privilegia as mulheres, enquanto os homens nascem sem valor para a sociedade e precisam trabalhar a vida toda para construí-lo. 

Como provam as bilhões de visualizações, Tate não é um nome incomum nas redes. Mas em 2025, seu nome entrou no debate público, quando a Netflix lançou a série Adolescência. Na ficção, Jamie Miller, um adolescente de 13 anos, é condenado por assassinar uma colega de classe após ter contato com o discurso do influenciador. 

No episódio três da trama, Jamie explica para a sua psicóloga a teoria 80/20: a crença de que 80% das mulheres se sentem atraídas apenas por 20% dos homens, o que deixa os demais sem nenhuma oportunidade de relacionamento. 

Acreditando estar inseridos em uma sociedade que privilegia mulheres e sem perspectiva de relacionamentos com elas, esses homens se inserem na MGTOW, abreviação para Men Going Their Own Way, ou em português: homens seguindo seu próprio caminho. Esse nicho engloba homens que acreditam que devem ir contra a sociedade centrada nas mulheres e evitar qualquer contato com elas.

Outra comunidade popular é o incel, sigla em inglês para celibatário involutário. Esse termo se refere a homens que se convenceram de que mulheres heterossexuais não desejam se relacionar com eles, seja por aparência ou status financeiro, colocando-as como vilãs por negá-los romanticamente. Essas ideias chegaram à tela do celular de Jamie e de milhares de outros adolescentes que consomem conteúdos de influenciadores com essa linha de pensamento, como o próprio Andrew Tate.

Foi diante desse universo que nós, alunas de Jornalismo da ESPM-SP, percebemos que ler sobre o assunto não era suficiente para entender como os movimentos misóginos cresciam. Precisamos entrar na machosfera. Para isso, começamos com um teste sobre os algoritmos das redes sociais. 

De acordo com a pesquisa A Nova Era do Sexismo: Como a IA e as Tecnologias Emergentes Estão Reinventando a Misoginia, de Laura Betes, pesquisadora e escritora feminista britânica, contas associadas ao sexo masculino demoram, em média, cerca de 30 minutos para começar a receber conteúdo misógino, sem que tenham que procurar por ele. 

Criamos uma conta nova no aplicativo TikTok, uma rede de vídeos curtos, e começamos a rolar pelo feed, sem pesquisar por nenhum conteúdo específico. Em dez minutos, recebemos vídeos de motivação e manifestação de uma vida de luxo. Carros importados, frases sobre abundância e um estilo de vida que “você merece”. 

Assistindo parcialmente ou inteiramente esses vídeos, o algoritmo assimilou que era um conteúdo que tínhamos interesse. Por isso, nos dez minutos seguintes, as figuras dos coachs se tornaram presentes, com discursos inicialmente motivacionais. 

Com a mesma interação, após mais alguns vídeos, o tom mudou. Não precisou de meia hora para que os discursos deixassem de ser baseados apenas em se tornar bem-sucedido, e sim sobre o que é ser homem, como deve agir e o que não tolerar. 

A doutora e pesquisadora em gênero e misoginia pela PUC-Minas Bruna Camilo analisa, em sua tese de doutorado, a misoginia e o ódio nas redes sociais durante todo o processo eleitoral e governo de Jair Bolsonaro. Como metodologia, Bruna passou a acompanhar grupos e influenciadores masculinistas para dissecar seus discursos e entender de onde eles surgem e como atingem tanta gente. 

Em entrevista, Bruna nos contou sobre a atuação dos influenciadores e o funcionamento dos algoritmos. Segundo ela, o ponto chave da misoginia é o ressentimento. Essas figuras conseguem localizar algum vazio ou mágoa em cada um dos homens que consomem o conteúdo. A exemplo, a pesquisadora cita o discurso que associa a rejeição de uma mulher ao status financeiro do homem. A figura masculina deve ser provedora, o “macho alfa”, só assim conquistará quem quiser. 

O ressentimento descrito por Bruna não ficou restrito às redes sociais. O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto também utilizava esse vocabulário. Dois dias antes da morte de sua sua esposa, Gisele Alves Santana, em fevereiro de 2026, Geraldo enviou uma mensagem de texto por WhatsApp na qual dizia: “Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa:  com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser.” As demais mensagens também ressaltam a ideia de que o homem é provedor absoluto e a mulher é a extensão de sua vontade. 

O estopim da relação, segundo a acusação, foi o momento em que Gisele recusou o papel de submissão e pediu o divórcio. Para a acusação, a rejeição se pareceu com aquilo que os influenciadores ensinam a nunca aceitar e “legitimou” a morte de Gisele.

De volta ao conteúdo propagado, a projeção de lifestyle ideal na internet incentiva a todo custo o desenvolvimento massivo dos jovens. Em março de 2026, Louis Theroux, famoso documentarista britânico, lançou na Netflix seu mais novo documentário, Por dentro da Machosfera

No longa, Theroux passa meses com alguns dos principais nomes do movimento redpill para entender suas visões. Ele aprende como funciona a criação e divulgação do conteúdo e como esses profissionais interagem com o público. Dessa forma, o documentarista comprova que projetar um modelo inspiracional é o ponto chave de conexão entre o produtor do conteúdo e o consumidor. 

Quando o discurso sai das telas

“Quando um homem assume controle sobre você, ele não controla apenas seu corpo. Ele controla suas emoções, conhece suas dores, seus medos e seus pontos fracos. E quando descobre onde machuca mais, usa isso para manter o poder. Aos poucos, suas características pessoais são ignoradas, seus limites deixam de importar e você começa a acreditar que aquela realidade é permanente. Que aquilo é tudo o que você merece.”

Essa fala é de Gabriela, nome fictício utilizado para preservar sua identidade real. Durante dois anos, ela viveu um relacionamento que começou como tantos outros. Ele demonstrava carinho, enviava mensagens de bom dia, os dois faziam planos para o futuro e a sensação era de estar ao lado de alguém que a amava. 

Ocasionalmente, o namorado mencionava masculinidade, disciplina e o que chamava de comportamento masculino tradicional. Dizia admirar homens viris, fortes e dominantes. Mas naquele momento, ela não identificou um problema. Acreditava que tinha encontrado um homem responsável no meio de tantos infantis. Tinha tirado a sorte grande.

Ele sempre tinha controle das situações, pagava as contas em restaurantes, abria todas as portas. Para ela, era quase um príncipe. Até que o alvo do controle se tornou a própria Gabriela. O tamanho das roupas, os lugares onde ia, as pessoas que conversava. Tudo se tornou um tópico a ser controlado. Mas essa transformação não aconteceu de uma só vez.

Assim como os discursos extremistas da machosfera, os comportamentos abusivos em relacionamentos começam a aparecer de forma gradual, mas em vez das telas, isso acontece na vida da parceira. O que inicialmente é disfarçado de cuidado, proteção ou preocupação, se transforma em vigilância, uma justificativa para limitar a liberdade da outra pessoa.

Segundo ela, o ex-namorado consumia conteúdos relacionados à comunidade redpill e concordava com muitas das ideias disseminadas. Com o passar do tempo, os discursos assistidos nas redes sociais passaram a aparecer também dentro do relacionamento. Gabriela relata que com essa influência, a relação se tornou cada vez mais abusiva. Ela passou a ser vítima de agressões psicológicas e verbais e tudo piorou, quando a violência física começou por meio de mordidas, empurrões e apertões. 

Apesar de perceber que muitas situações não eram corretas, Gabriela buscava respostas justamente no mesmo ambiente onde aqueles discursos circulavam, nas redes. 

De forma similar a seu parceiro, ela começou a consumir vídeos nas redes sociais de homens ligados à masculinidade viril, mas direcionados ao público feminino. Nesses conteúdos, eles afirmavam que poderiam ensiná-las a serem melhores companheiras, mais femininas e mais compreensivas. Em vez de sinalizar os perigos de um relacionamento abusivo, reforçavam a ideia de que cabia às mulheres mudar seu comportamento para salvar a relação.

O parceiro a convencia de que suas reações eram exageradas. Os vídeos reforçavam que mulheres modernas e independentes eram difíceis de lidar. No meio dessas mensagens contraditórias, Gabriela passou a acreditar que precisava mudar para ser amada.

Histórias como a dela também são um exemplo de outro ponto importante: nem sempre a violência é física. Controle, manipulação e humilhação também são manifestações de comportamento agressivo e dentro dos discursos masculinistas online, são a forma correta de um homem se posicionar dentro da relação. 

A estratégia observada nas plataformas digitais (começar com conteúdos sobre uma vida perfeita e depois trazer ideais machistas) é semelhante à descrita pela entrevistada. Primeiro estabelece-se uma relação de confiança, depois apresentam-se ideias cada vez mais radicais. Esses relatos não aparecem em estatísticas nacionais sobre feminicídio ou violência doméstica. Não são manchetes de jornais e não envolvem operações policiais. Ainda assim, ajudam a compreender um aspecto fundamental da discussão sobre a machosfera: antes de se transformar em crime, a violência costuma ser construída no cotidiano.

Ela começa em comentários aparentemente inofensivos. Em vídeos de poucos segundos. Em conselhos sobre relacionamentos. Em discursos que prometem ensinar homens e mulheres a ocuparem seus “papéis naturais”. Aos poucos, essas ideias atravessam as telas e passam a fazer parte da vida real. E quando isso acontece, deixam de ser apenas conteúdo de internet. Passam a ser experiências vividas por pessoas como Gabriela.

Neoconservadorismo como base no Brasil

Mesmo sendo um assunto em alta na sociedade atual, a crise na masculinidade é antiga. Seu início histórico é apontado no século XX, no período pós-guerras, à medida que as mulheres se afastam do núcleo familiar e conquistam espaço no mercado de trabalho. Em oposição a esse movimento de emancipação feminina, o masculinismo surge como uma defesa à masculinidade viril e uma demonstração de insatisfação com os novos moldes da sociedade. 

De acordo com o pesquisador Francis Dupuis-Déri, o masculinismo se define como um “movimento social conservador ou reacionário, que afirma que os homens sofrem uma crise identitária porque as mulheres dominam a sociedade e as instituições.” Na internet, o movimento redpill propaga a narrativa de que os homens são as verdadeiras vítimas da modernidade e que as leis de gênero dão “privilégios” desmedidos às mulheres. Contudo, basta cruzar a fronteira do ambiente virtual e encarar a realidade do país para que essa fantasia seja desmascarada.

No Brasil, o masculinismo ganhou força com a ascensão do neoconservadorismo e se amplificou com a facilidade de compartilhamento de ideias nas redes sociais. Bruna Camilo, doutora e pesquisadora em gênero e misoginia pela PUC-Minas, considera as eleições de 2018 como um ponto central da popularização desses discursos no país, e afirma que os masculinistas encontraram em Jair Bolsonaro uma figura que representa suas principais ideias, principalmente a da “masculinidade viril”. Nesse cenário, as redes sociais se tornaram fonte de despejo de todo o ódio e ressentimento e os algoritmos, pilares da propagação. 

Bruna também cita Thiago Schutz, influenciador conhecido como Calvo do Campari, como o responsável pelo boom do movimento redpill no Brasil. O apelido surgiu após o influenciador contar um caso que teve com uma mulher em que ela lhe ofereceu uma cerveja, mas ele a recusou dizendo que só tomava Campari. Ao contar a história, ele reclama da “mania das mulheres de tentar mudar os homens”. Hoje, ele participa de podcasts falando sobre mulheres e sua experiência com elas.

Como todo discurso radicalizado, o preconceito não se dirige a apenas um grupo minoritário. Thiago já afirmou mais de uma vez que não se atrai por mulheres negras. Mesmo que possa parecer apenas uma preferência pessoal, a fala reforça a ideia de que mulheres pretas não são boas ou femininas o suficiente para relacionamentos românticos ou sexuais.

Além disso, ele também afirmou no podcast Club Cast em 2023 que leis de proteção à mulher deixam as mulheres mimadas e folgadas, levando-as a acreditar que podem fazer o que quiserem com outra mulher ou homem. O vídeo completo está fora do ar, mas a fala pode ser assistida aqui

O Calvo do Campari se tornou, na prática, o exemplo da aplicação de discursos online em crimes reais. Em dezembro de 2025, Thiago foi preso em flagrante após ser acusado de agredir a então namorada, Lais Angeli Gamarra. E esse não foi o primeiro caso: em 2023, ele havia sido acusado por ameaçar duas mulheres. O influenciador não é um caso à parte: a violência contra a mulher cresce no Brasil na mesma proporção em que figuras como Thiago Schutz ganham espaço.

Entre a lei e a realidade

Embora parte do discurso red pill defenda que homens são prejudicados pelas instituições e pela sociedade contemporânea, os indicadores sobre violência de gênero e desigualdade social revelam um cenário diferente. Os dados a seguir ajudam a dimensionar os desafios que ainda marcam a realidade de milhões de brasileiras.

Dados sobre violência de gênero e desigualdade no Brasil. Infográfico produzido em 7 jun. 2026 com auxílio do ChatGPT (OpenAI) para geração visual, a partir do prompt: “crie um infográfico que aborde todos esses dados”. A IA foi utilizada apenas para a elaboração gráfica; todos os dados, análises e fontes foram pesquisados e verificados independentemente

 

Segundo o advogado penal Marcelo Crespo, o movimento redpill em si só ainda não configura crime no Brasil. A responsabilização ocorre quando o discurso ultrapassa o campo da opinião e passa a envolver práticas como misoginia, assédio, perseguição, violência psicológica, ameaças ou outros crimes já previstos na legislação.  Para entender melhor como a punição nesses casos pode funcionar, vamos analisar dois casos: Gabriel Breier e Breno Faria.

O primeiro se trata de um influenciador que focava seu conteúdo no público adolescente, com a clássica narrativa do jovem rejeitado que mudou de vida por conta de dinheiro, academia e postura. Seu discurso prega abertamente que mulheres só têm interesse em homens de alto poder aquisitivo e que devem obedecê-los. Até o momento, a responsabilização em seu caso não ocorreu por meio de um inquérito da Polícia Federal (PF) ou de uma investigação conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF), mas principalmente pela exposição pública de sua imagem.

Tudo começou quando ele aceitou participar de uma dinâmica de debate com feministas promovida pelo Canal Foco. Nesse ambiente fora da sua bolha controlada do Instagram e TikTok, o criador perdeu o controle da narrativa. 

A punição desse caso ocorreu no formato de cortes de vídeo que expõem suas contradições, transformando-o em uma piada pública e fazendo com que sua autoridade com os próprios seguidores diminua. Além de causar o afastamento de  patrocinadores. Segundo a plataforma vidIQ, ferramenta que monitora dados dos canais do Youtube,  os vídeos curtos (shorts) de Breier tinham cerca de 189 mil visualizações até fevereiro de 2026, período em que participou do Canal Foco. Após o episódio, os cortes com seu nome ganhou força e os cortes chegaram a 680 mil visualizações em março, caindo nos meses seguintes. 

O outro exemplo é Breno Faria, também influenciador. Em seu quadro nas redes sociais “Café com teu Pai”, ele adotava uma estratégia onde se colocava como uma figura paterna substituta. Nos vídeos ele dava conselhos a mulheres sobre como agir para serem “assumidas” por homens de valor. Apesar de publicamente tentar se desassociar da bolha redpill, seu discurso replicava a mesma ideia. 

A punição no caso dele mostra como as autoridades passaram a enquadrar o discurso da machosfera como discriminação e violência. Foi aberto um inquérito pelo MPF para a investigar a contribuição do conteúdo para a disseminação de discursos preconceituosos. Enquanto isso, suas contas foram banidas das redes sociais. 

O motivo pela busca foi o fato de ele ser servidor ativo da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Um agente da lei deveria proteger a sociedade, não podendo promover discursos discriminatórios na internet, gerando conflito com o cargo público e atividade empresarial irregular. Com isso, o criador de conteúdo perde a proteção da “opinião pessoal” e passa a responder de forma civil e administrativa.

Mas não é sempre que pessoas que compartilham esse tipo de ideia são punidas, pelo contrário, a falta de monitoramento e punição das big techs abre espaço para o crescimento de comunidades em plataformas de comunicação, como o Discord

Um estudo lançado em dezembro de 2024 pelo NetLab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ), em parceria com o Ministério das Mulheres, aponta que canais da machosfera transformam a misoginia em lucro por meio de anúncios e doações ao vivo. 

Circulação do conteúdo Red Pill nas plataformas digitais. Infográfico produzido em 7 jun. 2026 com auxílio do ChatGPT (OpenAI) para geração visual, a partir do prompt: “crie um último infográfico com essas informações”. A IA foi utilizada apenas para a produção gráfica; a pesquisa, redação e checagem das informações foram realizadas integralmente pelas autoras

 

Com a falha em identificar a linguagem codificada, as redes continuam recomendando o conteúdo. Apenas quando a pressão social ou jurídica aumenta e um influenciador tem suas contas derrubadas ou desmonetizadas nas redes, seu “plano B” é acionado: migrar sua comunidade mais fiel para um ambiente sem fiscalização e julgamento público. 

Nesse contexto, o Discord é o refúgio ideal por conta da própria engenharia da plataforma, desenhada originalmente para a privacidade de comunidades gamers. As conversas no Discord acontecem em servidores privados e canais fechados, muitas vezes acessíveis apenas por convites estritos ou pagamento. 

Além disso, os próprios donos dos servidores administram seus canais. Na prática, se o dono do grupo é misógino, as denúncias internas de discursos de ódio são simplesmente ignoradas. 

Em servidores fechados, discursos de misoginia, racismo e apologia à violência são blindados sob a justificativa de serem apenas “ironia”. Essa falta de punição imediata normaliza crimes que seriam banidos em redes abertas. Em nossa imersão na machosfera, entramos nesses grupos e tivemos acesso às mensagens trocadas. Você pode ouvir a simulação em áudio das conversas aqui

Com o argumento da “liberdade de expressão” e da “privacidade” usado pelas big techs, a empresa do Discord frequentemente alega que não pode monitorar preventivamente conversas privadas sem violar os direitos dos usuários, agindo apenas a depois que o crime ocorre e é denunciado externamente.

O caminho à pílula

Ao longo da reportagem, entendemos muito sobre o contexto do discurso redpill. Mas uma pergunta fica: como adolescentes tão novos acabam sendo atraídos para esse universo?

Discussões como essa acontecem em outros contextos além de nossa pesquisa, como na minissérie Adolescência. Jamie Miller, de 13 anos, tem contato nas redes sociais com os discursos redpill e com a mentalidade ensinada, assassina uma colega de classe por rejeita-lo romanticamente.

A obra ajuda a entender como, no mundo real, as redes sociais deixaram de ser apenas ferramentas de entretenimento e passaram a ocupar o papel de redes de apoio emocional e identitário na vida de garotos adolescentes. 

Muitos jovens, ao enfrentar crises típicas da idade, como a sensação de não pertencimento, não encontram um apoio no mundo físico e por isso, migram para o digital. A internet oferece algo que o mundo real negou a eles: atenção imediata. 

Quando começam a fazer pesquisas relacionadas a essas dificuldades, por exemplo: “como vencer a timidez”, o algoritmo das redes faz o cruzamento de dados. O feed do usuário é inundado de criadores de conteúdo que parecem ter a vida perfeita e as respostas certas, exatamente o que vimos no Capítulo 1. 

O acolhimento se consolida com a interação coletiva. Jovens encontram um ambiente de apoio em grupos online com homens que vivem as mesmas frustrações. Esse suporte, tão desejado e até então não vivido, os torna vulneráveis para a aceitar discursos impostos. Assim, são introduzidos ao redpill. 

Esse cenário levantou questionamentos sobre fatores biológicos e psicológicos que influenciam os adolescentes. Para compreender melhor essas questões, foi entrevistada a psicóloga Edvany Lima. Ela explica que os jovens que entram nesses grupos costumam ser mais introspectivos e passam muito tempo isolados com telas, por isso acabam tornando-se alvos fáceis. 

Ela também aponta os problemas desses grupos que impõem um discurso pronto de dominação e superioridade, deixando de lado a autovalorização: “O garoto não pode ser sensível, cuidadoso, amoroso porque ele vai destoar desse lugar que é o esperado dentro desse grupo”, ela afirma. O adolescente não sabe onde ele é bom, no que pode fazer de melhor, ele é condicionado a apenas se encaixar. A longo prazo, o consumo constante desse material pode gerar adoecimento mental. Internamente, pode desencadear tendências depressivas. Externamente, pode evoluir para transtornos de conduta, ataques de raiva e comportamentos explosivos, conclui a psicóloga.

Por mais que a análise de Edvany nos ajude a compreender como os jovens se tornam adeptos ao redpill, não existiria uma melhor fonte para nos explicar se não um homem da comunidade. 

Encontramos Luka, nome fictício, em comentários masculinistas deixados por ele em publicações nas redes sociais. Em entrevista, o homem afirma que vivemos em uma sociedade empobrecida de informação e identidade, por isso, o discurso que valoriza a confiança e a não se submeter a pensamentos de terceiros se torna atrativo para os homens. 

“Eu acho que todo homem masculino e viril tem uma certa relevância positiva na sociedade”, diz ele. Em sua opinião, homens com pensamentos alinhados ao redpill formam uma rede de apoio para aqueles que querem “crescer na vida”.  Os ambiciosos se cercam de pessoas que vão os ajudar no processo, tendo inclusive a competitividade como incentivo. É com esse pensamento que homens masculinos de verdade expõem suas falas e opiniões infiltradas nas redes.

Como o Brasil enfrenta esse cenário?

O futuro é incerto, e Bruna Camilo não o enxerga com muito otimismo. Ela conta que, quando iniciou as pesquisas para sua tese – entre 2021 e 2022 -, “redpill” era apenas uma entre tantas palavras do vocabulário próprio da machosfera. Agora, redpill já é um movimento organizado, no qual os coachs possuem uma estratégia comum e estruturada para engajar e prender o público. 

Além disso, de acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, foram registrados 399 casos de feminicídio apenas no primeiro trimestre de 2025, uma alta de 7,55% em relação ao mesmo período do ano passado. Esse número representa uma média de uma morte a cada cinco horas e 25 minutos.

Apesar do cenário preocupante de violência, os esforços da sociedade e do governo para contornar o problema se encontram em maior evidência no debate público. Em 2026, o Governo Federal lançou o Pacto Nacional Contra o Feminicídio, conhecido como Campanha Todos por Todas

O site da campanha a define como “um compromisso dos Três Poderes para focar em medidas de enfrentamento contra o feminicídio e pela garantia da vida de meninas e mulheres”. Além de incentivar a responsabilização por violências cometidas contra mulheres, a campanha propõe ações de conscientização sobre os direitos femininos e o enfrentamento da violência de gênero.

Outra medida importante é o PL 896/2023, conhecido como Lei da Misoginia. O projeto enquadra a misoginia nos crimes de preconceito e discriminação, cuja pena é de dois a cinco anos de prisão, além de multa e impossibilidade de fiança. O texto foi aprovado no Senado em março de 2026, com 67 votos a favor e nenhum contra, e agora segue para votação na Câmara dos Deputados. Ainda não se tem uma data para a votação, mas os articuladores do projeto esperam que ela seja realizada ainda no primeiro semestre do ano.

Com as medidas do Governo e as campanhas de conscientização, a coragem também nasce nas mulheres. De acordo com a psicóloga Edvany Lima, as mulheres têm maior facilidade em reconhecer padrões de comportamento abusivo e, mesmo que não saibam como sair do ciclo de violência, têm mais coragem para pedir ajuda quando se sentem pertencentes socialmente e são apoiadas. “É muito importante dar voz a essas mulheres que por vezes se mantêm em situação de violência por não saber que têm outras possibilidades. É imprescindível ajudar para que a mulher desenvolva autoconfiança”, afirma Edvany.

É preciso não apenas enfrentar a violência, mas preveni-la. Um perpetuador do ciclo é a falta de conhecimento de outras realidades. “‘Como vou reclamar de algo que não sei que pode ser diferente do que estou vivendo?’ É preciso educar a todos com conversas e exemplos do dia a dia”, explica Edvany. A principal arma para combater a misoginia – seja a clássica que conhecemos ou sua adaptação para o mundo digital – é a educação, para que o abuso não seja normalizado e se encerre o ciclo de violência.

*Trabalho realizado na disciplina de Grande Reportagem, sob orientação do professor Antonio Rocha Filho.