Natália Sousa é jornalista, escritora, roteirista e autora do podcast “Para dar nome às coisas”. Foto: Amanda Fogaça
Maria Eduarda Cruvinel e Olívia Rezende (2° semestre)
Sem pensar em monetização ou estratégias, o podcast “Para dar nome às coisas” surgiu de forma espontânea, como um lugar de conversa calma e íntima, com um tom quase terapêutico. Natália Sousa, jornalista, escritora e roteirista, é autora do podcast e conta como tudo começou e como soube gerenciar seus trabalhos para que o produto não seja sua única fonte de renda.
Ela também ressalta a importância de construir um projeto com propósito e profissionalismo, além de conectar-se com o público. Para ela, a monetização foi a consequência de seu trabalho, e não seu objetivo.
Maria Eduarda: Em seu podcast, você traz muito dessa proposta de uma mesa de bar, de ser mais calma em uma geração de podcasts que costumam ser mais caóticos. De onde surgiu essa ideia?
Natália Sousa: Na verdade, o “Par dar nome às coisas” não nasce de uma forma muito estratégica, ele surge em um churrasco de carnaval em 2019. Foi um amigo que sugeriu criar o podcast, e na época eu sentia muita falta de ver pessoas falando sobre assuntos como fracasso, medo de não ser suficiente, essas coisas que são um pouco mais delicadas, mas muito humanas em primeira pessoa. Daí que vem esse lugar da voz mais calma, por serem assuntos quase de terapia. Então, não é muito estratégico, mas eu acho que vem com essa energia.
Olívia Rezende: E em relação ao seu livro [O Medo de Dar Certo, publicado em 2024], você teve a ideia de criá-lo depois do seu podcast ou você já tinha muita vontade de escrevê-lo?
NS: O meu primeiro sonho de vida foi ser escritora, mas meu primeiro livro nasce num processo de luto, que chama “A Tua Vida em Mim”. Eu comecei a escrever porque era o único lugar em que eu conseguia dar conta daquela dor. Ele nasce no pré-podcast, em 2016. Em 2019 o podcast chega e o livro nasce com o “Para Dar Nome às Coisas” já encaminhando.
ME: Você acha que o podcast abriu portas para o livro ter mais visibilidade?
NS: Foi um divisor de águas na minha carreira. Foi por causa dele que as pessoas começaram novos projetos pela sua grande repercussão. Mas, para mim, era um começo, meio e fim. Ele não era um projeto profissional, era um projeto para eu atravessar, e quando o podcast nasce, as pessoas começaram a se interessar por aquilo que eu pensava.
Quando suge o livro, ele entra na lista Public News, que mede os autores nacionais mais vendidos naquele mês. Entre todos os escritores já mortos e vivos que vendem no Brasil, ele ficou em sétimo luga. Foi muito bizarro ver como a força da comunidade é potente. As pessoas estavam realmente interessadas e colocaram ele entre os mais vendidos do Brasil.
O podcast me deu esse impulsionamento na venda dos livros, eu basicamente trabalhei como jornalista até o final de setembro, e hoje eu trabalho com palestra, com livro e com podcast. Por conta dele que isso aconteceu, essa ideia das pessoas se interessarem por aquilo que eu penso.
ME: Como a ideia inicial do podcast não era a monetização, quando você viu a primeira oportunidade dele crescer? Quando você viu essa oportunidade de monetização?
NS: Quando o podcast surge em 2019, a gente coloca ele no ar pagando do próprio bolso. Então, meu amigo Walter queria muito fazer esse podcast para ter o portfólio. A Amanda, que é minha namorada, fazia identidade visual. Com um ano de trabalho,
começou a me incomodar a ideia de que o Walter não estava recebendo nada. Foi quando eu comecei a pagar do meu próprio bolso R$ 200 para ele.
Em 2020 o Spotify assinou um contrato de exclusividade com a gente, ficamos nele por dois anos, ou seja, eles pagavam para a gente criar.
No terceiro ano eles mudam a política de monetização e passam a fechar com algumas marcas e fica metade da publicidade para eles e metade para a gente. Só que, por ser jornalista e também por ter um uma visão sobre as coisas que é muito própria, eu falei: “Eu não quero fazer porque eu vou ter menos controle sobre o que vai ser anunciado no meu podcast”.
A gente preferiu abrir mão de uma grana, que poderia ser boa, por uma construção de credibilidade que é uma coisa muito difícil de construir e uma vez que você perde, é muito difícil reconstruir. O podcast hoje tem algumas parcerias comerciais, mas todas as publicidades que eu faço são de coisas que eu uso.
OR: Você ainda assim mantém a maior parte dos posts no Spotify por preferência da plataforma?
NS:: O primeiro ponto é que nunca pensamos nisso com prioridade. E por uma questão também de que, por muito tempo, os podcasts eram só áudios. O “Para dar nome às Coisas” é um dos poucosque ainda são só áudio. Então a gente não via muito sentido, mas era mais por uma questão editorial do que por urgência de parceria com o Spotify, porque hoje o programa está em todas as plataformas.
ME: E hoje em dia, se você fosse escolher, o que seria melhor? Essa exclusividade com o Spotify, ou ter o podcast em mais plataformas?
NS: São coisas diferentes, no sentido de que na época que a gente tinha essa exposição com o Spotify, eles ajudaram a gente a ter uma visibilidade que foi muito boa, muito grande e importante para a gente. Somos extremamente gratos a eles, mas em algum momento a gente precisava seguir com as próprias pernas. É sobre ter coisas específicas para o momento específico adequado.
ME: Por estar disponível apenas em formato de áudio, ficamos curiosas em onde ocorrem essas gravações, se você aluga um estúdio, se você tem seu próprio estúdio…
NS: O programa “Para dar nome às coisas” é gravado do mesmo jeito desde o primeiro diada existência dele, que é no meu quarto. A gente tem um gravador H1N. Aí, eu gravo em casa, mando pela internet para o Walter, ele edita, me manda, eu ouço e a gente coloca no ar, é assim desde o início.
OR: Você já recebeu alguma proposta para gravar em estúdio?
NS: Quando a gente pensa em podcast, existe uma imagem muito forte de uma galera no estúdio fazendo mesa cast. E aí a gente nem imagina e nem cria outras possibilidades. Eu, por exemplo, nunca recebi proposta de gravar em estúdio, na verdade, muito por conta dessa parceria com o Spotify.
Dificilmente você vai começar a fazer podcast vivendo de podcast. Então, você não vai ter estrutura para alugar um grande estúdio. Às vezes, você não vai ter grana para investir nesse lugar.
ME: Você acredita que gravar dentro do seu quarto acaba te abrindo mais para esse ambiente que você se sente em casa mesmo?
NS: Sem dúvida. E eu acho que isso é um ponto muito importante também, inclusive para quem quer começar, pensar nesse lugar seguro. Gravar no meu quarto falando sozinha seria muito diferente se eu estivesse gravando no estúdio com outra pessoa me olhando.
OR: Você tem uma um público bem específico, sendo a maioria mulheres. Você acredita que nichar o público ajudou a manter uma base sólida?
NS: Quando comecei o “Para dar nome às coisas” e vi os algoritmos, eu entendi que se eu continuasse falando sobre relacionamento, eu chegaria em uma audiência maior muito rápido. Só que eu sabia que isso não era sustentável para mim.
Eu não fiz um projeto para falar sobre relacionamento. Eu fiz um projeto para falar sobre as coisas que eu tenho vontade de fazer. E eu acredito que isso fez com que eu chegasse a uma audiência sólida devagar, mas que essa audiência se tornasse uma solidez mais certa.
Eu acho que para quem quer fazer podcast, como a gente tem muita referência hoje, acredito que o importante é o que você gostaria de falar e pelo que você é apaixonado. Não é o que vai funcionar, não é o que você acha que vai ser melhor, porque senão a gente começa a ver um monte de podcast igual.
OR: Quais são as principais dicas para quem está começando?
NS: Primeiro, construa uma jornada sólida, defina um tema que você gostaria de tratar, um tema que você acha que é interessante. E se eu pudesse dar uma dica maior do que isso: se afaste de tudo que existe. Fique um tempo sem ouvir nada que existe e se conecte com você mesmo.
Eu acho que a monetização é a última coisa que você deve pensar nesse início. Primeiro construa, se orgulhe daquilo que você está colocando no mundo.
Pense no podcast como construção de carreira, você colocaria isso no currículo? Sendo jornalista, isso é uma coisa que você se orgulha de fazer? É uma coisa que você acha que engrandece a sua carreira?
É olhar com profissionalismo para isso e não ter pressa de monetizar, porque vai demorar.