Prédio principal do Complexo Hospitalar do Juquery em Franco da Rocha em 2025. Foto: Maria Eduarda Begue
Elisa Clozel, Isabelle Santos e Maria Eduarda Begue (3º semestre de Jornalismo)*
* Trabalho realizado para a disciplina de Grande Reportagem, sob orientação do professor Antonio Rocha Filho
Walter Farias passa o dedo pela cicatriz funda que atravessa sua perna como um risco antigo no concreto. A marca é fina, mas firme, e ele a percorre como quem confere a própria existência. “Eu rasgava minha perna para saber há quantos dias eu estava isolado naquela cela”, diz, numa voz que não treme, mas carrega uma quietude que parece vir de algum lugar que ainda não encontrou saída. Dentro do Complexo Hospitalar do Juquery, o tempo não passava, ele escorria. Escorria pelos corredores úmidos, pelas camas de capim onde pacientes respiravam como se esperassem autorização para continuar vivos, pelos urubus que pousavam na cabeceira dos internos como sentinelas de um mundo que já não se parecia com o nosso.
O Juquery não foi sempre ruína. Inaugurado em 1898 como colônia agrícola para tratamento de “alienados”, ergueu-se em um terreno de aproximadamente 600 mil metros quadrados, às margens do rio que lhe deu nome, projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo e idealizado pelo psiquiatra Francisco Franco da Rocha. Pensado inicialmente para cerca de 800 leitos, com alas masculinas e femininas, o hospital cresceu rapidamente: uma década após a inauguração, já contava com mais de 700 pacientes. Nas décadas seguintes, passou por sucessivas ampliações e, na sua fase de maior lotação, entre os anos 1960 e 1970, chegou a abrigar cerca de 10 mil internos sob sistema de clausura.
Antes de cruzar os portões do hospital, Walter ainda era um homem tentando conquistar uma vida melhor. A região não oferecia muito mais do que silêncio e escassez. Ele, aos 20 anos, carregava o mesmo desejo que tantos outros jovens das cidades pequenas carregam: o de trabalhar, estudar, ganhar o próprio dinheiro e buscar uma vida estabilizada. Naquela época, qualquer vaga era uma oportunidade. O Juquery apareceu assim, como uma opção prática, não como destino. Era, para ele, apenas um emprego público numa época em que ninguém estava contratando. Um concurso que prometia salário certo e estabilidade. Apenas isso.
No dia em que recebeu a notícia de que tinha sido aprovado, em 1972, contou como quem divide boa sorte. A família comemorou, e ele também. A ideia de trabalhar em um hospital psiquiátrico não assustava. Ele sequer tinha referências sobre o que era loucura, tratamento e contenção. Acreditava na palavra hospital, como se ela bastasse para garantir cuidado, tratamento e ordem. Acreditava que aprenderia o que fosse necessário quando chegasse lá, que haveria supervisão, treinamento e alguém disposto a orientá-lo naquele trabalho que exigia humanidade.
No seu primeiro dia de trabalho, ele atravessou os portões sem crer que aqueles passos dividiriam sua vida em duas partes que, anos depois, ele mesmo teria dificuldade e traumas ao lembrar como era. O caminho até o setor onde deveria se apresentar já trazia um cheiro que ele não conhecia. Era uma mistura pesada de mofo, suor e algo indefinível, como se o ar não tivesse circulado durante décadas. Ele respirou fundo, acreditando que era apenas impressão de recém-chegado, mas mesmo anos depois, a sensação não passou.
A superlotação apareceu diante dele antes mesmo que alguém explicasse qualquer coisa. Corredores cheios, gente amontoada, funcionários caminhando depressa como quem tenta resolver o dia sem olhar diretamente para o que acontece ao redor. Walter esperava encontrar um hospital, mas o que viu lembrava mais um depósito de gente. Pacientes deitados em camas de capim improvisadas, outros sentados no chão, alguns nus, outros vestidos com pedaços de tecido. Um dos pacientes, ele lembra, permanecia imóvel, em silêncio absoluto, olhando para a parede como quem tenta se encontrar dentro do próprio corpo.
Pacientes abandonados dentro do Juquery. Foto: Reprodução Acervo Museu Osório César
Walter notou também os urubus. Estavam ali, pousados nas vigas, observando sem pressa. Pareciam parte natural do cenário. Mais tarde, Walter entenderia que eles vinham em busca dos restos, dos corpos frágeis demais para reagir. No começo, porém, aquilo o paralisou. Outro funcionário passou por ele sem estranhamento, como se a cena não merecesse comentário. Foi ali que Walter percebeu que a realidade daquele lugar tinha lógicas próprias, e que para sobreviver a ela seria preciso aprender aquelas regras.
Um hospital que se torna depósito
Ala de quartos dos pacientes considerados menos graves do Complexo Hospitalar do Juquery. Foto: Arquivo Edgard Leuenroth. Fundo História do Juqueri
Em meados da década de 1990, registros apontavam cerca de 1,8 mil internos em condições de alta: idosos sem doença mental primária, pessoas com deficiência física ou intelectual e pacientes em potencial de reinserção social ainda confinados em regime asilar.
O Complexo Hospitalar do Juquery nasceu como símbolo de modernidade psiquiátrica no início do século XX. Ele se consolidou, ao longo das décadas, como espaço de depósito de populações empobrecidas, indesejadas e, muitas vezes, internadas por motivos alheios a qualquer diagnóstico médico, como “inútil”, “vergonha para a família”, “alcoólatra” ou “mãe solteira”.
Nada no Juquery lembrava um ambiente hospitalar. Não havia orientação, treinamento ou alguém encarregado de explicar como agir diante do caos. O que existia era movimento contínuo, uma informalidade dura que misturava ordens gritadas, improviso e desespero. Walter recebeu o uniforme e foi encaminhado para um pavilhão sem que ninguém perguntasse se ele sabia lidar com pacientes psiquiátricos. Na verdade, parecia não importar. A filosofia implícita era outra: ali, todos aprendiam vendo. E quem aprendia devia aprender depressa.
Enquanto caminhava entre as camas, teve a primeira sensação de que algo não cabia na palavra hospital. Tudo era destinado a caber em espaços pequenos demais, corpos empurrados uns contra os outros, vozes sem descanso, uma sujeira que nunca parecia deixar de voltar. A impressão era de que o lugar tinha vida própria, um organismo que respirava pesado e impunha seu ritmo a todos que entravam nos seus domínios.
Walter não esperava que naquele prédio antigo, sem cura e humanidade, o mundo que ele conhecia começava a desmontar lentamente. A partir daquele momento, ele deixou de olhar para o hospital como um emprego e começava a compreender que ali não era um lugar que se atravessava ileso.
Durante esse tempo, ele se deu conta de que trabalhar no manicômio não era apenas executar tarefas. Era atravessar um território onde a violência não chegava como surpresa, mas como método e que não havia nada de humano ali. O que chocava nos primeiros dias logo se transformava em hábito, porque ali tudo era repetição. A repetição ensinava a suportar o que seria insuportável em qualquer outro lugar.
Por outro lado, José da Conceição, ex-funcionário e enfermeiro formado pelo Juquery, apresenta uma perspectiva distinta. “Tortura eu não vi no Juquery, o que eu vi foi a negação de direitos”, diz, vendo práticas como avanços médicos da época. Essa visão evidencia as contradições internas: o que para internos era violência, para alguns funcionários era norma justificada pelo contexto médico.
Paciente deitado na ala de quartos do hospital do Juquery, em Franco da Rocha (SP). Foto: Arquivo Edgard Leuenroth. Fundo História do Juqueri
Uma das cenas que mais marcaram Walter acontecia nos pavilhões mais cheios. Pacientes que ficavam meses na mesma posição, imobilizados por descuido, tinham as costas abertas, feridas vivas expostas ao ar pesado do hospital. Ele lembra do dia em que viu um homem magro demais para a própria idade, deitado sobre o capim gasto, com a pele rasgada até o osso e um urubu o cercando. Foi a primeira vez que ele entendeu, sem que ninguém precisasse dizer, que naquele lugar o corpo era sempre o último a ser ouvido.
Ele se lembra com uma dureza que vem de quem já não tenta suavizar a verdade. “As costas ficavam em carne viva, e a gente tinha que virar o paciente com cuidado, mas o cuidado era luxo. Na maioria das vezes, tinha tanto ferimento que o lençol grudava na pele, e arrancar aquilo fazia o homem gritar como se estivessem tirando um pedaço dele. A única coisa que a gente podia fazer era passar água fria e seguir. Não tinha remédio, não tinha curativo, não tinha ninguém para orientar”.
Muitos pacientes chegavam a esse estado porque ninguém conseguia lidar com a quantidade absurda de internos. Era gente demais, dor demais, tempo de menos. Em alguns setores, dois psiquiatras tinham de dar conta de dezenas de milhares de pessoas. A matemática era impossível, e a consequência caía sempre sobre os corpos mais frágeis.
Havia ainda um ritual cruel que ele aprendeu a reconhecer. Quando abriam algumas celas para retirar os pacientes, eles saíam cobertos de fezes, como se fossem esquecidos dentro do próprio cheiro. Aquilo não era um descaso deliberado. Era a lógica do sistema. Se você tentasse limpar o paciente sem proteção, ele te agredia, porque já não reconhecia toque como cuidado. Então o que faziam era imobilizar, muitas vezes com violência. Ele olha para baixo ao lembrar, como se a memória tivesse peso físico. “A gente batia até o rapaz desmaiar, depois dava banho. Era assim que ensinavam. Era assim que funcionava.”
A própria estrutura empurrava todos para o mesmo ponto. Funcionários entravam sem treinamento, sem instrução, sem escolha real. Aos poucos, aprendiam a agir como o sistema esperava. O Juquery não só exigia força. Exigia que essa força fosse bruta. E, na repetição diária, Walter entendeu que o hospital não deformava apenas os pacientes. Deformava quem trabalhava lá. Um pouco a cada dia.
Entre cuidado e punição
A transferência de Walter não veio com explicação clara. Apenas informaram que ele deveria se apresentar no manicômio judiciário, um setor considerado ainda mais duro, mais tenso, mais imprevisível. Ele seguiu o corredor longo que separava os pavilhões comuns da ala judicial e sentiu que a temperatura do ar mudava à medida que avançava. Lá dentro, tudo parecia mais pesado, como se a própria construção tivesse sido feita para apertar o peito de quem entrava.
O manicômio judiciário não tinha a aparência de um hospital. As portas eram mais grossas, o barulho do metal mais seco, o silêncio mais agressivo. As janelas eram altas demais, impossíveis de alcançar, projetadas para que ninguém visse o lado de fora. O ambiente carregava a intenção de controle absoluto, um controle que se sentia até na respiração. A única comparação possível era com uma prisão. Não pela presença de grades, mas pela sensação de que, a partir dali, cada passo seria vigiado.
A rotina também mudava. Ali estavam os pacientes que haviam cometido crimes, entre eles, João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, internado ali nos anos 1970, até os que simplesmente haviam sido considerados perigosos demais para permanecer nos pavilhões comuns. Gente que misturava sofrimento mental com histórico policial, ou que simplesmente havia sido enviada ali por falta de outro destino. A linha entre quem precisava de cuidado e quem “precisava” de punição nunca era totalmente visível.
Não houve anúncio solene para a passagem de Walter de funcionário a interno. Ele queria ser demitido, mas a direção negou; começou a faltar ao trabalho e, chamado para uma conversa com os diretores do Complexo, surtou dizendo que não trabalharia mais. Foi assim que se tornou paciente.
Numa manhã, foi afastado de suas funções e conduzido para avaliação. Ele lembra do corredor que percorreu com uma mistura de confusão e resignação. Não havia anúncio formal, nem explicação detalhada. Apenas disseram que ele precisava ser observado. Quando chegou à sala onde ficavam os prontuários, sentiu o peso do olhar dos funcionários que o reconheciam. Era como se, naquele instante, o Juquery tivesse decidido onde ele deveria estar.
A entrega dos pertences foi o gesto que o marcou de forma definitiva. Pediram que retirasse os objetos que carregava no bolso, que entregasse o que fosse dele. Ele colocou o que tinha sobre a mesa e percebeu que nada ali era valioso, mas tudo era pessoal. Ao recolherem seus itens, recolheram também o último traço de identidade que separava o funcionário do interno. A roupa que recebeu em seguida tinha o mesmo tecido áspero que vira nos corpos que cuidava. Vesti-la foi aceitar, mesmo sem concordar, que agora estava do outro lado.
Walter diz que sentiu como se estivesse entrando numa duplicação de si mesmo. O homem que assinara o contrato para trabalhar no Juquery já não era o mesmo que estava sendo conduzido para o pavilhão. A perda do nome foi o golpe final. No prontuário, deixou de ser Walter Farias. Passou a ser mais um entre milhares.
A rotina da internação começou imediatamente. A porta se fechou atrás dele com um estalo que ecoou no corredor estreito. O ar parecia mais frio ali dentro, e o silêncio mais denso. Não havia cama de verdade, apenas a improvisação que ele já conhecia de ver nos outros. Só que, agora, era para ele. Deitou-se e percebeu que o tempo, que antes lhe escorregava pelas mãos no trabalho, agora se tornava uma ameaça. Sem relógio, sem calendário, sem referência. A partir desse momento, Walter começou a contar os dias do único jeito que tinha: na própria pele. Foi ali, naquela primeira noite como interno, que a queda deixou de ser pressentimento e se tornou certeza.
Dentro do pavilhão, para Walter a queda não tinha fim. Era como se cada dia revelasse um novo fundo, e cada fundo abrisse espaço para outro ainda mais profundo. Ele conhecia o Juquery por dentro quando era funcionário, mas a visão do interno era outra. Era maior, mais crua. Não havia como desviar os olhos. Tudo o que antes parecia bagunça agora se revelava como sistema. Tudo o que antes parecia rotina agora se mostrava como condenação.
Os eletrochoques vinham como rotina. Primeiro, o som da máquina sendo preparada, um clique duro, frio, que atravessava o ar e deixava tudo mais estreito ao redor. Nada era explicado. O corpo era deitado, segurado, encaixado na maca. O silêncio antes da descarga era sempre o mesmo, espesso, tenso.
Quando o choque atravessava o corpo, tudo apagava. A sensação era de sumir. Uma alma arrancada à força. Depois, lentamente, como quem volta de um lugar escuro e desconhecido, o corpo retornava, mas fora de ordem, cada parte despertando num ritmo próprio. E quando tudo finalmente se acomodava, surgia o vazio. Um buraco silencioso dentro do peito que durava horas, horas demais.
As injeções imobilizadoras eram outra forma de desmonte. A agulha mal tocava a pele e o corpo já começava a ceder. Os músculos endureciam primeiro, duros como pedra, e logo depois se desfaziam, pesados, obedientes. A tontura tomava conta dos sentidos como uma névoa grossa. A consciência permanecia, mas presa. Era como tentar mover um corpo que já não respondia, como se o mundo tivesse ficado distante demais. O tempo se embaralhava; as horas pareciam manchas, as luzes trocavam de cor, os corredores do Juquery se dissolviam até virarem um borrão indistinto.
Walter estava deitado na maca fria quando as mãos firmes dos enfermeiros prendiam sua cabeça. O estalo seco atravessa o crânio e faz o estômago encolher. A retirada dos dentes é um rompimento total. O gosto metálico de sangue se instala e permanece por dias, insistente. Mastigar dói. Engolir dói. A boca parece estranha, vazia, como se faltasse um pedaço do próprio rosto. Não há explicação, não há cuidado depois. Só a ausência definitiva dos dentes, marcando o corpo de Walter como se não lhe pertencesse mais, como se agora fosse propriedade do hospital que o moldava à força.
A música como último território
A saída de Walter do Juquery aconteceu quase como um desarme lento. Depois de dois meses preso à rotina do manicômio, aos gritos que cortavam a madrugada e aos silêncios que pareciam nunca terminar, foi a família quem insistiu até conseguir retirá-lo de lá. No dia em que cruzou o portão, o sol pareceu mais forte do que lembrava, quase agressivo, como se o mundo inteiro tivesse ficado grande demais. O corpo ainda obedecia como dentro do hospital: passos curtos, respiração contida, o reflexo de esperar ordens que já não vinham.
Em casa, tudo parecia ao mesmo tempo familiar e estranho. A própria voz soava diferente. As mãos tremiam. A rotina precisava ser reaprendida, como se alguém tivesse virado sua vida do avesso e deixado o tecido exposto. Foi nesse intervalo de reconstrução, entre o que restava dele e o que ainda precisava ser refeito, que a música voltou a ocupar espaço.
No começo, veio devagar. Uma lembrança distante de acordes que tocava antes do internamento. Depois, virou necessidade. Walter percebia que, quando aproximava os dedos do instrumento, algo dentro dele se organizava. As melodias não apagavam o Juquery, mas diminuíam seu peso. Os ruídos da memória recuavam. O hospital deixava de ser o centro do mundo por alguns minutos.
Tocar não era fuga. Era lembrança. Era a linha que o conectava ao homem que existira antes do prontuário, antes da maca fria, antes do estalo que tirou seus dentes superiores. A música devolvia nome, ritmo, forma. Ali, entre notas e gestos pequenos, Walter conseguia existir sem pedir permissão.
Em um sistema feito para apagar identidades, tocar era o que restava de resistência. Uma fagulha íntima, quase silenciosa, mas poderosa o suficiente para afirmar que ainda havia algo dele que o Juquery não tinha conseguido levar.
Walter Farias, ex-funcionário e paciente do Complexo Hospitalar do Juquery, em Franco da Rocha (SP). Foto: Maria Eduarda Begue
O incêndio que queimou a memória
Décadas depois de sua internação, o nome Juquery voltou a atravessar a vida de Walter pelas chamas. O incêndio de 2005, que destruiu o prédio administrativo do Complexo, consumiu milhares de relatórios médicos, aproximadamente 15 mil livros e os prontuários de todos os pacientes atendidos ao longo de mais de um século de existência da instituição. Documentos que não haviam sido transferidos para arquivos externos desapareceram com o fogo, uma perda irreparável para pesquisadores da história da psiquiatria no país.
Foi diante da televisão que Walter viu o anexo em chamas, o céu laranja refletido no concreto. A estrutura não foi restaurada até hoje.
Parte dos prontuários mais antigos, referentes às primeiras décadas de funcionamento, chegou posteriormente ao Arquivo Público do Estado em lotes, graças a esforços técnicos, mas o incêndio destruiu uma massa documental que jamais será recomposta. Para usuários, familiares e ex-internos, isso significa a impossibilidade de reconstituir histórias, comprovar internações ou compreender percursos de tratamento que ficaram presos em cinzas e lacunas.
Um hospital que funda uma cidade
A relação entre o Juquery e Franco da Rocha é tão estreita que o próprio município leva o nome do psiquiatra que idealizou o hospital. O complexo foi marco de políticas de saúde pública e psiquiatria no estado de São Paulo e centro em torno do qual se formaram vilas operárias, serviços e a própria malha urbana.
Na década de 1970, quando Walter circulava pelos pavilhões lotados, o hospital abrigava cerca de 10 mil pacientes. Atualmente, não há mais mais internos. Os últimos foram realocados em 2021, quando parte do local foi usada como centro de tratamento da Covid-19, durante a pandemia. Os prédios antigos foram desativados. A área onde funcionava o Juquery é hoje ocupada pelo Hospital Estadual de Franco da Rocha.
O tombamento do conjunto pelo órgão estadual de patrimônio reconhece o valor histórico da arquitetura e o papel do complexo na formação da medicina e da política de saúde mental paulistas, convivendo com edifícios abandonados e áreas de difícil acesso.
Psiquiatria, manicômios e a virada antimanicomial
O Juquery não foi exceção na história da psiquiatria brasileira. Assim como os hospitais de Porchat (São Paulo) e Barbacena (Minas Gerais), ele acumulava denúncias de superlotação e violações, que culminaram na CPI dos Manicômios em 2002. Esse movimento nacional, aliado a uma redemocratização política, impulsionou mudanças decisivas no modelo de tratamento psiquiátrico no Brasil.
Ao longo do século XX, grandes hospitais especializados se consolidaram como eixo central do tratamento de transtornos mentais, baseados na internação prolongada, na ruptura com a vida comunitária e em práticas de contenção física e química que frequentemente punham em segundo plano direitos e autonomia dos pacientes.
Esse modelo começou a ser questionado mais estruturadamente a partir dos anos 1970 e 1980, com o surgimento do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental e o fortalecimento da luta antimanicomial, além da criação do Sistema Único de Saúde.
Em 2001, a Lei 10.216, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Paulo Delgado, estabeleceu diretrizes para a substituição progressiva dos manicômios por uma rede de atenção psicossocial baseada em tratamento em liberdade, serviços territoriais e garantia de direitos. Na prática, essa virada implicou fechamento gradual de leitos em grandes hospitais psiquiátricos, criação e expansão de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), residências terapêuticas e centros de convivência. O Juquery não ficou imune: a partir dos anos 2000, a instituição deixou de receber novos internos, e os últimos pacientes remanescentes foram transferidos em 2021.
Hoje, Franco da Rocha conta com alguns Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), essenciais na desinstitucionalização. No entanto, há desafios como subfinanciamento, filas de espera e risco de reestruturação que repete modelos antigos, sublinhando que a reforma ainda está em construção.
O mecanismo manicomial
A psicóloga e psicanalista Kelly Macedo Alcântara apresenta o Juquery como emblemático da lógica manicomial brasileira: “No próprio Juquery, assim como em outros hospitais, o que se viu foi uma grande lotação de pacientes, que viviam em situações de precariedade, não só em cuidado em saúde mental, mas em outras dimensões, como de cuidado em relação à higiene, alimentação, saúde de uma maneira mais ampla, não só restrita à saúde mental, dimensão da socialização, que é absurdamente restrita”.
Laudo de um paciente internado no manicômio de Juquery. Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo
Ela detalha ainda a exclusão social profunda. “Essas pessoas ficaram institucionalizadas, muitas vezes completamente solitárias no que diz respeito a qualquer vínculo com o mundo fora do hospital e internamentos de longa permanência. A lógica manicomial faz com que o manicômio e a experiência de internação, em muitos casos, em muitas histórias, tenham sido, a partir do dia em que essa pessoa foi retirada do seu local de pertencimento social e familiar, a única forma de vinculação que essa pessoa viveu, muitas vezes até a morte”, diz. Kelly também nota internações indevidas de pobres, desviantes sociais, de pessoas com identidades de gênero diversas ou grávidas adolescentes, revelando o manicômio como controle moral.
Bilhete de um paciente ao seu médico. Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo
No Juquery, predominavam principalmente práticas punitivas e disciplinares, com maior ênfase nessas últimas em detrimento das abordagens terapêuticas, sobretudo por meio do uso intensivo de medicação. Essa medicalização em larga escala funcionava como um mecanismo de controle social. A falta de recursos profissionais e políticas públicas adequadas evidencia a enorme dificuldade de oferecer um cuidado integral à saúde mental.
Os impactos permanecem, se manifestando na perda profunda da autonomia, na dependência da instituição e na fragilização do sentimento de pertencimento e identidade, estados em que o indivíduo já não consegue se imaginar fora da experiência de estar vinculado a uma instituição de longa permanência.
Kelly destaca a importância da reforma antimanicomial ao afirmar que os dispositivos de cuidado em saúde mental, como o CAPS, são um eixo fundamental da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial). Segundo ela, essa rede tem promovido a redução significativa dos leitos psiquiátricos e o fechamento das instituições de longa permanência, além de valorizar o território como espaço de cuidado. As políticas de desinstitucionalização, como os serviços residenciais terapêuticos, refletem essa transformação.
Os CAPS representam uma ruptura profunda com o modelo hospitalocêntrico, oferecendo um cuidado territorial que evita o isolamento. Em vez disso, tratam a pessoa em seu contexto social e familiar, promovendo autonomia e mantendo as portas sempre abertas, ao contrário da tutela permanente.
A psicóloga chama atenção para os desafios atuais, destacando a escassez de recursos para a saúde mental, a desigualdade regional no acesso, pressões por retrocessos e setores que defendem o retorno dos hospitais psiquiátricos. Ela também aponta a precarização das equipes e a integração insuficiente entre saúde mental, assistência social, educação e justiça.
Ela conclui que o estigma do adoecimento mental continua sendo uma das maiores barreiras nesse campo. Para ela, a conscientização exerce um papel vital: sem ela, o manicômio persiste, não necessariamente em prédios físicos, mas principalmente em nossas práticas e discursos diários.
Resposta
Entramos em contato com a Secretaria Municipal de Saúde de Franco da Rocha, por telefone e e-mail, com o objetivo de obter um posicionamento sobre as práticas vigentes relacionadas ao cuidado em saúde mental, bem como informações específicas acerca da situação atual do Juquery. Buscamos contato também com a administração do Complexo Hospitalar do Juquery para obter informações sobre o antigo hospital e solicitar autorização para visitar o espaço.
Ao todo, fizemos quatro tentativas de contato telefônico. Nem todas as ligações foram atendidas e, nas ocasiões em que obtivemos resposta, as respostas limitaram-se a informações superficiais, sem esclarecimentos sobre o estado de conservação do complexo, sua gestão ou as possibilidades de acesso ao local.
Quando solicitamos a realização de uma visita, fomos informadas de que qualquer autorização dependia do Governo do Estado de São Paulo e de uma série de procedimentos burocráticos que extrapolavam a competência da administração local. Na tentativa de aprofundar a apuração, também fomos pessoalmente ao complexo. Funcionários presentes não deram esclarecimentos sobre o local.
Até a publicação desta reportagem, não recebemos qualquer resposta por parte dos órgãos consultados. O espaço permanece aberto para manifestação das instituições.