Herbert Moraes é ator e integrante da escola de artes Mudat, em Guarulhos (SP). Foto: Acervo pessoal
Nicole Rizzo e Maria Clara Thamer (2º semestre)
Herbert Moraes é ator formado em Teatro e TV pela escola Incenna. Integra a companhia Esôpos e também é professor de teatro no Colégio Laruchi, em Guarulhos (SP). No palco, dá vida a diferentes personagens em peças como “Guerreiras Mágicas do K-Pop” e “O Halloween da Família Sombria”.
Movido pela paixão à arte e pelo desejo de torná-la acessível a todos, Herbert passou a integrar a escola de artes Mudat, em Guarulhos (SP), um espaço que oferece aulas de teatro, teclado, violão, bateria, dança e até jiu-jitsu para crianças da comunidade.
Nesta entrevista, ele fala sobre sua trajetória no mundo artístico, os desafios de iniciar um projeto com foco social e o poder transformador da arte na vida das crianças.
ESPM: Como surgiu seu envolvimento com a escola onde trabalha hoje?
HMt: Em 2021, no meio da pandemia, eu tinha uma amiga, que era atriz e fazia parte de um grupo de teatro da igreja dela. Esse grupo já existia há cerca de dez anos e sempre foi muito ativo, eles montavam peças dentro da igreja e, com o tempo, começaram a ser convidados para se apresentar em outros espaços e festivais. Eu entrei mais tarde, a convite dela, quando o grupo já estava bem estruturado. Durante a pandemia, porém, tudo precisou parar. As apresentações foram canceladas e a igreja ficou praticamente vazia. Quando as atividades começaram a retornar, ainda de forma lenta, ela veio com a ideia de criar uma escola de artes, para que aquele trabalho pudesse continuar de um jeito mais sólido e com alcance maior, principalmente para as crianças da comunidade.
ESPM: Como a escola garante o acesso de crianças da periferia aos cursos, considerando os valores de mensalidade e matrícula?
HM: No começo, a ideia era oferecer às aulas totalmente de graça para a comunidade. Com o tempo, percebemos que seria inviável manter o projeto sem recursos, passamos a cobrar um valor simbólico, cerca de R$50 apenas dos alunos que pudessem pagar. Para os que não tinham condições, criamos um sistema de bolsas, com um número limitado por turma para garantir a sustentabilidade do projeto e o pagamento justo dos professores.
Mesmo sendo um trabalho com propósito social, é importante valorizar o profissional que dedica tempo e deslocamento para dar aula. Nosso objetivo é equilibrar o acesso à arte com a valorização de quem a ensina. Queremos oferecer às crianças da periferia o mesmo nível de qualidade que escolas caras, como o Incenna, mas em um contexto muito mais acessível.
ESPM: Onde acontecem essas aulas?
HM: As aulas acontecem na igreja, onde temos um salão grande com várias salas: uma específica para teclado e violão, e no salão maior ficam as aulas de artes, dança e jiu-jitsu, que precisam de mais espaço.
ESPM: O que é o Sábado Cultural e como ele se tornou uma parte importante do trabalho de vocês na escola?
HM: O evento Sábado Cultural acontece todo terceiro sábado do mês e é quando apresentamos nossas peças, que não fazem parte do culto. No começo, as peças eram curtas e apareciam na ministração, mas cresceram tanto que os pastores começaram a apoiar e sugeriram substituir a palavra pela peça. Isso mostrou que o teatro é visto como algo transformador, que transmite mensagens de forma acessível, especialmente para quem não frequenta a igreja.
ESPM: Como o teatro e o Sábado Cultural ajudam a aproximar a comunidade da escola e da arte?
HM: Eu não nasci na igreja evangélica, mas fui aproximado pelo teatro aos 16 anos, quando amigos me chamaram para assistir a uma peça do grupo. Se fosse para ir direto na igreja, eu nunca teria ido. Isso me fez pensar que, se aconteceu comigo, pode acontecer com outras pessoas também. Por isso, começamos a usar o teatro para aproximar as pessoas, mesmo que o culto em si incomode quem não está acostumado.
O “sábado cultural” é esse momento: as pessoas chegam, sentam para assistir à peça, que geralmente dura entre 45 minutos e 1h30, e aproveitamos para apresentar a igreja, o projeto e a escola. Às vezes, também fazemos festivais de dança, música e shows de talentos. O principal objetivo é usar esse espaço para atrair mais pessoas, que conheçam a escola e se tornem alunos.
ESPM: O que mais te chama atenção nas reações das crianças ao conhecerem o teatro pela primeira vez?
HM: Sou de Guarulhos, que até tem cultura, mas o incentivo para crianças é menor. Para adultos há muitas peças, mas para crianças, quase nada, e o pouco que tem não é divulgado, principalmente na periferia. É incrível ver a reação deles ao nosso trabalho. Nosso grupo não é um “Wicked”, é um teatro normal, mas para eles nós somos isso, o que me orgulha.
Meus alunos do infantil, entre 9 e 10 anos, têm mais acesso à cultura que a média das escolas públicas, assistindo peças e estudando todo mês. Na igreja, nosso projeto é inovador e me orgulha. Apesar das dificuldades e do trabalho, está dando frutos.
ESPM: Você comentou da primeira reação das crianças. E tem alguma história ou experiência que você já viu de alguma criança que você pode relatar?
HM: Teve uma menininha muito talentosa, seu talento era difícil de perceber porque teatro é diferente de cantar ou dançar. Quando entrou no grupo, já era desinibida e falava bem, mas o teatro a fez florescer. Ela fez um teste no SBT, passou e agora tenta uma agência com ajuda dos pais. Muitos alunos não são da igreja; dos cerca de 20, mais da metade não tem religião, mas se interessam pelo teatro pelo trabalho no Instagram, mostrando que o projeto ultrapassa barreiras.
Outro exemplo é uma garota de nove anos, que amadureceu rápido cuidando de sua irmã com autismo, e às vezes fica impaciente com outras crianças. Ela fala bem, entende o subtexto e expressa sentimentos profundos, como em seu papel de bruxa frustrada. Apesar do talento, nunca foi protagonista, pois o projeto é pedagógico e busca dar chances para crianças com mais dificuldade. Lívia é a atriz mirim da companhia e vai participar do festival Festa de Cristo, onde deve ganhar o prêmio de melhor atriz. O grupo já viajou muito, mostrando o impacto do trabalho, fundamental para crianças que talvez não teriam acesso ao teatro.
ESPM: Você acha que é possível quebrar as barreiras que dificultam o contato dessas crianças com a arte?
HM: Para quebrar barreiras, primeiro precisamos identificá-las. Hoje, uma das maiores é o excesso de estímulos digitais, como telas e Reels, que deixam as crianças dispersas e com dificuldade de concentração, essencial para o teatro. Na igreja, meus alunos conseguem se concentrar melhor, mas em outras escolas de Guarulhos são mais dispersos e hiperativos, porque o cérebro não está preparado para tanto estímulo. Por isso, não permito celular nas aulas e converso com os pais, explicando a importância do teatro, além de levar os alunos mais velhos para assistir peças, pois o contato direto com a arte faz diferença.
Para os pequenos, sem apoio dos pais, é difícil o filho se sentir engajado. O envolvimento dos pais vai além de pagar a aula; eles precisam acompanhar, comprar livros, levar às peças e museus, conversar sobre o que viram e mostrar que valorizam o que o filho faz. Muitas vezes, a criança quer continuar para passar mais tempo com os pais, e esse apoio é fundamental para a autoestima. No Brasil, a arte é vista como lazer, não necessidade, dificultando o incentivo, e os pais esperam que o filho siga uma profissão tradicional. Mesmo assim, a arte não precisa ser a profissão, mas parte da vida para que o aprendizado faça sentido. No fim, os alunos que mais permanecem são os que têm pais que apoiam e acompanham.
ESPM: Você comentou sobre o teatro e a importância dos pais apoiarem. Como a arte e o teatro influenciam para a formação das crianças e adolescentes como cidadãos? E você acha que a arte pode mudar a vida deles?
HM: Eu acho que a arte é fundamental para o desenvolvimento da nossa personalidade. A criança nasce espontânea, fala o que pensa, mas com o tempo vai se moldando a padrões. A arte é um refúgio para quem você realmente é: não só uma profissão ou algo que você gosta, mas uma expressão da sua vida interior. Ela traz a possibilidade de você se enxergar de fora, por meio do autoconhecimento e da construção da personalidade. Em um mundo em que as relações estão muito padronizadas pelas redes sociais, e as crianças querem se encaixar imitando os outros, a arte ajuda a valorizar as peculiaridades individuais, desenvolvendo autoconsciência, autocontrole e autoconfiança, o que é essencial para que a criança se torne uma pessoa mais forte e segura de si.
Além disso, vejo no teatro uma transformação prática na disciplina e na empatia das crianças. Embora muitas sejam naturalmente elétricas e bagunceiras, o teatro as ensina a respeitar o coletivo, a ouvir e apoiar o outro em cena, fortalecendo a conexão humana. O teatro exige que o ator deixe o ego de lado para focar no personagem e na interação com o público, o que torna as pessoas mais generosas e empáticas. Essas qualidades são essenciais para o convívio social e, para mim, o aspecto mais importante do ensino artístico são esses valores, como o respeito, disciplina e empatia que ajudam a formar cidadãos mais conscientes e humanos.
ESPM: O que você acha que no Brasil a gente pode fazer que ainda falta para democratizar a cultura?
HM:Tem um debate que eu sempre escuto: tem gente que acha que cultura e educação são a mesma coisa, e tem gente que acha diferente. Eu admito que não tenho opinião formada. O Gil Cadore Oliveira disse que o maior problema do teatro é ter começado a associação teatro à educação. Como o brasileiro não liga para educação, também não ligam para teatro, e os artistas passaram a depender muito de incentivo público, focando mais em leis de incentivo do que em ganhar dinheiro. Hoje muitos atores buscam patrocínio do governo ou projetos como a Lei Rouanet, eu sou um deles. Mas a peça da igreja não pode se inscrever em leis de incentivo por ser religiosa, o que dificulta ainda mais.
Hoje cobramos R$50 de mensalidade simbólica e pedimos 1 kg de alimento para eventos, que ajuda famílias da igreja. Mantemos a escola com apresentações esporádicas em igrejas e teatros, cobrando só o custo da viagem e, às vezes, recebendo ofertas que ajudam o caixa. O grupo surgiu na igreja, mas hoje é independente e aberto a outras denominações, o que dificulta explicar para patrocinadores, que pensam que o dinheiro vai para o pastor,o que não acontece. Buscamos patrocínio, mas é difícil, porque arte no Brasil só acontece com patrocínio público ou privado. Acredito que, com projetos culturais sólidos, mesmo em ambientes com preconceito artístico como a igreja, pequenas iniciativas como a nossa podem transformar realidades locais, que no fim são o que realmente muda o país. A arte cria um ecossistema econômico e social que vai além do palco, movimentando desde quem vende pipoca até quem ensina teatro, fortalecendo comunidades e fomentando oportunidades para jovens artistas.
ESPM: E quais são os seus próximos passos?
HM: Buscar patrocínio é ideal e estamos trabalhando para isso, porque a escola com esse valor não tem como se sustentar a longo prazo. Estou vivendo um momento muito intenso, fazendo muitas peças e começando a delegar funções, por exemplo, já combinei com um amigo para substituir minhas aulas de teatro jovem no próximo ano. Meu sonho é virar só coordenador, conseguir administrar o projeto sem estar diretamente envolvido, porque cansa muito equilibrar a vida artística com a parte empresarial, que envolve pensar desde o fechamento do caixa até a organização de detalhes das peças e dos alunos.
Também sonho em um dia termos um imóvel próprio, sem perder a parceria com a igreja, que faz parte da essência e dos valores da escola, influenciados pela minha criação cristã. Quero que a escola seja independente e competitiva no mercado, mas mantendo essa identidade e essa base de valores que considero tão importantes, para que o projeto continue crescendo de forma sustentável e com qualidade.