O peso do sonho: abuso sexual e relações de poder no esporte de base

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Felipe Jacobsen, Gabriel Sanches e Guilherme Telles (3º semestre de Jornalismo)*

*Trabalho realizado na disciplina de Grande Reportagem, sob orientação do professor Antonio Rocha Filho.

Capítulo 1: Fica quietinho

No dia 11 de janeiro de 2026, um menino de 13 anos atravessou 773 km em uma viagem de ônibus rumo a Coronel Macedo, no interior de São Paulo. O jovem, que mora e joga no Rio de Janeiro, havia sido convidado para representar o Atlético-GO em um campeonato. Preocupada em deixar o enteado sozinho, sua madrasta pediu que Jane, uma mulher na qual confiavam, o acompanhasse durante a viagem.

O menino, sua companheira de viagem e aproximadamente outras 40 crianças tiveram que fazer suas camas no chão ao chegar ao alojamento. Até que no meio da madrugada o garoto acordou ao ouvir um homem que estava nitidamente alterado entrando no quarto. Era o motorista do ônibus do Atlético-GO. Ele estava fumando um cigarro, até que percebeu a presença de Jane e apontou a lanterna em sua cara, questionando quem era e a mandando sair de lá.

Depois da confusão, o jovem ligou para sua madrasta, Camila Marque, para contar o que havia acontecido. Preocupada com o enteado que criou como se tivesse saído do próprio ventre, instruiu que os dois fossem a um hotel próximo, mas o treinador ameaçou tirar do campeonato quem saísse do alojamento.

Algum tempo após o ocorrido, o clube conseguiu um outro local para alocar os jovens jogadores, um salão paroquial de uma igreja da região, onde seriam servidas refeições para os atletas. Lá o menino percebeu algo estranho: o cozinheiro que devia ter entre 30 a 40 anos começou a elogiar seu corpo, seus músculos…

Durante uma das noites o homem começou a segui-lo. Com medo o garoto fugiu para o banheiro, onde conseguiu trancar a porta da cabine, deixando o predador do lado de fora e por mais que isso tenha impedido uma possível violência, não impossibilitou o assédio. O cozinheiro ficou do outro lado da porta tentando convencer o garoto a sair:

“Vai ficar tudo bem, eu não quero nada sério.”

O menino, apesar de apavorado, conseguiu gravar a conversa com o assediador, um áudio que dura sete minutos, mas que até o momento não foi divulgado na íntegra. Depois de colher as provas para realizar uma futura acusação judicial, o jovem tomou coragem, abriu a porta e saiu correndo despistando o cozinheiro. Quando foi buscar ajuda de Wagner, uma figura de autoridade que representava o clube no alojamento, foi ameaçado:

“Fica quietinho com o que aconteceu lá, se você contar para alguém você vai se ver comigo.”

Apesar da afronta de Wagner,  o menino contou tudo que aconteceu para sua madrasta que revoltada compartilhou o depoimento do enteado nas redes sociais. O caso está em processo de investigação judicial e depois da repercussão que o relato causou na internet o Atlético-GO se pronunciou de forma oficial em nota:

“O Atlético Goianiense condena abominavelmente qualquer forma de assédio moral ou sexual contra crianças e adolescentes. Tais comportamentos são inadmissíveis e não representam, em hipótese alguma, os princípios que regem este Clube.

É importante ressaltar que os fatos relatados ocorreram fora das dependências do Atlético Goianiense, especificamente em um alojamento disponibilizado pela organização do torneio no interior do Estado de São Paulo.

No entanto, isso não exime o nosso compromisso com a verdade. O Clube assegura que não poupará esforços para buscar o total esclarecimento do ocorrido e auxiliará as autoridades competentes na responsabilização criminal e civil de qualquer pessoa que tenha causado danos emocionais, físicos ou morais ao menor e sua família.”

Após ler sobre o caso começamos a refletir sobre como o ambiente esportivo de base brasileiro torna as crianças que o frequentam mais vulneráveis. Então, ao pesquisar mais sobre o assunto percebemos que isso era um problema estrutural.

Encontramos na internet uma audiência realizada na Câmara dos Deputados, em 2019, na qual o jornalista Breiller Pires, então repórter do El País e hoje na ESPN, contou ter identificado 150 casos de assédio e abuso ligados ao futebol de base entre 2011 e 2019, uma média aproximada de 20 denúncias por ano.

O número por si só já chamou a nossa atenção, mas ao pesquisar mais a fundo vimos que pode representar apenas uma pequena parcela da realidade brasileira. Isso porque, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social de São Paulo, apenas 7% dos casos de violência sexual no Brasil são denunciados. A partir disso, estima-se que os 150 registros levantados por Breiller poderiam indicar um universo de mais de 2 mil ocorrências reais, no qual cerca de 1.993 delas nunca teriam sido formalmente denunciadas.

Na época, pensamos em escrever uma reportagem apenas sobre abusos que ocorrem dentro do ambiente do futebol de base, mas ao longo de quatro meses de apuração, percebemos que o buraco era bem mais embaixo. Encontramos um estudo publicado na pela revista científica Journal of Interpersonal Violence, que reúne depoimentos de 857 atletas brasileiros sobre suas experiências em esportes antes dos 18 anos. Entre eles, 63% relatam já ter sofrido violência sexual antes de atingir a maioridade.

Infográfico: Felipe Jacobsen

Capítulo 2: Antes da água escurecer

Recife, na década de 1990, era uma cidade de contrastes quentes. O sal do mar impregnava as roupas estendidas nas janelas. Entre ruas arborizadas, muros altos e tardes abafadas pelo calor pernambucano, crescia uma menina que frequentava escola particular e morava com seus pais e dois irmãos na casa de número 100 da rua Marquês do Paraná, no bairro do Espinheiro, uma região nobre da cidade.

Rua Marquês do Paraná, nº 100, Recife. Foto: Reprodução Google Maps

Essa garota tinha os dedos enrugados de cloro e o cabelo castanho constantemente úmido devido às frequentes idas à piscina, onde encontrava uma sensação única de pertencimento. A menina não se lembra de como foi sua primeira experiência na água, só da sensação de curiosidade que o desconhecido gerava. Isso porque aos três anos foi colocada na natação para aprender a sobreviver em uma cidade na qual as piscinas e as praias são parte da rotina de quem cresce cercado pelo mar.

Constantemente escutava dos mais velhos que tinha uma personalidade forte, já que sempre questionava as regras antes de simplesmente aceitá-las. Devido a isso, quando alimentava sua paixão por filmes, se identificava com personagens disruptivos como a Pocahontas. Em seu filme preferido, gostava especialmente da cena final, quando a protagonista decide não abrir mão de quem era pelo seu par.

Cena final do filme Pocahontas. Foto: Reprodução do filme

A sua infância seguia o roteiro típico das famílias recifenses de classe média da época. No verão, o litoral. No inverno, o interior seco do semiárido, onde o vento quente atravessava a paisagem áspera do agreste. Sua mãe, médica geriatra, era quem sustentava financeiramente a casa, enquanto seu pai, vendedor, ocupava um papel mais afetivo e presente no cotidiano dos filhos.

Além dele, outras duas pessoas que frequentemente passavam tempo com a garota eram sua avó e tia-avó. Sempre que possível ia dormir em suas casas, já que moravam perto. Devido a esse laço familiar, ambas constantemente a acompanhavam para o treino de natação no Clube Português do Recife, onde teve seu primeiro contato com o esporte.

Clube Português de Recife. Foto: Reprodução Clube Português

Desde muito cedo, percebeu que tinha uma facilidade dentro da água que não havia encontrado em outros esportes. Ao contrário das outras meninas que enxergavam o treino como um sofrimento, a garota encontrava na natação um ambiente seguro, onde podia se divertir. Portanto, como já havia entendido que tinha uma predisposição para a modalidade, para ela era uma questão de lógica, “quanto mais tempo me dedicar a isso, melhor vou ficar”.

Então, todos os dias antes da escola, a futura atleta ia para o clube treinar e quando se arrumava para entrar na água, ao abrir a mochila subia aquele forte cheiro de cloro. No local onde praticava, havia três piscinas: a infantil, a de 25 metros e a de 50. Enquanto a menina treinava na de 25, ela observava os atletas que estavam nadando na de 50, com o intuito de entender seus movimentos e aprender com eles. Pelo seu olhar obstinado ficava claro seu desejo de estar lá.

No entanto, quando começou a competir não foi fácil. A garota sofria muita ansiedade antes de entrar na água, mas quanto mais treinava, mais preparada se sentia e essa sensação foi ficando cada vez mais fraca. Porém não eram só os treinos que a deixavam mais forte, o apoio e a presença da sua família que lotava as arquibancadas sempre foram muito importantes. Porém, no ano de 1995, no Clube Português ela conheceu um homem que mudaria sua relação com o esporte, um treinador chamado de Eugênio Miranda:

“Olá, pequena, qual é seu nome?”

“Joanna, Joanna Maranhão.”

Joanna na infância, na época em que teve o primeiro contato com o treinador. Fotos: Arquivo pessoal

Apesar do esforço, foi só naquele ano, aos oito anos de idade, que Joanna venceu seus primeiros campeonatos e isso coincidiu com o fato dela ter começado a ser treinada por Eugênio. Para ela, era mais natural ouvir o que ele ensinava e reproduzir na prática do que compreender as explicações do professor na escola e repetir o conteúdo nas tarefas de casa. Notando sua proficiência na modalidade, o treinador foi o primeiro a dizer aos pais da menina: “Eu posso fazer com que a Joanna chegue lá, eu tenho o caminho!”

Então, constantemente ele a elogiava, dizendo como era talentosa, algo que no fundo Joanna já sabia, mas a confirmação vinda de alguém que ela admirava significava muito para a garota, e sem perceber, a confiança que construía nesse homem começava lentamente a abrir espaço para o trauma que marcaria sua vida.

Capítulo 3: O medo de acordar

No início da nossa apuração começamos a procurar pessoas que pudessem nos ajudar a entender por que tantos casos permaneciam em silêncio. O primeiro nome que nos veio à cabeça foi o do ativista Alê Montrimas. Ex-goleiro que sofreu assédio sexual no ambiente esportivo aos 14 anos e hoje atua no combate à violência nas categorias de base. Ao lado do Sindicato dos Atletas de São Paulo, criou a campanha Chega de Abuso, voltada à prevenção de casos de assédio e abuso sexual contra menores no futebol brasileiro. No dia 18 de março, entramos em contato com Alê pelo Instagram e parecia certa uma entrevista para o dia 31.

Enquanto aguardávamos, também pensamos em procurar o jornalista Breiller Pires, responsável por reportagens sobre abuso sexual nas categorias de base do futebol brasileiro publicadas pelo El País. Sem encontrar um contato disponível na internet, tentamos falar com ele pelo LinkedIn. Para nossa surpresa, dois dias depois, ele nos respondeu. Trocamos algumas mensagens e decidimos deixar a entrevista para abril. Breiller passava os últimos dias de março ocupado finalizando um projeto.

No entanto, não foi só com o jornalista ex El País que tentamos entrar em contato no dia 21 de março. Quando estava pesquisando sobre a história de Alê, vimos que ele trabalhava com frequência em sua campanha, Chega de Abuso, com a assistente social do Sindicato dos Atletas de São Paulo, Silvana Trevisan.

A entrevista com Alê nunca aconteceu. No dia marcado, precisamos remarcar por conta de imprevistos e, nas semanas seguintes, apesar de novas tentativas de contato, a conversa nunca chegou a acontecer.

Durante esse período, continuamos a reportagem como pudemos. No dia 16 de abril conversamos com Breiller. Após alguns minutos de papo perguntamos:

“O que mais te chocou quando você começou a ir mais a fundo na apuração?”

“Então, o começo da apuração foi difícil porque ninguém queria falar sobre o tema.”

Ele nos contou que no início tentou ouvir dirigentes, treinadores, ex-jogadores, alguns atletas, mas que só tinha a seguinte resposta: “Não, eu falo sobre qualquer tema, mas isso daí eu não quero me meter, não quero me comprometer.”

No entanto, o mais complicado era chegar até as vítimas. Além de ser um assunto sensível, muitos casos envolviam menores de idade e dependiam da autorização da família, isso quando não estavam protegidos por segredo de Justiça.  De certa forma nós também já estávamos vivenciando uma dificuldade similar ao longo da apuração. Não achamos que tenha sido o caso de Alê, mas tentamos contato com mais quatro vítimas e nenhuma delas quis compartilhar sua história.

Um dos atletas que tentamos contato compartilhou com a gente que faz terapia e ainda leva muito para as sessões a questão do trauma que sofreu na infância: “Ainda é muito difícil falar sobre o assunto.”

Para nós, jornalistas, encontrar vítimas que estejam dispostas a falar não é fácil, mas para os jovens atletas, denunciar é algo ainda mais complexo. Pelo menos isso é uma das coisas que aprendemos com Breiller:

“O atleta na base, ele é orientado o tempo inteiro por dirigentes, por treinadores, por empresários, é só jogar bola, é só pensar no futebol. E vale tudo pelo sonho de chegar no profissional. E isso faz com que as vítimas não tenham mecanismos para denunciar, porque elas sentem medo de perder a chance da carreira, caso, levante a mão e fale: ‘Olha, fui abusado pelo meu treinador. Eu sofri assédio de um dirigente’.”

Muitas vezes o silêncio acontece pelo desejo de manter um sonho vivo, ou talvez pelo medo de acordar. Dados do FutDados, mostram que a chance de se tornar um jogador de futebol profissional no Brasil é de aproximadamente 1%.

Ao terminar de conversar com Breiller, paramos para pensar que na maioria das vezes, o esporte em geral, não só o futebol, se apresenta como uma das únicas oportunidades de ascensão social para as crianças e talvez isso torne o ambiente esportivo extremamente vulnerável para menores. Buscando entender melhor essa relação, conversamos dia 22 de abril com Silvana Trevisan. Quando perguntamos sobre a vulnerabilidade desses atletas, ela respondeu:

“Esses jovens que muitas vezes vêm de uma condição financeira mais frágil se tornam alvos, porque eles estão em busca desse sonho para tirar a família daquela condição que a família vive.”.

Sabendo disso, os abusadores entendem que existe uma relação de poder no ambiente esportivo e exploram isso ao máximo. Silvana nos disse que os jovens frequentemente escutam dos predadores o seguinte: “Olha, para você conseguir ir pro time principal, você precisa me fazer esse favorzinho, né?”.

Ao fim da conversa, como ainda não tínhamos encontrado ninguém disposto a compartilhar a própria história, perguntamos:

“Você conhece algum atleta que toparia conversar com a gente?”

“Bom, eu tenho o contato da assessora da Joanna Maranhão.”

Capítulo 4: Debaixo d’água

             Após conhecê-lo em 1995, em alguns meses, Eugênio se tornou uma espécie de figura paterna para Joanna. Com frequência a buscava em casa para levá-la aos treinos e a trazia de volta posteriormente. Seus pais, inocentemente, depositavam muita confiança naquele homem que aos poucos foi se tornando mais que somente um treinador.

Eugênio e sua família mantinham uma relação muito próxima de amizade com a de Joanna. Constantemente se visitavam e enquanto os pais conversavam, ela brincava com os filhos do treinador. Um desses filhos era talentoso como Joanna, então ambos e algumas outras crianças recebiam atenção especial de Eugênio. Depois do treino, havia momentos que ele dizia para os jovens atletas: “Sai todo mundo da piscina, só a Joanna fica!”.

Durante esses momentos, inicialmente dedicados a uma espécie de instrução particular, a garota se sentia especial, como se o treinador realmente quisesse vê-la alcançar seu sonho de participar das Olimpíadas de Atenas aos 17 anos. Cada medalha parecia confirmar que Eugênio era o responsável pela sua evolução e por conta disso ela faria qualquer coisa que ele pedisse.

Em 1996, Joanna acompanhada de Eugênio, aos nove anos deixou o Clube Português e passou a treinar no Clube Náutico Capibaribe, lugar onde não teria muitas memórias positivas. Foi lá que, durante uma das aulas particulares após o treino, o treinador passou dos limites pela primeira vez.

Clube Náutico Capibaribe. Foto: Reprodução Náuticonet

Confusa e sem saber muito bem o que era aquilo, a jovem atleta, que sempre foi muito questionadora, refletia sobre o porquê do seu treinador que tanto admirava estava tocando em seu corpo. Inocentemente tentava relacionar o abuso com a natação. “O que será que ele está tentando me ensinar?”, se perguntava.

Com o tempo, as idas à piscina que antes eram prazerosas se tornaram motivo para medo e ansiedade.  Dentro da água, enquanto pedia para ela continuar sorrindo, o treinador puxava o maiô de Joanna para o lado e começava a tocá-la de maneira invasiva.

Gradualmente, ao ver que a menina não reagia e que não havia contado a nenhum adulto, o treinador passou a abusar dela com mais frequência. Os episódios deixaram de acontecer somente na água e passaram a ocorrer também no vestiário. Então, ainda sem entender direito o que estava acontecendo, ela perguntou a outras garotas:

“O treinador já tocou em vocês de algum jeito estranho?”

“Claro que não”, responderam rindo.

Foi aí que Joanna passou a se questionar se seu maiô estava cavado demais, se havia feito algo para receber aquele tipo de tratamento. Se sentia suja e mal sabia na época que tinha sido apenas uma das vítimas de Eugênio.

Então, ela buscava formas de evitar ir ao treino e para se sentir mais segura, parou de usar brincos, passou a vestir roupas folgadas e cortava seu cabelo para deixá-lo bem curto. Queria ser confundida com um menino.

Seu desempenho dentro da piscina caiu. Joanna ainda conquistava medalhas no Norte-Nordeste, principal torneio que disputava na época. Mas já não nadava como antes,  existia agora uma insegurança ao competir.

Joanna quando criança na natação. Foto: Arquivo pessoal

Em casa não conseguia mais dormir sozinha e quando sua família que sempre esteve por perto, perguntava o porquê, ela respondia algo como: “Eu to com medo de ir mal na prova.”

Não conseguia falar sobre o assunto, porque não o entendia e nem tinha vocabulário para isso. Mas mesmo assim, tentou buscar ajuda de sua mãe:

“Mainha, acho que o treinador tentou me dar um beijo…”

“Não filha, você deve ter entendido errado, ele jamais faria algo assim.”

O abusador havia conquistado a confiança da família Maranhão que nem imaginava pelo que a menina estava passando. Até que um dia Joanna não conseguiu mais suportar. Eugênio a levou para casa dele, só que daquela vez não havia ninguém por perto.

O homem que uma vez admirou a levou para o seu quarto, onde Joanna sentiu seu coração acelerar, seguido por um extremo desconforto a ponto de entrar em desespero e gritar para que Eugênio parasse. Se tivesse ficado quieta, Joanna acredita que as coisas poderiam ter sido ainda piores.

Foram seis meses de abusos constantes. Mas o ocorrido na casa do técnico foi a gota d’água suficiente para a piscina transbordar. Sem mencionar o que houve, pediu para mãe que a trocasse de clube, de escola e de treinador. Justificou dizendo que não estava nadando bem e queria praticar de tarde, mas o verdadeiro motivo estava engasgado em sua garganta.

Em 1997, quando Joanna precisou pegar carona com seu novo treinador, as consequências do trauma se manifestaram. Ao entrar em seu carro, pensou “ele vai desviar o caminho e vai fazer alguma coisa comigo”. Quando chegou em casa, depois de ficar o percurso inteiro calada ouviu do novo treinador:

“Até amanhã, Ju!”

Nesse momento, a menina sentiu uma mistura de alívio com dúvida. Não entendeu a atitude do novo professor, para ela o comum seria que ele desviasse o caminho, abusasse dela e só depois a levasse para casa.

Anos em silêncio se passaram até finalmente conseguir digerir o que aconteceu no segundo semestre de 1996. Devido a isso, o trauma que viveu enquanto treinava no Náutico esteve guardado a sete chaves no seu inconsciente por um longo período.

Aos 17 anos, Joanna realizou o sonho de disputar a Olimpíada de Atenas, em 2004. Na época, ela competiu sem a lembrança de ter sido estuprada na infância e teve seu melhor desempenho olímpico, sendo finalista e terminando em 5º lugar nos 400 metros medley. No entanto, depois que o peso das memórias tomou conta de sua mente, era como se toda vez que competisse, nadasse carregando uma bola de ferro.

Aos poucos foi trazendo essa questão para terapia e depois contou para alguns familiares e amigos. Alguns reagiram revoltados com a situação:

“Como assim você quer deixar isso para lá?” questionou um amigo.

“A minha carreira está acontecendo, não quero ir atrás disso agora.”

Apesar de na época ainda ser muito difícil falar sobre o assunto, a atleta se sentiu acolhida ao compartilhar. No entanto, ninguém sabia direito o que fazer diante da situação. Por conta disso, foi só em 2008 que o caso veio a público e a família procurou a Justiça.

A denúncia foi feita, mas Joanna já tinha 21 anos e na época a lei funcionava de uma maneira diferente. O prazo para que crimes sexuais contra crianças fossem julgados começava a contar a partir do momento em que o abuso acontecia, não quando a vítima criava coragem para denunciar. Então, enquanto Joanna ainda tentava entender o que havia vivido e lidava sozinha com o trauma, o tempo corria contra ela na Justiça. Quando finalmente falou publicamente sobre os abusos, o crime já havia prescrito.

Hoje, graças à lei que leva seu nome, o relógio começa a contar quando a vítima completa 18 anos, dando mais tempo para denunciar. No entanto, na época, sem respaldo legal para denunciar Eugênio criminalmente, Joanna viu a situação se inverter diante dos seus olhos. O homem que a abusou durante a infância passou a processá-la por calúnia.

Durante cerca de dez anos, o ex-treinador tentou arrancar dinheiro dela e de sua mãe, alegando sua inocência ao dizer que a acusação seria uma forma de Joanna chamar atenção para si, desviando a mídia de uma série de críticas que vinha fazendo à sua atuação esportiva. Na época, seu advogado, Carlos Gil, disse: “Eugênio entende que foi eleito o bode expiatório”. A atleta venceu todas as ações judiciais de calúnia movidas por Eugênio, mas nunca o viu condenado pela acusação de abuso.

Capítulo 6: Para além do sonho

Depois de ouvirmos relatos sobre silêncio, medo e abuso nas divisões de base, ainda restava uma dúvida: o que acontece quando a violência termina, mas continua dentro do atleta?

Foi tentando entender essa pergunta que, no dia 11 de maio, conversamos com César Medeiros, psicólogo do esporte. Antes de falar sobre clubes ou denúncias, ele voltou para a infância. Segundo César, essa fase forma crenças que acompanham o indivíduo na vida adulta. Quando o abuso acontece nesse período, pode atingir a autoestima, a autonomia, a segurança e a relação com figuras de autoridade.

A partir daí, a denúncia deixa de ser apenas o momento em que a vítima decide falar. Passa a depender também de quem estará do outro lado para escutar. Dados do IBGE mostram que somente 30% dos municípios brasileiros têm cobertura dos Centros de Referência Especializado de Assistência Social, os Creas, para onde vítimas de violência devem ser encaminhadas. Na prática, isso significa que romper o silêncio nem sempre garante acolhimento.

Quando perguntamos a César sobre essa falta de estrutura, ele foi direto. Sem uma rede próxima, a vítima e a família podem se sentir ainda mais vulneráveis para denunciar. “A partir do momento que eu tenho a ausência de um órgão desses na minha localidade, eu vou ter um incentivo maior para aquele atleta se sentir desamparado.”

Esse desamparo apareceu em outras partes da nossa apuração. Quando conversamos com Breiller Pires, ele contou que a dificuldade começava antes mesmo da denúncia virar notícia. Dirigentes, atletas e pessoas do meio evitavam falar sobre o assunto, como se tocar no tema significasse criar um problema maior do que o próprio abuso. Por isso, em sua investigação, precisou buscar processos judiciais, denúncias formais e registros que comprovassem aquilo que muitos preferiam deixar escondido.

Silvana Trevisan ressaltou outro problema. Para ela, o abuso nasce, muitas vezes, da relação de poder entre adultos e jovens atletas. Treinadores, olheiros, empresários e outras figuras próximas podem se aproveitar da confiança que ocupam no sonho daquela criança. Por isso, defende orientação às famílias, campanhas nacionais, canais de denúncia e conversas claras sobre limites dentro do esporte.

Joanna Maranhão mostrou o que acontece quando essa confiança é quebrada cedo demais. Na infância, ela não tinha vocabulário para entender o que sofria. Depois, transformou a própria história em luta, estudando sobre o assunto e ajudando a mudar a forma como a lei olha para vítimas de abuso sexual na infância.

No fim, todas as entrevistas voltavam ao mesmo ponto: não basta esperar que uma criança fale. É preciso que clubes, famílias, instituições e profissionais saibam ouvir antes que o medo, a culpa ou o peso do sonho falem mais alto.