Por que os livros são mais bem avaliados que suas adaptações para o cinema

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Em 2026, obras literárias como “Razão e Sensibilidade”, “Verity” e “A Hipótese do Amor” chegarão aos cinemas. Foto: Cottonbro/Pexels

Ana Júlia Pontes, Clara Verdous e Julia Aguirre (5º semestre)

Você já terminou um livro, criou uma versão perfeita da história na sua cabeça, imaginou como tudo seria, colocou rosto aos personagens e cores das paisagens e, ao assistir à adaptação, sentiu que algo estava faltando? Se sim, você não é o único. Apesar das exceções, a maioria dos livros ainda se sobressaem em notas quando comparados às suas adaptações. O Portal de Jornalismo da ESPM-SP analisou oito obras literárias que tiveram suas adaptações lançadas em 2026. Com uma discrepância maior em alguns casos e menor em outros, todos seguem a tendência de que os livros possuem melhores avaliações que seus respectivos filmes adaptados para o audiovisual.

A relação emocional entre os leitores e as obras literárias ajuda a explicar por que as adaptações costumam ser recebidas com mais rigor pelo público. Para Tiago Valente, mestre em Letras pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), ator e criador de conteúdo literário, o tempo de convivência com uma história cria um vínculo que vai além da leitura. “Quando a narrativa é bem-sucedida em construir essa identificação, a expectativa do leitor ao redor de uma adaptação cinematográfica ou televisiva se torna mais exigente e criteriosa”, afirma. 

Segundo ele, a leitura é uma experiência subjetiva, em que cada pessoa imagina os acontecimentos da própria maneira. Por isso, quando o cinema apresenta uma única versão daquela história, muitas vezes a que o leitor não imaginou e as chances de frustração aumentam. Tiago explica que “uma adaptação cinematográfica é construída a partir de uma única escolha dentre todas as diversas e quase infinitas possibilidades de ritmo, elenco e ambientação”.

Já para Daniela Curi, leitora de romances e adaptações literárias, a experiência de conhecer uma história pelas páginas dos livros é diferente de todas as outras. Antes de assistir a qualquer adaptação no cinema ou nos streaming, ela prefere ler a obra original. Isso porque, para ela, a leitura permite que cada pessoa construa os personagens, cenários e acontecimentos de forma única, fazendo com que exista uma conexão individual com a narrativa, diferente do que acontece no filme. Quando a história chega às telas, a percepção dos leitores se divide entre aquilo que foi imaginado e a visão apresentada pelos produtores da adaptação. “Você imagina as coisas do seu próprio jeito e depois compara com o que está retratado no filme”, explica Daniela.

“As pessoas que esperam que seja igualzinho ao livro não entendem o conceito de adaptação para filme”, afirma a leitora. Ainda assim, ela acredita que existe um elemento indispensável para conquistar os leitores: preservar a essência da obra. “Pode mudar histórias, partes da história, aparência dos personagens, mas contanto que tenha a mesma essência e traga os mesmos sentimentos que a gente vê no livro”. 

O que dizem as bilheterias

Apesar das análises e opiniões do público serem mais favoráveis aos livros, o cinema continua em movimento. Em 2026, entre as obras adaptadas, “Devoradores de Estrelas” teve o maior desempenho e arrecadou mundialmente US$ 675 milhões, seguido por “A Empregada” com a bilheteria de US$ 399,6 milhões. Isso reflete a fala do jornalista quando afirma que a adaptação tem seu valor como obra cinematográfica independente. Gostar ou não da transposição para o cinema, não precisa, necessariamente, fazer dela um filme ruim.

Segundo o jornalista e crítico de cinema Lello Lopes, um dos principais fatores que explicam as diferenças entre as avaliações de livros e filmes adaptados está na relação afetiva que o público cria com a obra original. Para ele, fãs de livros costumam construir expectativas muito específicas sobre personagens, cenas e atmosferas, o que torna mais difícil aceitar mudanças feitas no cinema. Essa percepção aparece diretamente nos dados do gráfico, em que todas as obras literárias analisadas receberam notas superiores às adaptações cinematográficas. Casos como “Uma Segunda Chance” e “O Morro dos Ventos Uivantes” mostram diferenças expressivas entre as avaliações, reforçando como a expectativa dos leitores pode influenciar a recepção dos filmes.

Para o crítico, as redes sociais e as comunidades de fãs também intensificam as críticas às adaptações, ampliando reações negativas quando os filmes se afastam das expectativas dos leitores. Ele ainda afirma que, muitas vezes, os estúdios acabam tentando agradar excessivamente os fãs mais engajados, o que pode comprometer a construção de um filme como obra independente. 

A febre de adaptações literárias continua ainda em 2026. Alguns livros deixarão de ser tinta no papel e ganharão cores e rostos no cinema. Previstos para o segundo semestre deste ano, “Razão e Sensibilidade”, “Verity”, “A Hipótese do Amor”, “Duna: Parte Três”, “Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita”, e “A Odisseia” chegam às telas. Será que os próximos cartazes vão conseguir superar a expectativa do público e pela primeira vez ultrapassar a nota da obra original?

Nota metodológica 

A reportagem foi principalmente guiada pela coleta e cruzamento das notas de filmes adaptados de obras literárias com seus respectivos livros originais. As planilhas seguem dados oficiais da Amazon (com as notas dos livros) e do IMBb (notas dos filmes e dados de bilheteria). Os dados da bilheteria serviram como um apoio para mostrar que a tese comprovada não anula o sucesso dos filmes como obras independentes, apenas retrata as críticas desses filmes como adaptações do literário para o cinematográfico. Realizamos entrevistas com duas fontes especializadas (uma em livros, outra em filmes) e uma personagem para ajudar na análise das individualidades de críticas neste contexto.