Guga Chacra alerta sobre a proibição de entrada de repórteres em áreas de guerra

Guga Chacra entre o Guilherme Costa (coordenador de jornalismo), Denilde Holzhacker (Diretora de Negócios e Tecnologia) e Alexandre Uehara (Diretor de RI) em palestra para estudantes de professores de Jornalismo e Relações Internacionais, no Teatro ESPM. Foto: Felipe Dauar

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Guga Chacra entre os professores Guilherme Costa (coordenador de jornalismo), Denilde Holzhacker (Diretora de Negócios e Tecnologia) e Alexandre Uehara (Diretor de RI) durante a palestra para estudantes de Jornalismo e Relações Internacionais, no Teatro ESPM. FotoFelipe Dauar

Ana Clara Ferrari, Ana Vitoria Antonio, Enzo BapstellaIsabela Kishimoto (1º semestre)

A proibição da entrada de repórteres em áreas de guerra e a tentativa de governos de impor narrativas oficiais foram os principais alertas do jornalista Guga Chacra em sua palestra na ESPM, nesta terça-feira (25). Comentarista internacional da GloboNews e professor master de Jornalismo e Relações Internacionais da instituição, Chacra destacou a gravidade da censura à imprensa em territórios de conflito no Oriente Médio, ressaltando o papel insubstituível do repórter na busca pelos fatos.

Em entrevista exclusiva ao Portal de Jornalismo da ESPM, Guga alertou sobre os riscos de cobrir guerras à distância, longe do front. “Os países têm interesse em vender a sua narrativa. Claro que existem as declarações oficiais que você tem que observar, mas o trabalho jornalístico acaba sendo fundamental para averiguar exatamente o que aconteceu. Eu sempre achei a proibição da entrada de jornalistas muito grave, pois o profissional não está lá para ver a realidade com os próprios olhos”, explicou.

Ao detalhar essas barreiras o jornalista, que já cobriu conflitos no Oriente Médio, citou as diferenças de acesso na cobertura atual. Enquanto no Irã a imprensa internacional ainda consegue atuar — apesar das severas limitações e do controle imposto pelo regime —, a Faixa de Gaza enfrenta um bloqueio total.

“A guerra de Gaza é uma outra questão. Israel proíbe, e sempre proibiu ao longo de todo o conflito, a entrada de qualquer jornalista estrangeiro na Faixa de Gaza. Não pode entrar. Mesmo o território não sendo deles”, denunciou o jornalista.

O desafio da Inteligência Artificial

Além do bloqueio físico e da censura estatal, Chacra discutiu um desafio contemporâneo imposto ao jornalismo investigativo: o uso de ferramentas digitais para forjar provas em meio ao caos da guerra.

Questionado sobre como a imprensa pode investigar abusos quando vídeos e áudios podem ser criados por Inteligência Artificial, ele comentou que as grandes redações já utilizam softwares avançados de verificação. Contudo, destacou que o “faro jornalístico” continua sendo a primeira barreira de defesa. Segundo Chacra, o contexto e o histórico importam: “uma declaração ou atitude totalmente incompatível com o que se conhece sobre determinada figura política já deve ser o primeiro sinal de alerta para a checagem”, explicou.

Trump na política internacional

Durante o encontro no Teatro ESPM, que reuniu alunos e professores das duas graduações, o jornalista também desenhou a sua visão do atual cenário geopolítico global. Especialista no Oriente Médio, Guga analisou a resiliência iraniana frente ao ocidente.

“O Irã vive sob sanções desde 1979. Em alguns momentos mais, em outros menos. Mas o país tem bastante dinheiro por causa do petróleo e acaba conseguindo se manter”, explicou. Ele lembrou ainda que o alinhamento com a China fortalece Teerã e que a lógica do regime é a da sobrevivência extrema: “Eles percebem que, quanto mais confrontam os Estados Unidos, mais coisas conseguem. É um regime fruto de revolução, todos no poder sabem que podem morrer a qualquer momento. Então, vão para o tudo ou nada”, analisou.

O jornalista, que hoje atua como correspondente da GloboNews nos EUA, também avaliou como esse conflito tem tido impacto no Governo e na política externa do presidente desse país, Donald Trump. “Ele colocou os Estados Unidos em mais um conflito no Oriente Médio. Isso abalou a imagem do Trump, porque fracassou”, pontuou sobre o que apontou como uma falha estratégica do mandatário que tem perdido popularidade no país.

Ao responder às perguntas dos estudantes sobre as eleições brasileiras, Chacra minimizou a possibilidade de interferência direta dos EUA no resultado das urnas no Brasil. Apesar de reconhecer que Trump tem clara preferência por governos ideologicamente alinhados à sua agenda, o comentarista avalia que o cenário eleitoral já está bem desenhado e polarizado, com figuras políticas bastante conhecidas do eleitorado. “Para mim, já está tudo na equação. Não tem muito o que mudar”, resumiu.

A palestra desta terça-feira (25) foi o segundo encontro de Guga Chacra com os alunos em São Paulo nesta semana — o primeiro ocorreu na segunda-feira (24). Dando continuidade à sua agenda como professor master da ESPM, o jornalista viaja nos próximos dias para realizar uma série de atividades com os estudantes da universidade no Rio de Janeiro.