Beatriz Rigoli e Júlia Delgado (1o. Semestre)
A parlamentar federal discutiu como o preconceito de gênero muitas vezes sobrepõe-se às suas pautas legislativas e detalhou a tramitação da PEC pelo fim da escala 6×1.
Deputada Érika Hilton durante a palestra realizada na ESPM-SP. Foto: Júlia Delgado
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) afirmou em uma palestra na ESPM que a imprensa tem um papel fundamental contra a desinformação e destacou que, embora a comunicação seja essencial para a democracia, interesses econômicos e o preconceito estrutural muitas vezes dificultam a visibilidade de sua agenda técnica em detrimento de sua identidade pessoal. A parlamentar conversou com os estudantes em um auditório lotado, durante o “Politizando”, evento organizado pelo Centro Acadêmico 4 de Dezembro (CA4D), para promover a reflexão política entre os estudantes.
“Eu não acordo pensando que eu sou uma pessoa trans, que eu sou uma travesti. É o outro que não esquece isso”, pontuou. Segundo a deputada, sua imagem é frequentemente associada a episódios de violência e transfobia em vez de suas ações no Congresso. “Eu sou lembrada pela violência, pela chacota, pela exposição, pela ridicularização, mas quando eu me levanto da minha cama, eu sou só eu, Erika Hilton”, disse.
“A imprensa tem um papel fundamental em levar a informação, dar voz a essas pautas, combater a desinformação, mas os interesses econômicos que estão por trás muitas vezes atrapalham esse papel”, reforçou.
Primeira mulher negra e trans eleita para a Câmara dos Deputados, Erika Hilton relatou como o estigma social ainda pauta sua relação com o espaço público. Eleita vereadora em 2020 com a maior votação do país para o cargo naquele ano, Erika Hilton consolidou sua trajetória na defesa dos direitos humanos antes de se tornar a primeira mulher negra e trans eleita para a Câmara dos Deputados na história do Brasil. Filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).
Atualmente na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, Hilton mencionou os ataques que recebe de setores que questionam sua legitimidade no cargo. “Elas ficam dizendo que existem mulheres de verdade, mulheres de mentira, mas a maneira com a qual elas me tratam me faz ter certeza de que eu sou uma mulher de verdade. Se eu fosse um homem, elas não me tratariam desta forma”, afirmou.
Pautas legislativas e escala 6×1
A deputada também detalhou o andamento da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6×1, visando a redução da jornada de trabalho para o modelo 5×2. Segundo Hilton, a pauta mobilizou diversos setores da sociedade, mas enfrenta resistência nos bastidores do Poder Legislativo.
“As pessoas me abordam na rua perguntando da 6×1. Eu falo: calma, vai acabar, estou fazendo o que posso, mas não depende só de mim. Tem um bando de gente trabalhando contra mim o tempo todo publicamente e nos bastidores”, relatou. A parlamentar destacou que a próxima votação sobre o tema está prevista para o dia 22 de abril na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
Ao abordar a pauta da criminalização da misoginia, Hilton criticou o que chamou de “meninos mimados” que não compreendem a autonomia feminina. “Mulher não é bicho, mulher não é coisa, e as mulheres não foram criadas para servir”, afirmou. Como exemplo da gravidade do tema, a deputada citou o caso da Policial Militar Gisele Alves Santana, assassinada em fevereiro pelo marido, o tenente-coronel da PM de São Paulo, Geraldo Leite Rosa Neto, que teve grande repercussão nacional.
Para a parlamentar, o aumento da violência e do conservadorismo é uma reação à ocupação de espaços de poder pelas mulheres. “A liberdade é algo que assusta o fascismo, porque as mulheres, como uma totalidade, já alcançaram muitos direitos e, ao fazerem isso, são colocadas em lugares e cargos altos da sociedade. E isso, aos olhos do patriarcado, não é algo normal”, analisou. Ela relacionou a “onda conservadora” entre jovens à tentativa de manutenção de estruturas de poder tradicionais e criticou a decisão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, pelo corte orçamentário na secretaria das mulheres que, segundo ela, é uma política pública que recebe menos que a publicidade institucional.
Sobre a ascensão do conservadorismo entre jovens, Hilton relacionou o fenômeno ao que chamou de “espantalhos morais”. “Se eles [setores conservadores] garantirem muita liberdade, muita diversidade, os homens não vão conseguir exercer seu poder”, analisou, ao comentar sobre a resistência do patriarcado à ocupação de cargos altos por mulheres.
A deputada também criticou a atuação dos veículos tradicionais de comunicação, pontuando que o debate de temas sociais urgentes tem ganhado fôlego principalmente através de mídias independentes e da democratização da internet.